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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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De 9 a 15 de novembro de 2015

«Os Cavaleiros do Amor – Plano de um Livro a Fazer, Dispersos e Inéditos», de Sampaio Bruno, com prefácio e organização de Joel Serrão (Guimarães Editores, 1960) é uma obra póstuma na qual encontramos pistas importantes sobre a originalidade do seu autor.

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O CENTENÁRIO DA MORTE DE BRUNO
Sampaio Bruno (1875-1915), cujo centenário da morte assinalamos, é um dos autores portugueses mais complexos do final do século XIX e do início do século XX, com um percurso de independência, que encontra as suas bases na tradição liberal, seguida desde a juventude, e corresponde à abertura de horizontes do republicanismo, para além de uma perspetiva redutora ou sectária. Pode dizer-se que há uma orientação libertária no seu pensamento, que leva à recusa de uma lógica de grupo ou de escola – desde o jacobinismo ao positivismo - motivo para especial atenção, mas também para equívocos e incompreensões. Nesse sentido, a sua influência republicana pôde reforçar-se e consolidar-se ao longo do último século. Independentemente das ideias que defendeu e do modo como o fez, a sua atitude merece especial estudo, uma vez que a tradição republicana portuguesa deixou com ele de poder confundir-se com a mera lógica da primeira experiência de 1910. O republicanismo envolve horizontes múltiplos e compromissórios, entre os quais temos de integrar autores e correntes de diversas épocas até aos dias de hoje, em que temos os primeiros republicanos heterodoxos – desde as influências da «primavera dos povos» (1848), passando pela «Geração de Setenta» (estruturalmente republicana), pela Junta Patriótica do Norte, pelo grupo portuense do 31 de janeiro que se exilou em Madrid, no qual encontramos Sampaio Bruno e Bazílio Teles, mas também pelo diretório do Partido Republicano, pela Renascença Portuguesa, pela Águia, por Leonardo Coimbra, pela «Seara Nova» e por todos quantos foram abrindo caminhos novos na concretização da ideia de uma «Renovação Democrática».

