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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES - L

 

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A DESPEDIDA DE LUÍS MIGUEL CINTRA

 

Uma breve nota a assinalar a retirada de Luís Miguel Cintra da função de ator, anunciada em outubro e concretizada, no passado domingo 15 de Novembro, com o último espetáculo do “Hamlet” no Teatro Joaquim Benite. A peça fora estreada no Teatro do Bairro Alto, numa produção/encenação do próprio Luís Miguel Cintra, integrada no programa da companhia do Teatro da Cornucópia.

Recordo textos antigos: nos anos 60 já fazia crítica de teatro, designadamente na EN. Referi e analisei espetáculos, encenações e interpretações de Cintra. E designadamente num texto de Junho de 1969, que intitulei «Hóspedes de Anfitrião», dava notícia crítica da encenação do «Anfitrião ou Júpiter e Alcmena» de António José da Silva, pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, interpretado e dirigido pelo então jovem aluno Luís Miguel Cintra.

Lembro-me desse espetáculo de estudantes e releio, na crítica que escrevi, os elogios à encenação e à interpretação e que apontam para uma apreciação positiva, não só do espetáculo em si – e era, insista-se, uma companhia de estudantes, mesmo que hoje saibamos a profissionalização e a carreira sequente – mas sobretudo pelos critérios estéticos definidos.

Designadamente, na altura escrevi que «Luís Miguel Cintra procurou um efeito de distanciação através do esquematismo e geometrismo de movimentos, por forma a destacar plasticamente o solilóquio, o aparte, a comunicação direta».

E salientei ainda que nada no espetáculo seria arbitrário: a deformação dos corpos, para além da distanciação, provocava certo sentido evocativo de bonifrates que recordo agora com interesse. E mais escrevi na época: «a deslocação de vozes defende os artistas incipientes (eram alunos da FLL…) e provoca efeitos cómicos. A estruturação geral da cena, os elementos cenográficos revela lucidez e inteligência».

Consulto o meu arquivo e encontro uma lista dos então estudantes que intervieram no espetáculo: além de Luís Miguel Cintra ator-encenador, Silva Melo, Ermelinda Duarte, Eduarda Dionísio, Maria de Fátima Pinto, Maria Luísa Matos, António José Miranda… alguns fizeram boas carreiras no teatro profissional, com o destaque aqui óbvio para Luís Miguel Cintra.

Ora é oportuno referir também que Luís Miguel Cintra participou em mais de 50 filmes, com destaque para a colaboração com Manoel de Oliveira, em cerca de 20 produções, desde «Le Soulier de Satin», de 1985, adaptação da peça de Claudel numa coprodução luso-francesa.

Jacques Parsi, no ensaio que dedica á obra de Manoel de Oliveira, recorda a propósito que Cintra, «depois de ter recusado sucessivamente incarnar Eduardo na “Benilde” e Baltazar Coutinho em “Amor de Perdição” fazia uma entrada notável no universo de Manoel de Oliveira» (in “Manoel de Oliveira Cineaste Portugais” ed. FCG 2002).

E termino esta evocação com uma referência colhida no recente livro de Vítor Pavão dos Santos, intitulado «O Veneno do Teatro ou Conversa com Amélia Rey Colaço», que também noticiei no precedente artigo desta série. Falando com Pavão dos Santos aí por 1984, Amélia manifesta o desejo de «dar nova vida à Leonor Teles de Marcelino Mesquita” com Eunice Muñoz e Luís Miguel Cintra, “que me dizem tem muito talento”», (in ”O Veneno do Teatro ou Conversas com Amélia Rey Colaço” Bertrand ed. 2015)


DUARTE IVO CRUZ