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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

  
De 11 a 17 de abril de 2016.

No mês em que se assinala o centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro, lembramos «Indícios de Ouro», obra póstuma, publicada em 1937, que nos dá um retrato deste que na geração de «Orpheu» tem hoje uma aura muito especial.

SÍMBOLO DA SUA GERAÇÃO
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) é um símbolo da sua geração, porventura como Antero de Quental foi sinal da geração de 1870. Ressalvadas as diferenças, a verdade é que, como Eduardo Lourenço tem evidenciado, há uma articulação necessária entre os momentos renovadores do «Cenáculo» e do «Orpheu». Ambos foram movimentos de abertura ao futuro. Recordamo-nos do que disse Fernando Pessoa: «Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes, o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor». Assim se exprimiu no número 2 de «Athena», a revista de Arte dirigida pelo próprio Pessoa e por Ruy Vaz, em novembro de 1924, quando os ecos de «Orpheu» pareciam apagados da memória imediata. E, ciente de que a penumbra era momentânea, acrescentava: «Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. “In qua scribebat, barbara terrafuit”. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. (…) A glória é dos gladiadores e dos mimos. (…) Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim».

UMA BIOGRAFIA ATRIBULADA
Conhecemos a biografia atribulada do autor de «Confissão de Lúcio», e o certo é que a sua originalidade e o seu génio tiveram a ver com a extraordinária convergência de fatores e influências que permitiram tornar-se um caso singular e irrepetível, não identificável com uma escola, mas ele mesmo marco fundamental do seu tempo. Se Fernando Pessoa teve necessidade (e o talento extraordinário) para se dividir em diversos heterónimos, para conquistar também o seu lugar único, Mário Sá-Carneiro pôde tornar-se exemplo de uma maturidade especial do simbolismo, em subtil aproximação do vanguardismo, o que levou Pessoa a falar do poema «Manucure», como semifuturista… «Na sensação de estar polindo as minhas unhas, /Súbita sensação inexplicável de ternura, / Tudo me incluo em Mim – piedosamente...». «Ó beleza futurista das mercadorias»… Fernando J. B. Martinho fala-nos, assim, de «um poeta que leva a um ponto paroxístico, de quase rutura, a herança simbolista, facilmente reconhecível em diversos aspetos da sua fulgurante imagética, ao mesmo tempo que submete a sintaxe a surpreendentes procedimentos de estranhamento por via, em regra, de insólitos regimes verbais». Se na forma preserva o simbolismo de um modo requintado, na substância assume os novos temas do século e do mundo, em especial no tocante à chamada «cisão do sujeito», tão presente no universo pessoano. «Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio; / Pilar da ponte do tédio / Que vai de mim para o Outro». E aqui encontramos a arte em contacto com o drama insustentável da vida, a ponto de conduzir o poeta à decisão final e absurda do suicídio, nos termos conhecidos… «Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim» (31 de março de 1916, Carta a Fernando Pessoa).

INCOMPREENSÃO E INCONFORMISMO
Pode dizer-se, assim, que Sá-Carneiro torna-se ele-mesmo, marca do inconformismo da sua geração tão incompreendida até tão tarde… Como que se sente o anúncio de um século trágico, que, para muitos, parecia anunciar-se como um momento mágico de criatividade, de sortilégio e de gozo supremo da Arte. É certo que quando Sá-Carneiro decidiu partir já havia guerra e o horizonte já se tinha toldado, daí que tudo parecesse convergir num sentido insustentável. É difícil de explicar. A «coisa nenhuma» que confessa a Pessoa significa tudo e nada. Que é a «áurea temeridade»? É a estranha convergência entre as circunstâncias singulares e o estado do mundo. O drama existencial anuncia-se e concretiza-se… O século trágico assume a contradição suprema: as condições da liberdade e da razão tornam-se subitamente condições de servidão e de domínio… E assim José Régio (numa interpretação fulgurante) considerou Mário de Sá-Carneiro um mediador por excelência relativamente a Fernando Pessoa. Em «Mário ou Eu-Próprio - o Outro» essa especial ligação é feita. Eugénio Lisboa ou Luciana Stegagno Picchio referem-no com especial ênfase. E Régio explica-o: aí pretende «dar um conflito que aliás é intemporal e inespacial no homem; pertence ao homem de qualquer país ou tempo: o do Homem Espiritual (o Outro) com o homem vulgar do quotidiano terreno e animal. Alargando um pouco mais: o conflito do Perfeito (ou do Sonho da Perfeição) com o imperfeito lamentável. E ao mesmo tempo este ama e odeia Aquele, e Aquele despreza, ama e persegue este. Lembremo-nos de que Mário de Sá-Carneiro era feio e amava a Beleza. Quando Mário resolve suicidar-se, o Outro rouba-lhe tal suicídio ainda demasiado terreno, - e transforma-o num sacramento: Envenena-o (mata a imperfeição) com o próprio sangue do Espírito. Há aqui uma reminiscência da Ceia em que Cristo dá a beber aos discípulos o vinho que transformou o seu próprio sangue» (carta a Maria Júlia de Azevedo Lima, 22-11-1963). Pode dizer-se, pois, que José Régio ao assumir esta proximidade relativamente ao poeta, fá-lo dando-lhe um lugar privilegiado na história de «Orpheu» e na literatura portuguesa. Talvez esteja aqui a chave para podermos compreender uma fugaz manifestação do génio!

 

Guilherme d'Oliveira Martins 
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