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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES - LIX

 

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EÇA E RAMALHO NO ESPETÁCULO TEATRAL

 

Nesta linha de efemérides que temos aqui evocado, referimos já o centenário da morte de Sá Carneiro e os 70 anos da morte de Alfredo Cortez, ambos numa perspetiva de ligação ao espetáculo teatral em si mesmo, isto é, numa intervenção direta na organização dos espetáculos que completa ou transcende a criação dramatúrgica: escassa ou episódica que essa intervenção tenha sido, num e noutro caso, não deixa de revelar o interesse global dos autores pela arte do teatro, aí envolvendo a produção e a interpretação.

E haveremos de assinalar outros casos em que os grandes nomes da cultura e da criação literária se dedicaram mesmo esporadicamente ao espetáculo teatral: designadamente referirei em próxima evocação o caso limite de Vergílio Ferreira, cujo centenário do nascimento ocorre este ano, mas que se desligou muito prematuramente do teatro.

Já aqui lembramos as intervenções do jovem estudante-ator Eça de Queiroz em espetáculos na Universidade de Coimbra, e pode aliás recordar-se as personagens e as situações e episódios ligados ao teatro nos romances de Eça. Aliás, a obra de Eça é eminentemente “teatral”: daí, os próprios romances e personagens, diálogos, conflitos e situações estarem na origem das numerosas dramatizações e adaptações à cena e ao cinema.

E iremos prosseguindo nesta sucessão de evocações, que revelam, em épocas, estilos e fórmulas diversas, uma pujança por vezes esquecida da cultura teatral portuguesa, mesmo quando não se exprima diretamente na criação de textos e espetáculos.

Precisamente: a referência a Eça, que, repita-se, já foi aqui feita e mais do que uma vez, deve ser retomada no contexto d’ “As Farpas”, o que conduz a uma evocação das criações teatrais de Ramalho Ortigão, tanto mais justificáveis pela ocorrência também do centenário da morte do escritor em 27 de setembro de 1915.

É certo que Ramalho nos deixou sobretudo traduções de autores então mais ou menos recentes ou mais ou menos na moda: designadamente Dumas (“Anthony”), George Sand (”O Marquês” de Villemère”), Gustave Feiullet (“A Esfinge” e “O Acrobata”) ou mesmo Pérez Galdoz (“Eletra”).

Em 1871, Eça e Ramalho escrevem em coautoria “O Mistério da Estrada de Sintra”: e no mesmo ano iniciam a publicação d’ “As Farpas”. A moderna crítica inclina-se a considerar Eça autor direto da redação dos textos iniciais, mas não se exclui obviamente Ramalho da coautoria da produção literária e da crítica respetiva, que aliás viria a prosseguir, depois da saída de Eça, e com referencias recorrentes ao teatro.

António José Saraiva e Óscar Lopes analisam a redação conjunta dos dois escritores nas “Farpas”, salientando que “cada número constituía um comentário crítico e satírico aos acontecimentos e instituições, orientado segundo um ideário cuja principal fonte era, nos primeiros tempos, a obra de Proudhon” (in “História da Literatura Portuguesa” Porto Ed. págs. 840/841).

E Jorge de Sena até vai mais longe: considera “As Farpas “ como o culminar de um jornalismo “mais social do que politico nas Farpas de Ramalho e Eça e nos Gatos de Fialho de Almeida” (in “Do Teatro em Portugal” edições 70 - 1988 pág. 148).

Na primeira “Farpa”, a crítica concentra-se nos textos representados, mais do que na forma como são representados e como o público os recebe. De facto, sem citar nomes, Eça e Ramalho não poupam a dramaturgia: só que consideram as peças no contexto em que realmente devem ser analisadas – em função do espetáculo, através das intervenções dos atores, e na perspetiva do público como fator determinante. Daí, uma crítica severa ao teatro como espetáculo:

“O teatro perdeu a sua ideia, a sua significação; perdeu até o seu fim. Vai-se ao teatro passar um pouco a noite, ver uma mulher que nos interessa, combinar um juro com o agiota, acompanhar uma senhora ou – quando há um drama bem dramático, bem pungente – para rir como se lê um necrológio para se ficar de bom humor. Não se vai assistir ao desenvolvimento de uma ideia, não se vai sequer assistir à ação de um sentimento. (…) No entanto, como é necessário que quando se ergue o pano se movam algumas figuras e se troquem alguns diálogos, é esse o motivo por que em Portugal pretendem que existe uma literatura dramática (…) Mas é necessário que haja dramas, comédias, atos. O lustre está aceso, aqueles senhores estão à espera, e, se quando se levantar o pano aparecem apenas os bastidores, os maridos levam as suas mulheres, os pais levam as suas filhas, os rapazes levam as suas toilettes para outro sítio”…

Importa agora lembrar que em 1871 o teatro- espetáculo estava numa fase pujante em Portugal, no que se refere ao prestígio e qualidade, a julgar pelas críticas da época, que não poupam elogios a atrizes, atores e ensaiadores, como então se dizia. E duns e doutros nos ficaram nomes que ainda hoje são citados na literatura especializada: nomes hoje esquecidos como por exemplo Emília das Neves, Furtado Coelho, João Anastácio Rosa, Beatriz Rente, João Montedónio, Carlota Talsassi, Tasso, Carlos Posser, Virgínia - e tantos mais que já temos evocado nesta série de artigos.

E rematamos esta referência ao teatro - texto e espetáculo, com uma “recomendação crítica” de Ramalho Ortigão inserta no Volume VI de “As Farpas”:
“No teatro aplauda pouco e a tempo. Não se arrebate e não e dê bravos!”

 

DUARTE IVO CRUZ