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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 29 de maio a 4 de junho de 2017.

 

«José de Almada Negreiros – Uma Maneira de Ser Moderno», o catálogo da exposição comissariada por Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos (Gulbenkian, 2017) constitui um repositório fundamental para a compreensão do modernismo português e do lugar que nele desempenhou o autor de «Invenção do Dia Claro» ao lado de Fernando Pessoa e da geração de Orpheu.

 

PERSONALIDADE MULTIFACETADA
José de Almada Negreiros é uma personalidade complexa e multifacetada que não pode ser compreendida nem através de interpretações conjunturais nem de simplificações anacrónicas. A sua vida e o seu tempo foram plenos de contradições que devem ser encarados com uma prudente distância que permita usar o rigor da análise e o entendimento relativo dos compromissos. A história portuguesa do início do século XX foi demasiado carregada de fatores paradoxais, correspondentes a uma tensão evidente entre a situação de um país periférico e as aspirações de um escol urbano que estava em contacto com a evolução da Europa culta. E não podemos esquecer que também nesse campo aberto ao exterior havia o confronto entre aqueles que assumiam uma perspetiva aberta e cosmopolita e os que, em consonância com a hipervalorização dos nacionalismos, punham a tónica na lógica identitária… Antero de Quental e a sua geração, na sequência dos grandes românticos, como Garrett e Herculano, já prenunciara, na célebre conferência sobre as Causas da Decadência, profeticamente, a necessidade de haver um sobreaviso relativamente às simplificações cosmopolitas e identitárias. Muito do debate do bom senso e do bom gosto está nas conferências de Almada Negreiros e na escolha de um símbolo, Dantas, como noutro tempo fora escolhido Castilho. E a verdade é que a geração de «Orpheu» representa uma encruzilhada onde, naturalmente, encontramos todas as contradições, que conduzem tantas vezes à desvalorização ou à hipervalorização do significado criador desses artistas.

 

O ÚNICO AUTÊNTICO MODERNISTA
Eduardo Lourenço fala de Almada como o “único autêntico modernista em sentido estrito de sintonizado com o vanguardismo (ou sucessivos vanguardismos) da época”. E sobre Fernando Pessoa, salienta, ao invés do delírio, a “consciência das insolúveis contradições do mundo moderno e da mesma modernidade, porventura até, rejeição do seu próprio espírito”… (Cf. O Labirinto da Saudade). Se virmos o percurso de Almada compreendemos que esse gosto absoluto da novidade o leva a crer, menos na lógica dos sistemas, e mais na força da criação. Nesse sentido, quis ser ele mesmo, permanentemente interrogante, ávido da busca. “Os sistemas e os programas servem para conduzir e jamais para criar”. Quem, por isso, suscita a hipótese de se estar perante um artista do regime, deve dizer-se que, para além do seu pensamento político, não deve esquecer-se a ideia de autonomia da arte que defendeu e que Gustavo Rubim refere a propósito de um texto importante publicado nos cadernos “SW - Sudoeste” (nº2, 1935): “A Arte não pode viver antes de criar a sua própria autoridade de autonomia dentro da coletividade”. Contudo o artista é o primeiro a reconhecer que essa capacidade criadora tem “dias melhores e outros piores”. Em 1945, com Fernando Amado no Centro Nacional de Cultura insiste, aliás, nessa ideia de autonomia do artista na sociedade. Eis por que razão há sempre uma luta na capacidade criadora – e essa luta obriga a uma exigente demanda. Dêem-se dois exemplos: o dos painéis da Gare da Rocha do Conde de Óbidos (1945-48) e o da obra “Começar” na Fundação Calouste Gulbenkian (1968-69). Estamos perante duas abordagens bem diferentes, mas que representam facetas complementares da mesma atitude. Hoje sorrimos perante o relato das pressões exercidas por aqueles que consideraram esses painéis perigosos, não só pela eventual influência de Portinari, mas também pelos temas dos saltimbancos e da emigração, supostamente inconvenientes para receber visitantes estrangeiros. E foi a intervenção de João Couto, diretor do Museu de Arte Antiga, que poderá ter evitado (quem sabe?) a destruição dos painéis. A verdade, porém, é que estamos diante de obras-primas da pintura portuguesa de sempre, que Almada considerou como as mais próximas da sua própria capacidade criadora, “pinturas da nossa solidão”, onde o sentido criador assume plenamente a autonomia da Arte que o artista defendia. Se o cubismo se faz sentir inequivocamente, há também a procura de alternativas no domínio do espaço pela geometria. Na composição “Começar” temos uma verdadeira síntese de vida e de incessante pesquisa, dando continuidade à tapeçaria “O Número” executada para o Tribunal de Contas (1958). Há uma procura do cânone geométrico e simbólico, que “não está exclusivamente nos exemplos da Idade Média, não está só nos exemplos da Suméria, não está só nos de Creta, Gregos, Bizantinos, Árabes, Hebraicos, Romanos ou Góticos. Ele está sempre e é por isso mesmo que ele é cânone. E cada época tira do cânone as suas regras…”. A obra é impressionante e pretende demonstrar que “a arte precede a ciência, a perfeição precede a exatidão”. Afinal, “a perfeição contém e corrige a exatidão”. E, como salienta Mariana Pinto dos Santos: “Em Almada a abstração matemática e geométrica não é um fim em si mesmo, mas sim meio para encontrar uma linguagem comum, sem pátria, intemporal e imemorial da comunicação visual, raiz de toda a representação”. Na busca do cânone não há recusa de representação. A abstração corresponde, assim, a uma fase superior da reflexão.

 

UMA PAIXÃO TEATRAL
A paixão de Almada pelo teatro, referida por Ana Vasconcelos, invoca ainda a preocupação do encenador, designadamente quando dispõe as figuras nos painéis, como o da Rocha do Conde de Óbidos. É a sociedade heterogénea, multifacetada e inconformista que se manifesta. Essa paixão teatral recorda as suas peças, “Antes de Começar” (1919), “Deseja-se Mulher” (1928) e “Pierrot e Arlequim” (1931), bem como a amizade muito próxima e quase familiar com Fernando Amado, com especial destaque para os tempos do Centro Nacional de Cultura e da criação da Casa da Comédia. É significativo o “Diálogo entre Almada Negreiros e Fernando Amado” de 1946 (“Cidade Nova, nºs 5 e 6, 1950). Por seu lado, os sessenta e quatro desenhos de “O Naufrágio da Ínsua” (1934) mostram-nos um verdadeiro ensaio entre a banda desenhada e os desenhos animados – onde o humor e a ironia revelam a “linha clara” do caricaturista exímio que ilustra a ligação entre o cinema e a ilustração narrativa. José-Augusto França fez a síntese adequada sobre o artista: “Almada situa-se na história da arte portuguesa contemporânea como uma figura única, no seu valor estético tanto quanto no valor referencial da sua mensagem poética”. Se em 1993, por ocasião do centenário não foi possível realizar a grande exposição retrospetiva, o certo é que agora temos um repositório de inequívoca qualidade. A expressão “português sem mestre” caracteriza plenamente o artista completo que procurou abrir caminhos novos – “chegar a cada instante pela primeira vez” – com originalidade e um sentido próprio de praticar diferentes artes com subtil mestria, tendo na galáxia dos modernismos não um lugar de escola, mas uma posição de múltiplos caminhos e influências…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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