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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIRVOS

Guilherme d'Oliveira Martins
de 10 a 16 de fevereiro 2014

 

A publicação das «Atas do Colóquio Internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen», organizadas por Maria Andresen de Sousa Tavares e pelo Centro Nacional de Cultura (Porto Editora, 2013) é um momento que merece constituir-se na melhor homenagem que Sophia desejaria ter – a da revisitação da sua obra, a da leitura dos seus belíssimos textos e a do culto da poesia como suprema homenagem à língua e ao sentido humano da criação literária.

 

 

 

A LITERATURA E A VIDA

Nessa ligação entre a literatura e a vida, a melhor marca da suprema qualidade de procurar sem descanso os sentidos da existência, a poeta foi inexcedível. Sempre que ouvimos a sua voz, límpida e clara, foi para glorificar a dignidade do ser. E com que emoção escutamos Nuno Teotónio Pereira dizer: «Sophia foi para mim um exemplo permanente de honestidade e coragem»… E sabemos bem como foi dura essa coragem, de romper, quando seria mais fácil ser indiferente, de afirmar, quando seria mais cómodo calar, de insistir, quando seria mais prudente esperar. Quem conhece a biografia de Sophia, sabe bem que trilhou sempre os caminhos mais perigosos e árduos (com uma especial inocência), em nome da coerência e da justiça. Gastão Cruz fala de «palavra exata» e «de uma solenidade de dicção e de postura que nada tinha de pretensioso e em que a ética e a estética se confundiam». E José Manuel Mendes lembra, com extremo rigor, como, no Centro Nacional de Cultura, Sophia foi capaz de fazer das fraquezas forças. Na Assembleia Constituinte, num tempo em que as palavras eram labaredas, animadas por uma luta acirrada e imediata, os seus discursos, lidos hoje, tempo passado, não perderam o brilho, o fulgor, a beleza e a atualidade. Como se os dias não tivessem andado rapidamente. É sempre a procura da dignidade do ser que lá encontramos, a força de pôr a pessoa humana no centro da liberdade, da cultura, da igualdade… José Manuel dos Santos diz-nos: «a felicidade de Sophia é uma poética do mundo e a sua poesia uma felicidade das palavras». Maria Andresen de Sousa Tavares, a verdadeira alma da iniciativa e da preservação do riquíssimo espólio, diz-nos que a qualidade das intervenções foi uma oportunidade única, não apenas para pensar a autora e a poesia, mas também para refletir sobre a importância da «paideia» e da «humanitas», que perpassam em toda a obra e na sua pujança irradiante. «Parece ser consensual haver nesta poesia um marcado confronto entre deslumbramento e terror, luz e escuridão, felicidade e morte». E Herberto Helder marca lapidarmente a compreensão da palavra de Sophia: «O poema existe por si, é uma forma impessoal que as mãos limpas arrancam à desordem para apresentar como ordem objetiva no meio das corrupções, inclusive as corrupções da nomeação». E Rosa Maria Martelo pôde articular a distância e a proximidade dos dois poetas, de um modo que serve para ilustrar o lugar central que Sophia tomou na história da literatura portuguesa, não apenas numa fugaz circunstância, mas no prazo largo. E que magnífica a imagem de Eucanaã Ferraz, a propósito de «Cesteira e Cesto» - «relacionando o louvor do trabalho da mão na arte da cesteira com o trabalho de elaboração do poema cujas matéria é a própria língua do poeta». Não é possível resumir a riqueza destas Atas nos limites de uma crónica. Só lendo. Recorde-se o texto de Teresa Amado, que inesperadamente já nos deixou, e que temos de invocar: «o lugar fulcral em que Sophia encontra Shakespeare é a poesia (…) e é nesse lugar milagroso que ela, mesmo dizendo-a assombrada pela escrita obscura e fulgurante do poeta inglês, lhe refaz o eco em português». Maria Andresen fala mesmo de uma «urdição poética que é feita entre a língua poética de Camões, a de Shakespeare e a da própria Sophia».

 

SONHAREI COM PAÍSES IRREAIS

«Ao voltarem as tardes outonais / Em que as formas das coisas se idealiza / A luz dum pôr do sol que se eterniza / Sonharei com países irreais». Este é um poema inédito de Sophia, escrito a lápis e datado de 1935. Nestes pequenos sinais encontrados no espólio, entende-se a maturidade que vai ganhando consistência e alma. E essa maturidade foi-se construindo, como nos define Miguel Serras Pereira, num belo ensaio: tal como o mito é narrativa exemplar, «a poesia exemplar de Sophia é a criação sem modelo que nos propõe como exemplo a seguir, ou seja, a continuar». E «o exemplo não é, portanto, aqui o de um roteiro de viagem segura, mas o daqueles que “navegavam sem o mapa que faziam”». E vem à lembrança o essencial, o cerne da compreensão da literatura: «Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura». Está tudo dito. E conhecer a poesia foi também, ao colo do avô Tomaz de Mello Breyner, ouvir e recitar a poesia suprema de Antero de Quental… E é neste ponto que desejo lembrar como o ensaísta contemporâneo que melhor soube ler Antero, Eduardo Lourenço, tão cedo entendeu o lugar excecional ocupado por Sophia nas letras portuguesas. Foi natural. Do mesmo modo que compreendeu Fernando Pessoa, para além do quintal estreito das primeiras impressões, o autor de «O Labirinto da Saudade» vai «pedir ajuda» a Sophia para compreender melhor a poesia da língua portuguesa: «Na topologia da nossa aventura poética, Sophia e Pessoa ocupam os polos opostos e nesse sentido a poesia de Sophia de uma maneira bem diversa e muito mais radical que a de poetas que conscientemente se quiseram “outros” que Pessoa inaugura ou põe termo à longa travessia da “consciência poética como consciência infeliz” que começa em Antero e tem em Álvaro de Campos a sua expressão “épica”». Mas onde está a proximidade? Está na aparente contradição. Está na complexidade da procura dessa aventura sem carta de marear. Assim se entende que Eduardo Lourenço fale dos poemas de Sophia como «pura voz do tempo e não tinham tempo». O clássico e o moderno encontram-se, e essa continuidade dá à obra de Sophia uma natureza perene que a torna, à medida que o tempo passa, uma referência fundamental da língua portuguesa, independentemente de modas ou de escolas. E devemos dizer, o que tem sido pouco salientado, que o ensaísmo de Eduardo Lourenço tem um singular paralelo poético em Sophia – e sabemos bem como os percursos foram diferentes, mas complementares. «Heterodoxia» é algo que se assemelha ao que encontramos em «O Cristo Cigano», entre Nietzsche e Lorca - «não deus do sofrimento nem de expiação, mas sim da dilaceração redentora» («Seu corpo não lembra uma coluna / É feito de suor o seu vestido / A sua face é dor e morte crua»). A poesia de Sophia procura a narrativa exemplar, como Eduardo Lourenço, ao tornar os mitos nacionais, chave crítica da nossa identidade, na demanda do mesmo enigma que constrói a riqueza original da autora de «Mar Novo».  

 

Guilherme d'Oliveira Martins