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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 27 de outubro a 2 de novembro de 2014.

 

Ángel Marcos de Dios é autor de «Escritos de Unamuno sobre Portugal» (F.C. Gulbenkian, Paris, 1985), que nos serviu de bússola no percurso que o Centro Nacional de Cultura organizou, sob a inspiração do nosso saudoso amigo Mário Quartin Graça, que Pedro Roseta coordenou com a segurança, o conhecimento e a sabedoria que todos lhe conhecemos.

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NOBREZA E HOSPITALIDADE
Salamanca recebeu-nos com a nobreza e a hospitalidade que todos conhecemos. Apesar da hora tardia de chegada ainda houve tempo para um jantar no Hotel Alameda Palace, capaz de recordar alguém que um dia, num grupo de notoriedades, ao sentar-se à mesa por volta da meia-noite numa jantarada em Espanha disse que mais de que jantar ou ceia se tratava de um pequeno-almoço… Não foi o caso, já que todos vinham de um almoço tardio em Santa Cruz do Douro (a outra mítica Tormes) cheios de entusiasmo por terem recordado Camilo, Eça e Junqueiro, Teixeira de Pascoaes e Eugénio de Castro, sempre com a presença forte de D. Miguel de Unamuno. Chegados às margens do verdadeiro Tormes, afluente do Douro, todos se sentiram recompensados por estarem finalmente na celebrada cidade do autor de «Por Terras de Portugal e Espanha». A ceia foi frugal e sem subtilezas. E no dia seguinte, pelas 10, hora bem prazenteira para quem fizera a longa estirada da véspera, todos estavam preparados para a «ruta unamuniana». A manhã estava bastante fresca, o que causou apreensões, depois de uma semana portuguesa de calor do verão de S. Martinho. Mas mal começou a caminhada, a temperatura foi subindo paulatinamente naquele clima seco de planalto. O sol tornou-se acolhedor e simpático e o tempo ameno acompanhou-nos durante o dia inteiro. Rumámos ao centro, com a companhia de Jesus Maria, cicerone simpático, com humor e bons conhecimentos. Paseo de la Estación, Plaza de España, Toro, Plaza Mayor, Calle Prior, até Bordadores, para onde foi viver o Mestre depois do reitorado, fazendo as suas proverbiais caminhadas em Las Ursulas e no Campo de S. Francisco. Lá está a estátua da autoria de Pablo Serrano, com o pensador com atitude de permanente interrogador e inconformista. Perante uma afirmação, tomava por sistema uma atitude crítica, essa a força do seu prestígio. D. Miguel era um incansável caminhante, considerando que a verdadeira Universidade fazia-se junto das pessoas, nas ruas, popular e próxima. A Plaza Mayor era um «corazón henchido de sol y aire». E era bom encontrar lá todos, desde os estudantes aos mestres, mas sobretudo a gente comum que ensinava a razão de ser dos costumes e a força do viver… E pode dizer-se que Salamanca, de tão antigas tradições, desde 1218, com tão grandes glórias - Frei Luís de León, António de Nebrija, Juan de Encina, Francisco de Vitória, Abrãao Zacuto, Gongora – tornou-se com Unamuno uma referência superlativa. Pedro Roseta recordou-nos em frente à casa de Bordadores (ao lado da Casa dos Mortos) os encontros com Guerra Junqueiro, e a confissão deste, ali mesmo, sobre o regicídio, que ele não desejara. Sente-se a presença do inconformista, vindo do País Basco, que não apenas se tornou professor de línguas e culturas clássicas, mas que se dispôs a interrogar o «sentimento trágico da vida». E foi essa atitude semelhante à de um Maine de Biran ou de Kierkegaard, centrada na «agonia do cristianismo», sendo o «agón», na aceção grega o permanente combate connosco em busca de um misterioso e difícil sentido, de singularidade inolvidável. Ser profundamente contraditório, Unamuno proclamou a República em Salamanca, com a autoridade de indiscutível mestre, mas deixou-se arrastar pela ilusão ordeira dos nacionalistas, até que, no paraninfo da Universidade, foi protagonista do trágico episódio em que respondeu à provocação de Millán-Astray: «Abajo la Inteligencia! Viva la Muerte!»: «Este é o templo da inteligência e eu sou o seu sumo-sacerdote. Estais profanando este sagrado recinto. Vencereis por que não vos falta força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir há algo que vos falta: razão e direito na luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha». Foi esse o último discurso do filósofo, a 12 de outubro de 1936. Nunca mais seria autorizado a regressar à sua cátedra, morrendo destroçado no último dia desse ano, quando já se feria a guerra cega e sangrenta… Tudo poderá dizer-se do grande mestre, mas nada melhor do que lembrar esse discurso duro e sereno (como ele disse dos poemas de Antero) que ficará na memória de todos enquanto houver humanidade…

