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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A MÚSICA COMO ARTE E O SEU PODER

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Jovem Mozart

 

Para uns, a maior de todas as artes. Para outros, a mais perigosa.
O sublime, o arrebatamento, o êxtase que pode alcançar, a espiritualidade e transcendência que dela pode emanar, as sensações e sentimentos impessoais, intransmissíveis e insubstituíveis que transporta e transmite, a sua linguagem metafísica e emoções ultra-humanas, a alegria e tristeza que nela existem em simultâneo, a sua harmonia e acesso espiritual nas instâncias superiores da inteligência, fazem da música uma arte maior, a maior de todas as artes, para muitos. Ultrapassa-nos como realidade artística, intelectual e erudita de feição humanista, condizente com as belas artes, com uma cultura de eleição, superior e não determinista, tornando-se inalcançável, quando não incompreensível na sua plenitude, que ao mesmo tempo nos preenche plenamente, compensando-nos e maravilhando-nos objetiva e subjetivamente, dado o seu lado celestial, divino e sublime.
Essa vertente sublime, transcendente, inalcançável e inultrapassável, torna-a incapaz de ser formatada ou delimitada, dada a sua infinitude não controlável, nem palpável, a sua imaterialidade. É uma negação da matéria física, sem peso, não ocupando espaço, em paralelo com o ar que respiramos ou a língua que falamos. Foge às leis entendíveis da razão, estando para além da razão pura, do estritamente racional, criando e inovando pela intuição, pela emoção, pelo sensível. Essa sua caraterística permanente não passível de formatação ou delimitação torna-a, para muitos outros, perigosa, dado o seu indeterminismo e não sujeição às leis racionais da física e da matéria, suscetível de conduzir a situações não controláveis, de indisciplina ou irracionais, podendo ser uma ameaça para o poder instituído. A que acresce a consciência oceânica de certas experiências pessoais, definidas por uma prática em que o indivíduo mergulha numa realidade envolvente, originando um sentimento eufórico do grupo em fusão ou em sentimento oceânico, com uma perda de perspetiva crítica, em que a música e os jovens são tidos como exemplo de marca.  
Desta ambivalência e divergência de opiniões se conclui que se na antiguidade tinha o fim sagrado de reverenciar o Ser Supremo e, em tempos mais recentes, e mesmo atuais, elevar a alma humana às alturas das alturas espirituais e do transcendente, de igual modo se banalizou, vulgarizando-se e massificando-se gerando, por vezes, anseios e interesses tidos como instintivamente menores. Razão pela qual diversos géneros de música nos levam a exteriorizar comportamentos mentais e emocionais específicos.
De tudo isto decorre também o poder dessa substância incorpórea e intangível que se exprime pelo som, que o ser humano não domina... 
Mesmo que se defenda que toda a arte é boa porque promove as boas ações, o que nos levaria, desde logo, a tentar definir, se possível, o que é a arte e a não arte, não deixa de ser significativo ser tida, com frequência, como um meio para bons estados mentais, sendo estes um fim compensatório em termos emocionais e existenciais, o que também se aplica à música, como arte, com a particularidade de através de uma música de eleição aspirarmos ao infinito, dada a nossa finitude em relação à profundeza infinita da natureza humana.
Tendo a música uma linguagem metafísica universal e abstrata, é transversal a todos os aspetos do ser humano, na sua capacidade inata de expressar e tornar compreensível o que nos pode ser incompreensível, desaconselhável ou proibido manifestar por palavras, rumo a uma alternativa harmoniosa e interdependente, onde utopia e realidade aliem esforços, permitindo exprimir-nos em liberdade e num diálogo contínuo, assim se reforçando o seu poder e a sua louvação como arte. 

 

7 de abril de 2015

Joaquim Miguel De Morgado Patrício