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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (LXXIX)

 

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EVOCAÇÃO DO CENÓGRAFO LUCIEN DONNAT

 

Na semana passada evocamos aqui o cenógrafo italiano Luigi Manini (1848-1936), contratado, recorde-se, em 1879 para o então designado Real Teatro de São Carlos, onde se manteve, em vasta e prestigiada atividade, até 1913. Hoje, evocamos o cenógrafo e ocasional dramaturgo francês Lucien Donnat (1920-2013) que desde 1939 colaborou com a Empresa Rey Colaço-Robles Monteiro (ERCRM), pelo menos até 1968, com a peça “Tango” de Slamovir Mrozek, estreado no Capitólio em 29 de novembro daquele ano. Tinha também trabalhado para o Teatro de São Carlos.

 

No livro-depoimento de Amélia Rey Colaço, escrito por Vitor Pavão dos Santos, Amélia é pródiga em evocar as numerosíssimas criações e intervenções cenográficas de Donnat ao longo da sua longa estadia em Portugal, e isto, como bem sabemos, nos sucessivos “Teatros Nacionais” que a empresa ocupou, e designadamente o D. Maria II, e, depois do incêndio de 11 de dezembro de 1964, o Avenida até ao incêndio de 1965, o Capitólio até dezembro de 1970, e episodicamente o Trindade e o São Luiz (1974). Isto,  alem das  tournées dentro e fora do país.  E neste contexto, Lucien Donnat manteve-se ligado à empresa durante dezenas de anos. (cfr. Vitor Pavão dos Santos - “O Veneno do Teatro ou Conversas com Amélia Rey Colaço”, Bertrand Ed. 2015).

 

Mas não exclusivamente como cenógrafo: em meados dos anos 40, assinala Luis Francisco Rebello, a ERCRM leva à cena, algo insolitamente, uma revista intitulada “Diz-se por Musica” da autoria de João Villaret e Lucien Donnat… De notar aliás que não foi esta a única revista que Robles e Amélia levaram à cena.

 

Lembra Luis Francisco Rebello que em 1928 produziram um espetáculo a partir da revista “Cravos de Papel” de Lino Ferreira e Nascimento Fernandes, com um elenco de luxo: Amélia fez dois papeis, “Menina Alfacinha” e “Mulher da Mouraria”, Robles fez o compère e atuaram também, Maria Clementina, Assis Pacheco, Álvaro Benamor, entre outros mais.

 

E acrescenta Rebello que, no início dos anos 40 o Teatro Nacional levou à cena nada menos do que três revistas, sendo uma delas a já referida “Diz-me por Música” de João Villaret e Lucien Donnat. (cfr. Luis Francisco Rebello – “História do Teatro de Revista em Portugal”, vol. 2, ed. Publicações D. Quixote, 1985, sobretudo pág. 123-126).

 

Mas vejamos o historial da colaboração de Lucien Donnat com Amélia Rey Colaço, a partir sobretudo do livro de Vitor Pavão dos Santos. Aí encontramos com efeito numerosas referências a trabalhos de Donnat.

 

Assim, em 1949, na peça “Outono em Flor”, ultima de Júlio Dantas, Pavão dos Santos descreve os cenários e esclarece que “quem desenhava estas maravilhas era Lucien Donnat, o francês mais português e mais espirituoso e requintado que conheci, de um gosto o mais impecável, do qual Amélia fizera um indispensável aliado” (pág. 27). E nessa linha vai citando cenários e ambientes produzidos para o TNDMII.

 

Jorge de Sena refere também estes cenários de Lucien Donnat, sublinhando em especial os móveis e adereços e salientando a adequação ao ambiente da peça “a que o público se entrega consoladamente.” E acrescenta ainda que “um ou outro desconsolo da restante interpretação diluiu-se na amenidade geral do conjunto”, o que não deixa de ser interessante, tratando-se de uma peça de Julio Dantas (in “Do Teatro em Portugal” edições 70, pág. 134).

 

Mas voltemos às análises de Vitor Pavão dos Santos. Seleciono, entre tantas mais, as referências a peças de Lope de  Vega (“A Menina Tonta - La Dama Boba”) “em que Lyicen Donnat fez maravilhas com um pátio do siglo de oro”, isto em 1953 (pág. 38); a apresentação do “Tá-Mar de Alfredo Cortez em Paris (1953)” com cenários bem bonitos estilizados mas com o necessário realismo poético” (pág. 57).

 

E sobretudo, na mesma obra, a transcrição do longo depoimento de Amélia Rey Colaço sobre Lucien Donnat, onde se refere que o cenógrafo não era “apenas” um grande cenógrafo: seria também dramaturgo, como aliás já vimos acima, e até autor esporádico de música de cena. Por exemplo, diz Pavão dos Santos, na “revista carnavalesca Ponto de Vista (10 de Fevereiro de 1961) texto muito engraçado de Varela Silva, música de Lucien Donnat” (pág. 153)!

 

E para terminar, o depoimento de Amélia Rey Colaço sobre a recuperação do Teatro Avenida, depois do incêndio do D. Maria II: “O que recebi do seguro foi todo aplicado na renovação do Teatro Avenida, que era um teatro miserável. As pessoas nem queriam acreditar, o meu querido Lucien Donnat, com a sua baguete de feiticeiro, tinha transformado tudo, parecia um teatrinho de Londres, em tons de vermelho, com o busto do Garrett no foyer, salvo do incêndio”. E Amélia recorda ainda que, durante o incêndio, Lucien Donnat “meteu-se às chamas”! ( págs. 208-210).


DUARTE IVO CRUZ