 

QUE PENSADOR?
Que pensador encontrámos nesta extraordinária peregrinação invocativa? Um amante de Portugal, como ponto de encontro entre o lirismo da beira-mar e a tragédia marítima. Como diz Ángel Marcos de Dios, Unamuno sempre considerou Portugal como entidade independente; o seu amor pelo nosso país levou-o a tratar Portugal, cultural e espiritualmente, com um destino unido a Espanha, num iberismo espiritual. Daí não ter tido interesse em debruçar-se sobre a cultura de outros povos vizinhos da Espanha. E esse facto deveu-se ao especial interesse na busca dos temas fundamentais que o preocuparam no domínio filosófico, precisando da experiência portuguesa para melhor entender a identidade complexa da Espanha. Houve, de facto, contrastes psicológicos e paradoxos culturais que levaram Unamuno a compreender melhor do que ninguém alguns dos dramas espanhóis do final do século XIX, à luz da complementaridade peninsular, que levou Antero de Quental a pronunciar a célebre conferência «Das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» e Oliveira Martins a escrever a «História da Civilização Ibérica». Miguel de Unamuno considerou o século XIX português como o século de ouro – com destaque para a geração de Antero de Quental e de 1870, para os românticos que os antecederam (Garrett e Herculano, Camilo e João de Deus) e para os simbolistas que vieram depois (Pascoaes e Eugénio de Andrade)… Vendo-nos de fora, o autor de «Tia Tula» pôde usar um espelho para projetar e interpretar o drama de Espanha de 1898. E, ao ver o caso português, o pensador antecipou a tragédia que iria corroer o seu próprio espírito nos últimos dias de vida, já em plena guerra civil. Se dúvidas houvesse, basta ler o poema Portugal, que escreveu em 1907: «Portugal, Portugal, terra descalça / acocorada junto ao mar, tua mãe. / Chorando saudades / de trágicos amores, / enquanto os teus pés nus se banham / nas ondas salgadas, / tua verde cabeleira solta ao vento / - cabeleira de pinheiros que rumorejam - / os cotovelos descansando nos joelhos, / e a face morena entre as mãos, / pões os teus olhos onde o sol se põe, / sozinho no mar imenso, / e assim meditas no lento naufrágio / das tuas glórias do Oriente, / cantando fados de queixume e lentidão». Relembrámos tudo isto (depois de passarmos o Palácio de Monterrey, a Casa de las Conchas de D. Rodrigo Arias Maldonado, em que as vieiras são o brasão de armas de sua mulher e a invocação da Ordem de Santiago, e o Pátio das Escolas) na Casa reitoral que Unamuno habitou na Calle de los Libreros. Em cada canto pudemos voltar a recordar que o tema português não foi marginal no seu percurso intelectual. E se dúvidas houvesse aí encontrámos alinhados numa prateleira, em lugar de honra, os seis portugueses, que elegeu como símbolo da sua interrogação peninsular: Herculano, Oliveira Martins, João de Deus, Antero de Quental, Camilo Castelo Branco e Soares dos Reis. E Ángel Marcos de Dios disse-nos com meridiana clareza como cada um deles, muito mais do que em qualquer derrotismo, souberam compreender a vida como tragédia, que o mesmo é dizer, como combate pela compreensão, pela razão e pelo entendimento do sentir. São afinal, «homens de carne e osso», como começa a interrogação fundamental em «Do Sentimento Trágico da Vida»: «soy hombre, a ningún outro hombre estimo extraño»…». Foi uma lembrança de D. Miguel e do nosso amigo Mário Quartin Graça…, continuada na Plaza del Mercado no restaurante, significativamente chamado «As Meninas», para lembrarmos Diego Rodriguez da Silva Velasquez – a que se seguiu a ida à Plaza de Anaya à Faculdade de Filologia, onde ensinou Unamuno e às Catedrais Velha e Nova, reunião única do românico, gótico e barroco – verdadeiras sentinelas de Salamanca… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins