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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS


de 14 a 20 de abril 2014

 

Jacques Le Goff (1924-2014) foi um dos historiadores europeus contemporâneos com maior influência no final do século XX. «La Naissance du Purgatoire» (Gallimard, 1981) é já um clássico, onde se analisa a génese da sociedade moderna à luz da mudança de mentalidades.

 


Foto: La Croix

 

PERÍODO ESSENCIAL
«Descobri que a Idade Média (disse o historiador) foi um período essencial para a formação da nossa sociedade e da nossa cultura, talvez mesmo a mais importante. Foi, com efeito, na Idade Média que se pôs em prática o elemento fundamental da nossa identidade coletiva que é o cristianismo. Foi na Idade Média que vimos aparecer o Estado e a Ideia de soberania». Então nasceram as línguas atuais, apareceram as cidades modernas e o poder tornou-se urbano, além do surgimento das Universidades e da própria ideia de Europa. «Atrás da razão, a Idade Média soube ver a paixão do justo, atrás da ciência, a sede da verdade, atrás da crítica, a procura do melhor». O historiador considerava, assim, a Idade Média como a matriz da nossa cultura, não podendo, no entanto, esquecer-se a parte sombria desse tempo (durante o qual o historiador não teria gostado viver). Ao lermos a sua vasta obra, desde a análise da intelectualidade medieval até às biografias de S. Luís de França e de S. Francisco de Assis, compreendemos que tenha procurado escrever sobre a «história global» em «La Naissance du Purgatoire», onde analisa, com rigor e vitalidade, a emergência de novas estruturas mentais, sociais e económicas. As cidades favoreceram a autonomia individual e o surgimento de uma nova classe intermédia, a burguesia, a qual vai dar importância crescente ao capital, em lugar do patrimonialismo agrário… A partir de finais do século XII verifica-se no cristianismo a exigência de superação do dualismo recompensa / castigo, paraíso / inferno. A designação para o paraíso ou para o inferno dependia dos pecados cometidos por cada um, na terra, lugar de penitências e provações, para a humanidade atingida pelo pecado original. O Deus dos cristãos é bom e justo, cheio de misericórdia, mas dotado de severidade, decorrente do facto de as pessoas disporem de livre arbítrio, que permite a punição quando a pessoa se deixa abandonar ao génio do mal. O juízo final ditaria, assim, uma sentença definitiva, positiva ou negativa. Se é certo que, desde os primeiros séculos do cristianismo, os fiéis alimentavam a esperança de que a sorte dos mortos pudesse ser melhorada, através de orações, oferendas e sufrágios, a verdade é que só tardiamente é descoberto um lugar que permitirá reconsiderar das penas do inferno. De qualquer modo, há já quem entenda, desde muito cedo, haver dois infernos: um inferior e outro superior. Este último, era para os condenados com acusações mais leves. Do ano mil ao século XIII, os padres da Igreja julgaram como insuportável a simples oposição entre o paraíso e o inferno. Daí a formulação de uma terceira realidade, o Purgatório, onde os mortos pudessem ser «purgados» dos pecados graves. Trata-se, para J. Le Goff, da «interiorização do sistema religioso, que, da intenção à contrição, reclama do pecador mais uma conversão interina do que ações exteriores». Em vez de opor bons e maus, segundo a tese agostiniana – considera aqueles que ficariam durante um certo tempo, num lugar onde suportariam penas comparáveis às do inferno, igualmente infringidas por demónios. Assim, há uma associação das faltas cometidas por cada um, em ligação com o afeto dos próximos, cujo papel é tentar abreviar a permanência no Purgatório, através das suas orações, das suas oferendas e da sua interferência: numa palavra, funciona a solidariedade entre vivos e mortos. Como salientam Philippe Ariès e Pierre Chaunu, há um suplemento de biografia purificador – o purgatório tem apenas uma saída: o paraíso. E o morto poderá finalmente ser salvo no Juízo Final.

 

TRABALHAR COM DIVERSOS EXEMPLOS
A investigação de Jacques Le Goff é de extraordinária importância e atualidade. Com a figura do Purgatório, o morto tem uma nova oportunidade, que lhe permitirá ser finalmente salvo no Juízo Final. A investigação de Jacques Le Goff, a sua visão de conjunto, é do maior significado, baseando-se na leitura e análise de documentação vária dos séculos XII e XIII, designadamente o «Dialogus Miraculorum» do monge cisterciense Cesário Heisterbach (1220), no qual se estudam «exempla» de mortos no inferno, no purgatório e no paraíso. O tema da usura é paradigmático e tem importância relevante. O usurário se quiser evitar a condenação deverá repor ou restituir o dinheiro mal adquirido e confessar a sua falta. O sistema tradicional de resgate de que o usurário dispunha durante a vida e na morte compreendia confissão, contrição, ou arrependimento e satisfação ou penitência. Como se compreende é a contrição que ganha uma importância crescente neste período em que também as conceções económicas sofrem alterações significativas. O usurário é difícil de salvar, já que obriga a uma ação cumulativa de restituição e arrependimento. De facto, muitas vezes, com a aproximação da morte, não há tempo suficiente para conseguir os dois efeitos. Os exemplos analisados pelo historiador são muito ilustrativos, até para não perderem o efeito dissuasor, procurando evitar qualquer frouxidão prática.

 

O PURGATÓRIO E A ECONOMIA
Ao estudar a génese do Purgatório, o que Jacques Le Goff fez foi investigar a génese e o desenvolvimento da economia centrada no capital, progressivamente, encontrando a preparação ainda no período medieval. Notem-se, por exemplo, as cinco «desculpas» encontradas pela tradição escolástica para as práticas próximas da usura: (a) o dano emergente, ou aparecimento inesperado de um prejuízo devido ao atraso no reembolso; (b) o lucro cessante, ou impedimento de um lucro superior legítimo; (c) a remuneração do trabalho («stipendium laboris») por terra e mar, ir às feiras e até ter contabilidade merece um salário; (d) o risco sofrido pelo prestamista, já que a exposição aos «assaltos de Satã» ou aos inimigos pode gerar perturbações; por fim, há o cálculo da incerteza, que reconhece a ponderação da dúvida, o que pode dar lugar a um preço. Le Goff conclui: que um número crescente de usurários passa a ter probabilidade de se salvar do inferno, pela moderação e pela deslocação da sua atividade para empréstimos autorizados… É uma nova economia que nasce, é o comércio que se desenvolve, mais do que os fatores naturais - passa a funcionar o capital… E eis-nos perante um tema que revela uma capacidade única para mobilizar estudiosos e investigadores. E Jacques Le Goff compreendeu-o com grande sentido prático, disciplina e entusiasmo. Pierre Nora disse que era o último dos grandes – ao lado de Marc Bloch, Fernand Braudel ou Georges Duby – além de François Furet e Le Roy Ladurie… Umberto Eco, amigo do historiador, lembrou o cidadão, o combatente contra a intolerância e o estudioso, «menos dos acontecimentos que da cultura (como filosofia e teologia), sendo o seu livro sobre o Purgatório umas obra-prima inultrapassável em erudição e como exumação de textos esquecidos».


Guilherme d'Oliveira Martins