UMA ESTRUTURA HETERODOXA
Como afirmou Joel Serrão: «Dada a estrutura heterodoxa da mentalidade de Bruno, nem qualquer monismo tradicional, nem mesmo o dualismo poderiam servir-lhe, a não ser provisoriamente, de meios adequados de pesquisa ou de conclusão. Para ele, a adoção quer de uma atitude e conceção materialistas, quer de uma atitude e conceção espiritualistas, acabaria por traduzir-se numa ortodoxia mal disfarçada» Deste modo, se compreende o caminho seguido que deveria ser o «temeroso e solitário da aventura dialeticamente pluralista, batendo autonomamente a todas as portas, dialogando com o materialismo de Büchner e de Marx, com os espiritualismos de Vacherot e de Hartmann, indo de Spinoza a Leibniz, de Leibniz a Spinoza, sem ceder nunca também, e correlativamente, à facilidade mortal do ecletismo». Quem ler atentamente os textos de Sampaio (Bruno) facilmente descobrirá que havia uma preocupação de seguir uma via que pudesse pôr em confronto as diversas componentes de uma realidade do tempo, complexa e multímoda. Daí a «Aventura tão perigosamente original, que lhe não bastavam os testemunhos dos filósofos e dos místicos, recorrendo também à interpretação de poemas, de prosa dos nossos escritores, até à indagação das causas ocultas ou não explícitas de dados eventos significativos da história pátria. Tudo lhe servia, e de tudo se servia, para abrir caminho, tentando rasgar a névoa, que o envolvia e com que sempre se debateu». Em bom rigor, a originalidade procura recusar as vias exclusivas ou de sentido único. A heterodoxia de Bruno deveu-se, assim, à necessidade de recusar as soluções que tinham desembocado nas respostas fechadas e unilaterais, em que tinham caído muitos dos seus companheiros de outrora da causa republicana. Não por acaso, o seu pseudónimo vai buscar referência a um mártir da liberdade, o dominicano Giordano Bruno (1548-1600), condenado pela intolerância inquisitorial romana por suposta heresia… A biografia de José Pereira de Sampaio (Bruno) revela-nos um percurso de grande capacidade reflexiva. E se muitas vezes se invoca o gosto de trilhar caminhos algo tortuosos, por paixão crítica, a verdade é que se encontram no conjunto dos seus escritos perspetivas de grande interesse até para compreensão da modernidade. Com 17 anos publicou «Análise da Crença Cristã – Estudos Críticos» sobre o cristianismo, dogmas e crenças, influenciado por Pedro Amorim Viana («Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé»). Não tendo prosseguido os estudos na Academia Politécnica do Porto, tornou-se autodidata, abraçando o jornalismo político nas hostes republicanas nos anos oitenta do século XIX. É um dos autores dos Estatutos da Liga Patriótica do Norte, onde estão Antero de Quental. Bazílio Teles e Luís de Magalhães, em reação ao Ultimato inglês. É um dos inspiradores da Revolução do Porto, exilando-se em Madrid e Paris – quando é lançado o «Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de janeiro de 1891». Regressado à pátria, em 1893, publica «Notas do Exílio» e em 1898 dá à estampa «Brasil Mental», onde critica o positivismo comtiano por ser «uma curva fechada», «um polígono cujas arestas não toleram que as ultrapasse a conjetura…». O exílio e o isolamento levam-no a uma crise mística e à procura da essência das coisas. Três obras irão dar-nos testemunho dessa busca para além dos limites: «O Brasil Mental», «A Ideia de Deus» (1902) e o «Encoberto» (1904). O reconhecimento de seres espirituais superiores que nos podem alertar para os perigos do futuro baseia-se num certo providencialismo, que Bruno transforma em pragmatismo político – muito próximo de Immanuel Kant. Partindo das Luzes, Bruno centra-se no racionalismo deísta, anticlerical e progressista na linha de Voltaire, donde parte para o misticismo hermético, no qual procura a essência da liberdade, igualdade e fraternidade. No dizer de Pedro Calafate: «Foi à luz (…) da ideia de liberdade e desta noção de dinamismo universal fortemente apoiado em critérios morais, que analisou em «O Encoberto» a filosofia da história de Portugal, como também defendeu a sucessão evolutiva entre a monarquia, a república e o socialismo. O critério essencial para apreciação do desenvolvimento dos povos e das nações é o seu estado de desenvolvimento moral, o estado de apuramento da sensibilidade e dos costumes, com expressão também ao nível das formas de dominação política».


LIBERDADE CONQUISTADA
Para Sampaio Bruno, «a liberdade nunca é uma dádiva graciosa; é sempre uma penosa conquista: e resulta uma quimera abusiva estar-se à espera de que um povo se prepare para o exercício dos seus direitos a fim de então se lhos conceder». Por outro lado, a «democracia começa no município e na região – pois é aí que se garante o respeito aos direitos do cidadão e a sua participação nos negócios do Estado». Na linha do liberalismo de Alexandre Herculano, a democracia de Bruno existe onde vivem os cidadãos. «As práticas autoritárias são costumes bárbaros, costumes detestáveis de gentes escravizadas por outras gentes más e cruéis». Do mesmo modo, o messianismo político corresponde à preguiça cerebral ou indolência meridional dos portugueses. E perante os messias (desde o Mestre da Avis ao Desejado, prolongando-se com Passos Manuel, Costa Cabral etc.), tudo se sumiu na voragem. «É que a questão não é de homens. A questão é de ideias». Bruno, depois de diversas vicissitudes conseguiu ser provido como conservador da Biblioteca Municipal do Porto (1908) e por fim como diretor (1909), o choque de ideias e personalidades com Afonso Costa levam-no a afastar-se do Partido Democrático, protestando contra a tentativa de o silenciarem, por não seguir a linha oficial. Raul Brandão nas «Memórias» diz: «Bruno, esse nunca fez cálculos sobre a vida, Cheio de simplicidade e de modéstia, viveu e morreu como um pobre homem – a arrastar-se nos últimos anos da padaria da Rua do Bonjardim para a Biblioteca, da Biblioteca para a Rua do Bonjardim»…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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