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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (LXX)

VERGÍLIO FERREIRA E O TEATRO: EVOCAÇÃO NA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS 
 

Em 24 de janeiro último evocamos aqui o centenário de Vergílio Ferreira (VF), a partir de um texto de Guilherme d'Oliveira Martins publicado anteriormente. Referi então com detalhe a peça única de VF, “Redenção” (1949), analisando tanto o texto em si como as didascálias, reveladoras de um sentido de cena e espetáculo que não surpreende quem estuda e aprecia a sua obra global, tanto no ponto de vista da criação literária como da crítica e da análise social. Só é pena que o autor, aliás ator desde tenra idade, não tenha prosseguido a sua produção dramatúrgica.

Referi também nesse texto as “explicações” de VF pelo descaso relativamente à atividade teatral, que, repita-se, praticou episodicamente no TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, mas antes, numa récita escolar, tinha 6 anos de idade. (cfr. “Conta Corrente -2” – 21 de julho de 1977 citado em “Atores, Encenadores” – L- 24 de janeiro de 2016). Mas também, como veremos, na adaptação cinematográfica do seu romance “Manhã Submersa”, filme de Lauro António, estreado em 1980, a partir do romance homónimo do próprio Vergílio Ferreira (1954). 

Em 31 de março último realizou-se na Academia das Ciências, sob a presidência e com intervenção de Artur Anselmo, uma Sessão Comemorativa do Centenário do Nascimento de Vergílio Ferreira. Houve ensejo de debater as diversas vertentes da criação literária de VG, a partir de apresentações temáticas de Fernando Dacosta, João Malaca Casteleiro, Maria Alzira Seixo e António Valdemar. A biografia, a obra e a personalidade e participação social do autor foram devidamente analisadas, discutidas e ponderadas, numa perspetiva global que inclusive envolveu aspetos menos conhecidos.

Já vimos que a tábua bibliográfica de VF não desenvolve a sua vertente teatral. Mas a obra romanesca contem e comporta uma dimensão de espetáculo que se impõe ao leitor, como se imporá a uma eventual encenador de alguma adaptação, ou a um realizador cinematográfico: e disso falaremos agora.

Com efeito, na Sessão Comemorativa, Fernando Dacosta referiu com desenvolvimento o tema, a partir de depoimento direto do escritor. Cito Fernando Dacosta:

“Ator (amador) de excelentes recursos histriónicos – Lauro António convenceu-o a interpretar a figura do Reitor no notável filme que realizou a partir de «Manhã Submersa» - Vergílio Ferreira revela-me que nunca lhe interessara, porém, escrever teatro por causa das exigências da sua carpintaria, das suas personagens, dos seus conflitos. «Essas exigências diminuem a importância do texto» acrescenta, «ou seja do autor. Não há espaço para o narrador, que é o elemento mais apaixonante e criativo da escrita. O teatro torna-se sobretudo compensador para os encenadores, os atores e os chamados dramaturgistas, Não vale a pena, hoje, os autores portugueses perderem ilusões com ele, até porque ele não precisa deles. Em Portugal deixou, depois da morte de Amélia Rey Colaço, de haver teatro português, para haver apenas teatro em português»”.

E no entanto, Vergílio Ferreira, para alem das intervenções dispersas como ator de teatro que acima evocamos e da intervenção relevante como ator no cinema que adiante evocaremos, deixou, como também já vimos, análises sobre teatro e sobre cinema que merecem ser recordadas, porque resumem um pensamento doutrinário e contêm uma reflexão viva e vivida das artes do espetáculo.

Diz designadamente em “Pensar”, coletânea de 671 reflexões precedidas de um longo Prefácio, obra datada de maio de 1991 (1ª ed. 1992):

“Reflexão 412 – De todas as artes espetaculares a que o é mais é o teatro. Ela é por isso mesmo aquela de que mais normalmente se diz que é um «espetáculo». E de tudo o que se caracteriza por um grande efeito público se diz que é «espetacular». Não se diz de um concerto que é um «espetáculo de música», como se não dirá mesmo da exibição de um filme, que é um “espetáculo de cinema», como raro se dirá de um bailado que é um espetáculo de dança». Isso tende a significar ou sugerir que o teatro é a forma de arte mais artificial – porque são pessoas de carne e osso que se investem do que não são (como não acontece no cinema, em que as personagens estão já transpostas para a irrealidade da imagem). E isso explica ainda porque é o teatro a forma de arte privilegiada para um tempo e ação revolucionária, um tempo em que, estando-se fora dele pela arte, está-se dentro dele pelo que de real e imediato há nesse estar em público de seres reais, que são os atores”.     

Antes, na “Reflexão 369”, Vergílio Ferreira pondera certa transitoriedade da arte do cinema, por paradoxal que pareça: “Que estranha coisa ver um filme de há trinta, quarenta anos. Ele funcionou como centro de convergência dos nossos interesses e imobilizou-se aí, enquanto nós fomos seguindo”… o que é digno de debate.

Em qualquer caso, o que agora nos interessa é evocar a intervenção de Vergílio Ferreira como ator, no papel central de “Reitor” no filme já citado de Lauro António a partir do romance homónimo do próprio VG. E podemos avaliar a relevância desta intervenção quando a integramos na qualidade excecional do elenco, com um total de 29 atrizes e atores, entre eles o próprio.

Basta lembrar quem são os outros, nos principais papéis, para vermos o excecional nível do elenco: Eunice Muñoz, Canto e Castro, Jacinto Ramos, Carlos Wallenstein, Miguel Franco, Joaquim Rosa, Adelaide João, Jorge Vale…

DUARTE IVO CRUZ