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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS


   De 26 de dezembro de 2016 a 1 de janeiro de 2017

 

A leitura da Correspondência de Almeida Garrett para Rodrigo da Fonseca Magalhães (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016), permite compreendermos um pouco melhor o complexo mas apaixonante período da implantação e consolidação do liberalismo em Portugal.

 

 

UM APAIXONANTE PERÍODO
Encontramos o cidadão comprometido que foi Garrett em diálogo direto com o político mais influente na estabilização das instituições constitucionais – das guerras civis à Regeneração, momento em que foi possível pousar as armas e chegar a um acordo político de alternância no poder. A edição desta correspondência é de Sérgio Nazar David, que trata com esmero o manancial de contributos relevantes não só sobre as personalidades dos dois protagonistas, mas também sobre o período em que intervêm. Como sabemos, a edição crítica na INCM das obras de Almeida Garrett é coordenada por Ofélia Paiva Monteiro, cuja ação merece especial destaque, uma vez que tem permitido um melhor conhecimento da obra do grande autor do período romântico. Relativamente a Rodrigo da Fonseca (1787-1858), que a posteridade conheceria como «raposa», pela inteligência política e capacidade de superar as situações mais difíceis, não podemos esquecer a excelente biografia da autoria de Maria de Fátima Bonifácio, indispensável para percebermos o papel fundamental que desempenhou na história do seu tempo («Um Homem Singular», Dom Quixote, 2013).

 

 

GARRETT CIDADÃO E POLÍTICO

Almeida Garrett é uma referência da cultura portuguesa que supera em muito qualquer classificação de escola ou de grupo. Por isso, foi respeitado e referenciado por todos quantos, sob as mais diversas influências, até à modernidade, cuidaram de quem marcou indelevelmente o amadurecimento das nossas língua e cultura. «Não sou clássico nem romântico, de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam as minhas ideias, boas ou más, e nem procuro converter as dos outros, nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos ou outra polpa, amigos de disputas e questões que eu aborreço». Estas são as suas palavras, significativas, em 1825 no prefácio à primeira edição de «Camões» demonstram sobretudo a independência de espírito e a especial atenção de Garrett relativamente às mudanças fundamentais do seu tempo. E o diálogo com Rodrigo da Fonseca, ora publicado, é revelador de como, apesar das incompreensões, o poeta, romancista e dramaturgo pôde contribuir pela dimensão cultural e artística para afirmação de uma sociedade aberta e liberal. O corpus documental que constitui a presente publicação é constituído por 97 cartas, 72 do espólio de Rodrigo, 18 do Ministério do Reino (Torre do Tombo) e 7 do espólio de Garrett (5 da Biblioteca Geral e 2 da Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra). O importante é dizer que se trata de 93 cartas inéditas. O percurso que poderemos seguir nesta correspondência revela-nos plenamente o cidadão, o político e o servidor público. Nota-se a situação que rodeou ida para Bruxelas como Encarregado de Negócios, por «sórdidas conveniências políticas», e as condições do regresso depois de dois anos de penúria. De novo na pátria, é eleito deputado em 1837 e defende na Câmara dos Deputados a liberdade religiosa - «não creio que possa haver liberdade civil para o povo que perder a liberdade religiosa». É uma preocupação que assiste ao liberal autêntico e que aflora nas «Viagens na Minha Terra». A moderação é a marca da sua intervenção política, afirmando-se entre os setembristas moderados, como dirá no célebre discurso do Porto Pireu, exemplo da oratória parlamentar, em resposta a José Estêvão: «É verdade: todas essas galés de injúrias navegadas de toda a parte do mundo, vieram descarregar-se a um imaginário porto Pireu, onde, sonhando os agradáveis sonhos da loucura ambiciosa e da cobiça frenética, nos supuseram, a estes poucos homens do centro, que, por poucos, por moderados, por guardadores de todas as formas, deviam ter merecido mais alguma daquela civilidade e consideração com que a todos acatam, renunciando tantas vezes a despicar-se das ofensivas, até a defrontar-se dos agravos, com que a todo o instante são provocados» (8.2.1840).

 

 

A CAUSA DO CONSERVATÓRIO

O homem de cultura, encontramo-lo a pugnar pelo Conservatório Real de Lisboa. A determinação de Garrett é clara, em nome do ensino das Artes (Declamação, Música, Dança e Mímica). A figura tutelar de Gil Vicente é chamada em nome da «ideia de civilização». O presidente da instituição é D. Fernando II, em nome das conjugação dos princípios democrático e monárquico, tão cara ao dramaturgo – que se empenha a fundo nos mais ínfimos pormenores, para que o Conservatório tenha as condições para ser marcante. E nesse combate conta com o apoio de Passos Manuel, sopro da liberdade e da democracia, e com Rodrigo, o homem capaz de compreender o Portugal mais a fundo… Mas é Costa Cabral e o cabralismo que se irão impor a partir de 1842. E Garrett passa para a oposição – uma vez que que o executivo «absolutamente declarou por seus atos, que queria governar no interesse exclusivo de um partido». E dirá a seu amigo Silva Abreu: «desagrada-me o estado das cousas e a tendência dos homens. Sou pasteleiro pelo coração e pela cabeça: sentimento e reflexão me fazem desejar e crer que não seja nacional nem fixo todo o governo exclusivo e intolerante. (…) Portugal não é dos setembristas nem dos cartistas, é dos portugueses». Afinal, vê no novo poder cabralista pretextos para «vingançazinhas mesquinhas de bairro e bairristas». Pela demarcação política, foi demitido pelo Decreto de 16 de julho de 1841, assinado por Joaquim António de Aguiar, da Inspeção-Geral dos Teatros, de Vice-Presidente do Conservatório e de Cronista-Mor do Reino… Daí o clima de desalento que sentimos nas «Viagens», onde se descreve a ida ao encontro de Passos Manuel em Santarém. Em 1846, no final da guerra da Maria da Fonte, ainda julga poder participar numa solução moderada, que, no entanto, será destruída na «emboscada» de outubro, na qual a rainha D. Maria II ainda vai dar a mão a Costa Cabral. Nesse ínterim, Garrett e Rodrigo ainda tentam mobilizar Passos para uma solução – mas não têm sucesso. A guerra civil regressa, impiedosa e inexorável – na Patuleia. A propósito do Grémio Literário, o escritor chega a confessar-se a Rodrigo mais político que literato. Contudo, nas «Viagens», os barões são duramente julgados, na pessoa de Carlos. O certo é que o genial escritor ainda regressará à ribalta política na Regeneração, na pasta dos Negócios Estrangeiros. Mas a política tem sempre as suas vicissitudes e a amizade entre Garrett e Rodrigo terminaria toldada num episódio triste de intrigas e calúnias, em 1852, em que o poeta se sentiu injustiçado. É certo que Rodrigo compareceria ao funeral de Garrett, em 54, mas o mal-estar deixou marcas fundas… De qualquer modo, desta relação tão rica fica este diálogo do maior interesse. 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença