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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (III)

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O TEATRO NA CORTE E NA RUA (SÉCS. XVIII-XIX)

Poderá falar-se já em encenadores, no teatro português do seculo XVIII? A expressão será prematura quanto a encenadores tal como hoje os   entendemos: mas a profissionalização do espetáculo teatral a partir dos finais de 700, com forte incidência no inicio dos anos de 800, implica, isso sim, a existência de uma atividade de direção de cena e de espetáculo. E da mesma forma,  e aí sem a menor duvida e com ampla documentação, ocorre  a proliferação de atores e de autores.

Refiro aqui sobretudo o chamado teatro de cordel, expressão de um espetáculo popular que invadiu as ruas de Lisboa na época, com para cima de 1500 títulos, de que restam algo como 500 a 600 edições, de uma boa centena de autores: e a expressão deriva da venda ambulante dessas peças, tal como as identifica Nicolau Tolentino de Almeida na sátira “O Bilhar”.

“Todos os versos leu da Estátua Equestre/ E todos os formosos Entremezes/ Que no Arsenal  ao vago caminhante/ Se vendem a cavalo num barbante”

Ou a nota que assinala a venda ao publico da “Comédia Nova intitulada A Amizade em Lance” editada por um tal António Gomes em 1794:

“Na mão de Romão José, cego, na esquina das rua dos  Padres de São Domingos no Rossio, voltando para a Praça da Figueira, ou em sua casa”…

São pois dezenas de arores e centenas de peças. Mas o que aqui nos importa é assinalar que este movimento, em tudo preparatório da grande renovação romântica do teatro português impulsionada por Garrett, como veremos mais tarde, teve nestes dramaturgos, hoje mais ou menos esquecidos, e neste atores, um prenuncio extremamente significativo, da renovação cénica e do espetáculo em Portugal.

E sobretudo porque o movimento se e assim se pode chamar, coexiste com a exigência literária – e não tanto  cénica, note-se bem – do chamado Teatro da Arcádia Lusitana ou Olissiponense, fundada em 1756  e prolongada até ao seculo XIX através da Nova Arcádia: mas o movimento marca muito mais pela analise teórica, expressa em numerosíssimos “prólogos “ “ discursos” e dissertações  sobre a arte do teatro. E afinal, a produção, que varia entre as duas peças de Correia Garção,  as de Domingos dos Reis Quita, ou as largas  dezenas  de Manuel de Figueiredo, entre outros, debatidas em colóquios pelo Árcades “identificados” por pseudónimos  latinos, ficam quase sempre aquém de uma verdadeira expressão de espetáculo que o teatro deve necessariamente conter. E alguns como que fazem a transição : assim, José Manuel Rodrigues da Costa, em cerca de 15 peças, de certo modo partilha a exigência da Arcádia com a popularidade do cordel.

Importa ainda referir que esta expressão teatral mais literária do que cénica tem um único precedente de qualidade e relevo, António José da Silva –o Judeu, cujas tragédias de forte expressão barroca, escritas na primeira metade do seculo XVIII, ficam  aquém, numa visão contemporânea do teatro espetáculo, da  comédia dramática – as ainda hoje notáveis “Guerras do Alecrim e Mangerona” (1737)… Veja-se este diálogo:

“D. Fuas – Aonde vás, tirana? Procuras acaso o teu amante? Oh, murcha seja a tua manjerona. Que como planta venenosa me tem morto./ D. Nise – Homem do demónio  ou quem quer que és, que em negra hora te vi e amei, que desconfianças são essas? Que amante é esse, que quem me andas aqui apurando a paciência, e sem quê, nem para quê, descompondo aminha mangerona?/ D. Fuas – Pois quem era aquele  que saiu da caixa a dizer-te mil colóquios? / D. Nise – Que sei eu quem era? Salvo fosse…Mas retira-te que aí vem gente”.

E a comédia de costumes segue nesta ambiguidade de posições e confrontações. Em qualquer caso, o que quero agora referir é que o teatro de cordel marca a afirmação profissional da arte do espetáculo, através de  centenas de atrizes e atores que ao longo sobretudo da segunda metade do seculo XVIII “preparam” a profissionalização e a formação académica que em 1836 Garrett e Paços Manoel consagram na reforma do teatro português. E alguns desses autores ainda hoje merecem destaque.

Faço aqui uma evocação de Nicolau Luis da Silva, o qual, ao longo da segunda metade do seculo XVIII, fez representar sobretudo no Teatro do bairro Alto, centenas de traduções e adaptações, mas, ao que se saiba hoje, apenas uma peça  original sua, “OS Marido Peraltas e  as Mulheres Sagazes”.  Inocêncio F. da Silva transcreve, no Dicionário Bibliográfico Português” , uma descrição contemporânea de Nicolau Luis:

“Morava no fim da rua da Rosa, toucado com uma cabeleira de grande rabicho, que ninguém viu na rua senão embuçado em capote de baetão de toda a roda, notável pelo desalinho e desmazelo do seu vestuário, trazendo consigo um grande cão de água, que o acompanhava sempre, e sorvendo repetidas pitadas  de simone, com toda a placidez e majestade catedrática”…

E quem eram os atores que representavam  estas peças? Alguns nomes ficaram para a História: António José de Penha, Francisca Eugénia, Vitorino José Leite, Joana Inácio da Piedade,  e tantos mais.

Garrett ainda apanhou esta geração: mas a ele se deve, como veremos a seguir, a “modernização romântica” de atores, encenadores e salas, de peças . dramas e comédias.


DUARTE IVO CRUZ