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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS


De 22 a 28 de dezembro de 2014.

«A Teoria do Mito na Filosofia Luso-Brasileira Contemporânea» de António Braz Teixeira (Zéfiro, 2014) é uma reflexão panorâmica que nos permite tomar contacto com a relação entre os mitos e a construção das identidades culturais como realidades complexas que põem em contacto as raízes e a evolução social, política e cultural.

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PRIMADO DO SÍMBOLO
Analisando o pensamento de José Marinho, o autor refere que «a imagem é a matriz de toda a simbólica», enquanto atributo do mito, acrescentando que «a funda relação entre mito e memória e a raiz mítica de todo o agir revelam que, no homem, a memória e a vontade têm natureza simbólica, significando, a primeira, que no passado ou como passado algo extremamente importante existe e a segunda que algo, igualmente de suma importância, deve ou pode ser alcançado ou realizado pelo agir humano, o que ajudará a compreender que o mundo mítico e o mundo simbólico, enquanto mundo das imagens captadas na sua mais pura, radical e primordial originalidades ou proximidade da origem, sempre acabe por persistir e perdurar, na mais visível e direta expressão simbólica, e nas suas manifestações mais patentes e explícitas ou nas suas significações implícitas, latentes ou veladas, a ponto de se poder dizer que “tudo o que se mostra, apercebe ou concebe, no espaço e no tempo, é símbolo”». Com efeito, memória e vontade relacionam-se pela afirmação das raízes que alimentam a ação – projetando-se em símbolos. Deste modo, e como salienta Almada Negreiros, o mito aparece como o momento correspondente às idades divina e heroica de Gianbattista Vico, enquanto o símbolo representa já a idade humana, como o número (motivo de especial atenção da parte de Almada), no momento em que a humanidade descobre a liberdade e a igualdade perante a lei. Mito e razão articulam-se, pois, enquanto o mito e o símbolo se constituem em vias de acesso e revelação da verdade humana «e daquele sagrado essencial que é a outra face do espírito indivisível que só o sensível torna patente». Isto, enquanto Afonso Botelho nos diz que o mito pode definir-se como «um drama divino que se repete ou representa segundo o tempo atualizável do teatro, segundo um tempo irreversível da História”, ou como «uma história de regresso».


MITO COMO MODELO EXEMPLAR
Não podemos, porém, esquecer o que Dalila Pereira da Costa nos lembra, confirmando a lição de Mircea Eliade, para quem o mito é uma «tradição sagrada, revelação primordial, modelo exemplar». Por outro lado, António Quadros fala-nos do mito como «uma história sobrenatural, exemplar e simbólica». Daí que importe deixar claro (como bem disse Afonso Botelho) que «o verdadeiro mito é sempre e só o mito da origem, ainda que múltiplas e diversas sejam as formas que tenha revestido e por mais oculto que se apresente na “misteriosa cosmogonia e na abscôndita teogonia”». Mito fundante seria o da referência paradisíaca da Ilha dos Amores, utopia criadora citada por Camões, como regresso aos tempos iniciais, além do mito firmante, que teria a ver com a sobrevivência do amor e da saudade, enquanto lembrança e desejo, como antídoto existencial do medo e da morte. Unamuno referia Portugal e os portugueses, por isso, como ponto de encontro entre o lirismo e a história trágico-marítima. O medo e a audácia vivem paredes meias. Eudoro de Sousa tem razão em falar do mito que «tem o seu lugar na profundidade que se antevê, para além do limiar do pensamento». «Vida é sonho», diria Pedro Calderón de la Barca… Vergílio Ferreira prefere, por isso, este mesmo sonho ao inconsciente de Hartmann. Para Eudoro, deste modo, o símbolo é a «coisa» elevada «ao plano da trans-objetividade, que é onde decorre o drama simbolizante, que transforma as coisas em símbolos». E Adolpho Crippa diz que o mundo da cultura é um espaço sagrado, razão pela qual tem de ser vinculado a um projeto criador, assente na universalidade da dignidade humana. Já para Vicente Ferreira da Silva, o mito envolveria a abertura de um regime de Fascinação, constituindo a tradução humana de um processo que a transcende. E o cristianismo (como reconheceu António Quadros) pôs em causa o mito como «biografia divina», já que Deus se nos revela diretamente através do mistério e da presença espiritual de Cristo… A consciência mítica torna-se reflexiva, passando do passado exemplar para a voluntariosa construção da História. E o certo é que José Marinho, no caso do «sebastianismo» português aparta-o do carácter de verdadeiro mito, preferindo dizer tratar-se de uma lenda profética. Por outro lado, o mito não é uma explicação, mas a explicitação de um mistério de origem, que deverá servir como auxiliar crítico da reflexão humana.


UMA LONGA HISTÓRIA
António Braz Teixeira faz uma análise do pensamento de diversos autores luso-brasileiros – desde Teófilo Braga a Urbano Zilles, passando por Oliveira Martins, Aarão de Lacerda, Teixeira Rego, Agostinho da Silva, Almada Negreiros, José Marinho, Eudoro de Sousa, Vicente Ferreira da Silva, Milton Vargas, Renato Cirell Czerna, Adolpho Crippa, Gilberto Kujawski, Vilém Flusser Vergílio Ferreira, António Quadros, Afonso Botelho e Dalila Pereira da Costa. E é assim que presenciamos um caminho determinado e persistente, na sequência do historicismo de Vico e do idealismo de Schelling – visando um esforço de compreensão da especificidade do mito no pensamento de hoje. Para cada um dos autores, encontramos os seus contributos e a indicação do modo como consideraram os mitos como chaves interpretativas e como fatores de reflexão crítica – como, aliás, nos demonstra hoje Eduardo Lourenço ao partir da leitura crítica dos mitos para a concretização da vontade humana, considerando os mitos como preciosos reveladores das origens e da iniciação, para culminarmos na formação de uma vontade consciente, ilustrada e aberta, capaz de ser emancipadora dos constrangimentos e limites. Transformar o amador na coisa amada, aparecer a unidade perfeita onde a dualidade existia, entre transcendência e imanência. E o tema do messianismo do Bandarra e do sebastianismo merece especial atenção, não como empolamento do irracional, mas como motivo de melhor compreensão da mitologia e da filomitia, que conduzem a uma tensão entre as explicações primordiais e a procura de saídas para os dias presentes, para além do fatalismo e das explicações redutoras. De facto «nenhum povo considerado nos seus limites históricos, dispõe de poder nem de “vigência universal” para criar mitos já que, sendo o verdadeiro e autêntico mito sempre originário, não se refere nem pode referir-se singularmente a um homem ou a um povo…». Eis, pois, a força crítica dos mitos, não para os tornar horizontes impossíveis, mas sim desafios de emancipação.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins