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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES - LXXIII

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COMENTÁRIO A UMA ENCENAÇÃO DO “FREI LUIS DE SOUSA”

Faremos aqui um breve comentário à encenação de Rogério de Carvalho no “Frei Luís de Sousa” levado à cena pela Companhia de Teatro de Almada no Teatro Joaquim Benite. E isto porque, em primeiro lugar, são sempre bem vindas, para não dizer necessárias, as re-encenações deste grande texto referencial. Mas também porque o espetáculo – que diga-se desde já, tem boa qualidade – concilia o rigor assumido do texto de Garrett, com uma versão moderna, renovada e renovadora: o que em si mesmo não só é obviamente legítimo como louvável pela afirmação de modernidade, mesmo que se discutam aspetos de conceção e execução.

Mas desde logo se diga que a integral do texto, encenado num registo de atualização de espetáculo, mostra a atualidade da peça em si no ponto de vista da criação direta de Garrett. Quer dizer: a peça, tal como a lemos, contem todos os valores da sua atualidade real no texto e potencial no espetáculo. E nesse aspeto, ainda dois comentários:

Em primeiro lugar, as próprias didascálias e notas de cena originais, tal como Garrett as concebeu e interpretou em 1843, podem ser devidamente “aplicadas” num espetáculo moderno, sem por isso o espetáculo deixar de ser moderno e atual. Trata-se aliás de uma expressão exemplar de teatralidade, repita-se, não só através das descrições de cena propriamente ditas, vastas e pormenorizadas na sua adequação “realista” à época do drama, mas também, modernas quando Garrett as concebeu e ainda hoje: uma versão rigorosa nunca será por isso menos eficaz na sua modernidade.

E essa modernidade concilia três planos epocais e estéticos: o da época da cena e da ação histórica (século XVII), o da época da criação da peça (século XIX) e o da época da encenação (século XXI). Nesse aspeto, insista-se, o espetáculo concebido e dirigido por Rogério de Carvalho concilia bem os planos: aliás, tal como o próprio encenador recorda numa entrevista no programa coordenado por Ângela Pardelha, “o texto é um dos melhores textos dramáticos da literatura portuguesa”, pois “a modernidade do texto é evidente”. Assim é, com efeito: o que comporta a modernidade da encenação, mesmo que não se considere sempre ao mesmo nível o tratamento e o desempenho de todos os personagens.

E ainda um reparo: a intemporalidade e certa “abstração” cénica e cenográfica epocal é em si mesma bem-vinda, sem embargo, insista-se, da qualidade, no duplo sentido, das indicações cénicas originais. Mas apesar disso, registo na encenação uma certa “homogeneidade excessiva” que neutraliza um pouco a dramaticidade crescente – e não se fala aqui de suspense ou de premonição e fatalismo, por que o texto é hoje perfeitamente universal no conhecimento que dele se tem… o que permite em certa medida exercícios de homogeneização.

Pode no entanto discutir-se a “abstração” da cena do final do segundo ato, como sabemos crucial no contexto dramático. A didascália de Garrett é rigorosa, como o são aliás todas as indicações de cena. Aqui, impõe-se o significado dramático e simbólico da descrição do Ato Segundo, com a galeria de retratos e com a extraordinária cena final: 

“Romeiro (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal) – Ninguém” (Frei Jorge cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente)…”

E pode questionar-se aqui a encenação/interpretação que, segundo penso, de certo modo desdramatizou o conteúdo simbólico da cena de identificação do Romeiro-D. João de Portugal pelo próprio, apesar de figurar no retrato “noutros trajes… com menos anos – pintado”, como refere o Frei Jorge:

“Jorge – Procurai nestes retratos e dizei-me se algum deles pode ser.

Romeiro (sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João) – É aquele”.

Note-se bem: “sem procurar”…

No plano do texto em si, saliento sempre a grande fala final da Maria:

“(…) Esta é a minha mãe, este é o meu pai… Que me importa a mim com o outro? (…) Mate-me, mate-me se quer, mas deixe-me este pai, esta mãe que são meus (…) – Não há mais do que vir ao meio de uma família e vir dizer: «vós não sois marido e mulher? e esta filha do vosso amor, esta filha criada ao colo de tantas meiguices, de tanta ternura, esta filha é…» Mãe, mãe, eu bem o sabia… nunca tu disse mas sabia-o: tinha-mo dito aquele anjo terrível que me aparecia todas as noites para me não deixar dormir…”

No que respeita ao espetáculo, há certamente que o elogiar, com talvez um reparo relativo à conceção cénica ao longo dos três atos, a partir de um dispositivo uniforme de José Manuel Castanheira, contrastante com as notas de cena e descrições de ambiente de Garrett, curiosamente detalhadas e realistas. Mas nada disso prejudica o espetáculo, ainda valorizado pelas interpretações de Adriano de Carvalho, Alberto Quaresma, Afonso Fonseca, Carlos Fartura, Joana Castanheira, João Farraia, Marques d’Arede, Pedro Walter, Teresa Coutinho, Teresa Gafeira.

De facto, Garrett é um grande (e moderno) dramaturgo, o “Frei Luís de Sousa” é uma grande (e moderna) peça. Merecerá sempre por isso a reposição.


DUARTE IVO CRUZ