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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de fevereiro de 2017.

 

Óscar Lopes (1917-2013) é na Literatura Portuguesa um marco fundamental, como estudioso e pedagogo. Não é possível compreender a «História da Literatura Portuguesa» sem recorrermos ao livro, com o mesmo título (1ª edição, 1955), que escreveu com António José Saraiva. Os seus discípulos, de todas as orientações no campo das ideias, atestam bem a importância cultural e cívica do magistério dessa obra e o lugar fundamental que ocupa para a compreensão da cultura portuguesa.

 


ESTUDIOSO INCANSÁVEL
Óscar Lopes foi um estudioso incansável nos domínios da Literatura e da linguística – e acreditava profundamente na capacidade da arte mudar socialmente o mundo. Era, assim, um leitor muito atento das obras contemporâneas que analisava, não se deixando influenciar por fatores subjetivos ou preconceitos. Foi assim dos primeiros a reconhecer a qualidade de escritores que foram recebidos com desconfiança nalguns meios por razões ideológicas. Com facilidade, intuiu desde o primeiro momento a qualidade e o espírito inovador, que viriam a consagrar esses escritores, como foi o caso de Agustina Bessa Luís. Sendo muito diferente de António José Saraiva formou, porém, com ele uma equipa de critério e qualidade que funcionava com equilíbrio e complementaridade, o que, aliás, permitiu que esse «tandem» pudesse subsistir apesar do afastamento ideológico entre os dois. Se António José Saraiva era mais intuitivo, capaz de abrir pistas fecundas, que a investigação mais aprofundada viria a confirmar, até pela grande diversidade de campos de interesse que cultivou, em especial na história da cultura, Óscar Lopes era um analista sereno e seguro, de uma racionalidade persistente. Contudo, a perenidade da obra comum advém da complementaridade dos dois autores e dos seus métodos. A título de exemplo, num ensaio célebre sobre Antero de Quental («Vida e Legado de uma Utopia», 1983) diz-nos: «Provavelmente, ainda hoje não estamos em condições de compreender a dinâmica mais íntima da tragédia global que Antero viveu. É impossível determinar em que medida a sua doença dependia de fatores orgânicos congénitos, e em que medida esses fatores se entrelaçam com um conflito psico-social de formações ideológicas implantado numa sensibilidade, ou generosidade, de extrema agudeza». O certo é que o temperamento místico pedia uma opção religiosa – daí a opção política e social. Como reconhece Óscar Lopes, a «religiosidade aparece como uma grande força hereditária (de uma hereditariedade predominantemente social, familiar, materna), mas uma grande força em grande medida racionalizada e voluntarizada, reendereçada e doutrinada tanto quanto possível, num grande esforço de conscientificação, de comunicação e responsabilidade social, de hombridade». Eduardo Lourenço, de algum modo, chega a uma idêntica conclusão, salientando, nesse carácter, a força intelectual e poética de um dos poetas mais fecundos da nossa cultura. «O que é facto é que Antero viveu sempre, desde que abandonou o catolicismo, um conflito insanável. De um lado está o rigoroso panlogismo de inspiração hegeliana, segundo o qual toda a história cósmica e humana se desenrolaria como desenvolvimento de um plano, a Ideia, operando através de sucessivos estádios sintéticos, superando sucessivos antagonismos de tese-antítese. Ideia em que (segundo uma fórmula de Vico-Michelet) o homem acabara por fazer-se a si próprio, movido por impulso inconsciente, até se tornar a corporização consciente da própria Ideia». No entanto, de outro lado, por oposição a este determinismo, Antero assume uma metafísica de raiz leibniziana (enriquecida pelos contributos de Kant, Maine de Biran ou Cousin), para a qual a subjetividade humana constituiria o paradigma a cuja luz se compreendem os seres reais - «o mundo espiritual e moral seria uma harmonia de mónadas em fases diversas de desenvolvimento espiritual e moral».

 

UMA TENSÃO EMANCIPADORA
Esta tensão revela-se na evolução intelectual de Antero, enquanto inspirador da geração que tanto influenciou e que passaria a história identificada com as Conferências Democráticas do Casino. Deste modo, a própria ideia de Revolução corresponderia à instauração histórica de uma Justiça imanente, que pressupunha o culminar de um processo objetivo, mas também voluntarista, e que culminaria num movimento mutualista-federativo, nitidamente influenciado por Proudhon. A dialética idealista de Antero pretende, no fundo, considerar e articular os dois polos em que a reflexão do poeta se processa. Assim, apenas compreendemos plenamente a viragem operada pela Geração de 1870, tão influente nas décadas seguintes, se entendermos a complementaridade entre a dialética hegeliana e a monadologia de Leibniz. Daí o facto de a tomada de consciência da importância da intervenção dos intelectuais, como aconteceu em França no caso Dreyfus, com tanta importância no século XX ideológico e político, ter tido expressão precursora em Portugal num movimento eminentemente cultural e literário mas politicamente relevante, que se prende indelevelmente ao grande tema que ocupará Julien Benda em «A Traição dos intelectuais».

 

UMA REFERÊNCIA
Antero, assume-se, nesta linha, claramente como alguém que não regateia esforços na sua responsabilidade de cidadão e de intelectual. Haveria que intervir no espaço público, para permitir a tomada de consciência das responsabilidades coletivas, no caso português, com vista a contribuir para a emancipação de um povo que não podia estar condenado ao fatalismo do atraso. A responsabilidade dos intelectuais teria a ver com as tarefas concretas ligadas à liberdade, à igualdade e à compreensão da evolução humana, animadas pela Ideia de justiça, mas também pela necessária mobilização de vontades para além do mero determinismo. Antero de Quental torna-se, deste modo, uma referência na análise de Óscar Lopes. A monadologia de Leibniz presta-se a uma interpretação do mundo ao mesmo tempo naturalista e espiritualista. E Antero considera-a, numa perspetiva de raiz kantiana, ligando uma lógica transcendental a uma ética de progresso social e histórico. Assim, o ingrediente hegeliano tem uma importância significativa. É um «espartilho de fino aço», sempre presente, que (na análise de Joaquim de Carvalho, corroborada por Óscar Lopes) «nunca lhe consentiria um divórcio adialético entre o ser (ou ser-se) e uma razão qualquer que ela seja, que, de algum modo, acabará sempre por dar conta desse mesmo ser (ou ser-se)». E esse seria um modo da arte contribuir para mudar o mundo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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