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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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De 28 de setembro a 4 de outubro de 2015.

O colóquio «Antero e a Cultura Crítica do século XIX» celebra os 150 anos da polémica do «Bom Senso e do Bom Gosto», momento fundamental no debate de ideias em Portugal e na procura de uma abertura de horizontes no sentido europeu e cosmopolita.

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SERÁ POSSÍVEL VIVER SEM IDEIAS?
Pode dizer-se que é em 1865, a propósito da chamada Questão Coimbrã, que se inicia o que Unamuno designará como «século de ouro português». Com razões fundas, José-Augusto França integrou esse momento na dinâmica do Romantismo português, considerando a polémica como um momento de transição: «o que se critica na escola de Coimbra não é a posição literária ou poética assumida, o seu estilo ou as suas ideias, ou mesmo a sua ideia –“mas a guerra faz-se à independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência”» («O Romantismo em Portugal», p. 857). O que está em causa é a necessidade de ideias. «Mas, Exmº Senhor, será possível viver sem ideias? Esta é a grande questão». E assim Antero assumia, perante António Feliciano de Castilho, a tradição das «luzes europeias»: «quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa (…): é Paris, é Londres, é Berlim» - no entanto «as três grandes nações pensantes são risíveis diante da crítica fradesca do Senhor Castilho». Um certo nacionalismo acomodado do romantismo decaído fora incapaz de pôr em xeque o atraso nas ideias. Afinal, o que estava em causa era a «defesa da liberdade e da dignidade do pensamento» contra as literaturas oficiais e a lógica burocrática. Estamos, pois, num capítulo da história do Romantismo. Lembremo-nos do percurso dos jovens iconoclastas. Antero de Quental estivera à cabeça da Sociedade do Raio e saudara o príncipe Humberto de Itália, como o «filho do primeiro soldado da independência italiana», com Teófilo Braga abandonara o salão nobre da Universidade em protesto contra uma legislação velha saída do Santo Ofício, exigindo «garantias para quem queria ser livre, digno e justo». O reitor demitiu-se e foi Antero o autor do Manifesto libertador. Como dirá Eça, vinham de lá dos Pirenéus «largos entusiasmos europeus», logo adaptados como próprios de uma juventude impetuosa e rebelde. E se dermos atenção às leituras dessa irrequietude encontramos Vico, Stuart Mill, Hegel, Michelet, Quinet, Renan e Proudhon… A diversidade é óbvia, a coerência é difícil. Do que se trata é de defender uma nova função da literatura. É o contraponto relativamente a quem considerava o poema patriótico de Tomás Ribeiro «D. Jaime» num ponto mais alto que «Os Lusíadas». Castilho incensou essa linha poética – o que suscitou a contestação irónica de Ramalho Ortigão, num tempo em que este se situava nas hostes do ancião. Também João de Deus não deixará passar em claro este estranho elogio. E Germano Meireles fala ironicamente de «trovadores de brisas»…


VINDOS DO ROMANTISMO
O certo é que, no início, o Romantismo mais sincero e exigente animara os jovens da nova geração. E Victor Hugo torna-se referência para Teófilo: em nome da construção de uma epopeia da humanidade e do resgate das fatalidades cósmicas e históricas em nome da liberdade. Teófilo Braga não tinha, porém, uma poesia muito fértil, Herculano critica-lhe os «desvios das simbólicas, das estéticas, das sintéticas, das dogmáticas, das heroicas, das harmónicas…». Camilo sente-se atarantado com a estética do Sr. Braga. Ao invés, a solidez poética de Antero de Quental é inequívoca. Castilho, perante «Odes Modernas» (de 1865), elogia-o, contudo, de um modo tão vago que enfurece o jovem poeta. Herculano enaltece «Flebunt Euntes», que Antero lhe dedicará, Camilo é também destinatário de sete sonetos – onde a dúvida está bem marcada («Conquista, pois, sozinho o teu Futuro, / Já que os celestes guias te hão deixado»). Mas o severo sentido crítico é evidente e como antes não se conhecera, contra o mundo burguês, os ricos, os tiranos, o clericalismo… Antero dirá que há um fundo romântico nas Odes, uma singular aliança «do naturalismo hegeliano e do humanitarismo radical francês». Fala, contudo, da «missão revolucionária da poesia», diz que «a poesia moderna é a voz da revolução». E o poeta recusa «viver fora da história e do progresso». Com ironia, diz que, em Portugal, «sob os nossos tetos reina o contentamento dos simples». Filho de um dos bravos do Mindelo, Antero procura, no fundo, dar vida à tradição humanista dos seguidores da «boa razão», em termos que compreendam a revolução social («O novo mundo é todo uma Alma nova, / Um Homem novo, um Deus desconhecido»). O que transvasou o copo na chamada «Questão» foi a carta de elogio de Castilho publicada em posfácio no volume «Poema da Mocidade Seguido de Anjo do Lar» de Pinheiro Chagas. O velho mestre ataca terminologia dos novos (como Herculano fizera), mas o zelo excede-se já que pretende recomendar o seu compadre Chagas para a cátedra de Literaturas Modernas no Curso Superior de Letras.


A LÓGICA DO ELOGIO MÚTUO
Afinal, a lógica do «elogio mútuo» escondia interesses que em muito ultrapassavam à mera lógica literária. Antero responde com a argumentação já referida, não seria possível viver sem ideias, as nações pensantes não podiam ser escondidas pela crítica fradesca… E numa segunda carta defende a liberdade e a dignidade do pensamento e considera que contra as literaturas oficiais tudo é preferível. E Teófilo salienta que «uma das primeiras condições da arte é a verdade», o que define o território da polémica para além do idealismo. Entretanto, Castilho pressiona amigos seus para virem a lume defender a sua parte. Camilo entra a contragosto, criticando mais Teófilo, e deixando Antero (que lhe dedicara parte das «Odes») numa certa penumbra… E aqui entra Ramalho Ortigão a atacar nos jovens de Coimbra o seu carácter «palavroso e mistifório». A imprudência dos termos leva Antero a subir ao Porto para defrontar Camilo e Ramalho. O primeiro demove-o do intento relativamente a si com palavras mansas e leva-o ao confronto com Ramalho, que tinha fama de ser bom espadachim. A verdade é que na Arca de Água é Antero que vence graças a uma cutilada no braço do adversário. Aqui se iniciará a mitologia que levará ao grupo dos cinco no Palácio de Cristal. Entretanto, os amigos de Castilho mobilizaram-se. Tomás Ribeiro chegou a dizer no Parlamento: «Temo que o norte em vez de sábios e profundos pensadores nos dê Hunos e Ostrogodos». O certo é que entre os velhos e os novos havia a distância da compreensão do tempo, do inconformismo que venceria a indiferença e o quietismo. «O movimento de 1865 é um movimento romântico. Ele irá dar, é certo, ao realismo – mas não imediatamente, apesar da diligência do espírito de Teófilo» - como afirma J.-A. França. «A visão do tempo (histórico), o sentido do moderno, da Ideia, faz que a batalha de Coimbra se apresente, no fim de contas, como uma luta entre dois romantismos» (p. 867). O que está em causa é a necessidade da independência do artista. Só as ideias são garantia de futuro. Para Antero, mais do que a polémica ou a literatura estava em causa «a maior liberdade de pensamento e os progressos do espírito». Daí a recusa do isolamento e a exigência de um sentido europeu. De 1865 a 1871, de Coimbra ao Casino Lisbonense, haverá uma evolução em que o fundo romântico, que se sente no «Bom Senso e Bom Gosto», evoluirá no sentido realista de que se ocupará Eça de Queirós nas Conferências. Antero introduzirá a Ideia hegeliana e uma consciência mística. Como dirá a Oliveira Martins: «A ideia poética sai tanto mais abundante e livre quanto mais clara e lógica é a ideia filosófica». O drama de Antero decorre desse paradoxo. Mas a sua grande lição advém do apelo para que «uma das primeiras condições da arte (seja) a verdade»…


                                                                                                  Guilherme d'Oliveira Martins