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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 30 de maio a 5 de junho de 2016.

Celebrámos na semana que passou o aniversário, 93!, de Eduardo Lourenço, que acaba de publicar um pequeno e delicioso livro «Crónicas Quase Marcianas» (Gradiva, 2016). Hoje publicamos as palavras proferidas em sua homenagem, aquando lhe foi entregue o Prémio Vasco Graça Moura.

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O CULTO DA INDEPENDÊNCIA
A atribuição do Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural a Eduardo Lourenço constitui um ato emblemático de reconhecimento de um percurso intelectual de grande coerência, marcado pela independência de espírito e por uma grande disponibilidade para fazer da reflexão crítica sobre a cultura um desafio permanente à criatividade e ao inconformismo. E a referência a Vasco Graça Moura, poeta e ensaísta, cidadão comprometido, para quem a cidadania e a cultura eram irmãs gémeas, é fundamental, uma vez que sabemos bem não só a admiração que devotava a Eduardo Lourenço, mas sobretudo o sentido da compreensão crítica do magistério do ensaísta, por integrar a cultura portuguesa numa perspetiva ampla e universalista. Se relermos «Heterodoxia», percebemos que o seu autor soube, a um tempo, romper com as leituras unilaterais e as interpretações marcadas pelo preconceito, sem perder a lucidez que permite ver as virtualidades dos diferentes pontos de vista, colocando-se na perspetiva do outro e do diferente. É certo que essa atitude leva por vezes a simplificações ou a abusivos entendimentos, no entanto, a leitura atenta de uma obra tão diversificada e complexa permite entender a força da lição ensaística, na linha de Michel de Montaigne, como insuscetível de qualquer mitificação. Daí a importância do célebre texto publicado em «O Tempo e o Modo» sobre António Sérgio, em 1969, onde (por fidelidade ao espírito crítico) o escritor marca novos terrenos, salientando, porém, o essencial da lição do autor da «Educação Cívica». E pode dizer-se que há no ensaísmo português uma coerência que se articula e enriquece mutuamente, desde a Carta de Bruges do Infante D. Pedro até Herculano e Garrett, continuando na Geração das Conferências Democráticas, na «Renascença Portuguesa», no «Orpheu», na «Seara Nova», na «Presença» e na fecundidade da poética e da narrativa das últimas décadas, que Eduardo Lourenço tão bem soube compreender numa visão premonitória, panorâmica e plural, publicada na revista «Raiz e Utopia» (decisivamente marcada pelo seu magistério e pela referência, diferente mas complementar, de António José Saraiva) no fundamental ensaio «Psicanálise Mítica do Destino Português». O ensaísmo português reforça-se em termos europeus e universalizantes com Eduardo Lourenço – herdeiro da genealogia do que Unamuno designou como «o século de ouro português» («paixão que nenhuma ironia, nenhuma fraqueza mundana puderam de todo apagar»), a que soube adicionar com suprema originalidade o complexo acervo do universo de Pessoa e do «Orpheu».


UM CRÍTICO A ABRIR HORIZONTES
Se é um português que fala, o certo é que a sua reflexão abre horizontes, recusando uma visão fechada ou retrospetiva da nossa identidade, abrindo-lhe novas dimensões, não providenciais ou mitológicas, mas capazes de integrar o imaginário crítico num diálogo diacrónico e sincrónico de diversos tempos e culturas. O autor de «Portugal como Destino» é uma personalidade multifacetada que se singulariza pela coerência entre um pensamento independente e uma permanente atenção à sociedade portuguesa, à sua cultura, numa perspetiva ampla, avultando a reflexão sobre uma Europa aberta ao mundo e nunca fechada numa qualquer fortaleza encerrada no egoísmo e no preconceito. Em lugar de alimentar uma ilusão sobre qualquer lusofonia paternalista ou uniformizadora, o ensaísta alerta-nos para a exigência de entendermos a modernidade como um ponto de encontro entre a racionalidade ou o idealismo e a emotividade dramática e poética. É a imagem e a miragem da lusofonia que têm de ser encaradas a partir da «chama plural» que leva a entender que língua alguma é invenção do povo que a fala, já que é a fala que o inventa. Sob a influência inequívoca de Antero de Quental, como reconheceu em «Poesia e Metafísica», o pensador exprime a sua grande admiração pelo facto de o voluntarismo do autor dos «Sonetos» não abdicar «da referência ética, no sentido mais radical, e esta, por sua vez, só encontra o seu fundamento na referência metafísica e o seu cumprimento como ideal último naquela aspiração que ele designou de “santidade”. Que no final da sua vida a tenha concebido mais sob a forma budista que cristã nada retira à exigência que nela se encarna. A esse título, Antero é o único intelectual comprometido com a ação que não transigiu com o comum espírito do seu tempo». No entanto, «os homens de alta exigência ética e mística – e Antero foi um deles – são sempre um pouco arcaicos» - como salienta, com aguda lucidez, num tempo demasiado carregado de leituras fechadas e definitivas. E se falamos da importância de uma geração que só por ironia pode ser qualificada de vencida, tão grande foi a sua influência, como só acontece para situações absolutamente excecionais, temos ainda de voltar ao facto de ter sido Eduardo Lourenço a ver no «universo» de «Orpheu» o que vai muito para além da circunstância em que se afirmou.


SEMPRE HETERODOXO
Lembremo-nos apenas do estranho encontro de Fernando Pessoa com Walt Whitman. O ensaísta desmistifica-o, dá-lhe uma dimensão diferente da mais difundida e diz-nos: «não foi apenas um só poeta que Pessoa encontrou ao encontrar-se com W. W., mas dois, e mesmo uma multiplicidade imanente deles, a tal ponto a visão de Whitman é a visão mesma da diferença e da multiplicidade cantadas por si mesmas». E assim se chega à chave para a estranha relação de Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. O autor de «Folhas de Erva» não é um «mero otimista beato em êxtase permanente diante dos múltiplos aspetos do real, mas antes um otimista trágico que compreendeu um dia o mistério indecifrável da coexistência do bem e do mal, do sol e da chuva dos dias, da luz e das trevas»… Afinal, trata-se de compreender, como demonstra o conjunto da obra de Amadeu de Sousa-Cardoso, que o «universo» de «Orpheu» está na linha de querer ser e agir ao ritmo da civilização de Garrett e Antero. Whitman fez de Pessoa «um outro» - mas, em lugar de ser «o grande Cais anterior e divino», foi «apenas, mas decisivamente, o mais vasto porto cintilando ao sol das coisas reais que o olhar vidente de Fernando Pessoa estava destinado a contemplar». Dou apenas o pequeno exemplo de uma capacidade de ver para além do imediato. E é essa leitura de enigmas que permite encontrar elos de coerência e continuidade na coexistência do heterogéneo e do ausente. Em tempos de incerteza, Eduardo Lourenço representa uma voz de esperança, que apela ao diálogo e à paz, com salvaguarda da liberdade de consciência e do sentido crítico. A sua heterodoxia mantém-se viva e atual em nome do compromisso cívico com a liberdade e uma responsabilidade solidária. A cidadania cultural que se reconhece, corresponde a um apelo permanente e insistente – só o inconformismo, a vitalidade criadora, a compreensão da História e da incerteza, a consideração da diversidade e da complexidade podem valer a pena.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença