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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (LXXVII)

  

O ESPETÁCULO TEATRAL EM CAMÕES E ANTÓNIO RIBEIRO CHIADO

Recuamos hoje até meados do século XVI.

O espetáculo teatral, ao longo dos anos de 500, terá perdido a dinâmica e a abrangência que Gil Vicente lhe legou. E mesmo a nível de textos, a qualidade regista como que uma quebra, em relação aos parâmetros vicentinos, mas também ao conjunto de outros géneros e expressões literárias e artísticas.: o que não significa uma total ausência de valor.

Há aqui um certo paradoxo. Todos bem sabemos que não é na vertente dramatúrgica que Camões atinge os píncaros excecionalíssimos da sua obra. Mas também todos temos consciência de que António Ribeiro Chiado atinge o seu mais elevado nível precisamente, na vertente dramatúrgica.

 E não estamos a compara-los entre si. Ou melhor – até podemos dizer que, na especificidade das dramaturgias respetivas, o Chiado não desmerece tanto: mas no conjunto global das criações respetivas, qualquer comparação seria perfeitamente descabida, para não dizer absurda!...

Posto isto, o que nos interessa agora é evocar o espetáculo teatral da segunda metade do século XVI: e encontramo-lo diretamente evocado em duas peças que precisamente retratam e documentam o meio teatral da época. São elas, o “Auto de El-Rei Seleuco” de Camões e o “Auto da Natural Invenção” do Chiado. Sem entrar em méritos relativos ou comparativos, salientamos entretanto um aspeto aglutinador: ambas as peças, cada uma a seu modo e a seu jeito, põe em cena situações de “teatro no teatro”: representações de peças por grupos de amigos ou familiares.    

O “Auto de El-Rei Seleuco” terá sido escrito entre 1543 e 1549 e evoca uma figura destacada da corte de D. João III, o Cavaleiro Fidalgo Estácio da Fonseca, Almoxarife e Recebedor das Aposentadorias da Corte. Trata-se com efeito de uma récita de teatro representada em casa do próprio Estácio: e a anteceder o Auto propriamente dito, temos uma cena em que o próprio dono da casa dialoga com um chamado moço-criado sobre o espetáculo que irá ter lugar e os atores respetivos:

«Estácio – São já chegadas as figuras?/Moço – Chegadas são elas quase ao fim das suas vidas./ Estácio – Como assim?/ Moço – Porque foi a gente tanta que não ficou capa com frisa, nem talão de sapato que saísse fora do couce. Ora vieram uns embuçadetes e quiseram entrar pela força: ei-lo arrancamento na mão: deram uma pedrada da cabeça do Anjo e rasgaram uma meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não há-de entrar, até não derem uma cabeça nova, e o Ermitão até não lhe porem uma estopada na calça. Este pantufo se perdeu ali; mande-o vossa mercê apregoar nos púlpitos que não quero nada alheio./Estácio – Se ela fora outra peça de mais valia, tu botares a consciência pela porta for apara a meteres em tua casa»…

Ora bem: no próprio “Auto de El-rei Seleuco” o Chiado é expressamente referido com alguma ambiguidade. Num diálogo entre dois personagens, Martim Chinchorro e o Escudeiro Ambrósio, este conta como contratara o Moço Lançarote:

«Ambrósio - Aqui me veio parar às mãos, sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e mais, tem outra coisa: que uma trova fá-la tão bem como vós, ou como eu, ou como o Chiado»…

Por sua vez, o Chiado, no “Auto da Natural Invenção”, põe também em cena um diálogo preparatório da representação de um espetáculo em casa de uma figura do corte. Falam o Dono da casa e o criado Almeida:

«Dono – Almeida!/ Almeida – Senhor?/ Dono – Vem cá, vem cá! Sabe se há-de tomar o porto/hoje este auto, ou se é morto./Almeida – E o autor onde está?/ Dono- Em casa de teu avô torto,/ ou marmelo pela perna!/ Quem seus rapazes governa/sua casa é mais rapaz, e rapaz que tratos traz/ com quem a malícia inverna./ Que te mandei todioje?/ Almeida – Que mandou Vossa Mercê?/ Dono – Já nada pois que assi é/ não hade Deus que tenoja»…

O Auto acaba por ser feito, apesar das restrições do Dono, para quem o Auto é devassidão, confusão, desonra e risco de segurança da casa. Talvez porque, como escreveu Luciana Stegagno Picchio, «A Natural Invenção tal como as peças espanholas e inglesas que tratam do mesmo assunto, põe-nos em contacto direto com a menosprezada e pitoresca chusma de comediantes que em Portugal no seculo XVI já tinha assumido uma fisionomia própria bem definida» – expressão rigorosa do meio teatral da época… (in “História do Teatro Português” – 1964, pag. 102). Aliás o designado Autor é, na época, muitas vezes, o que hoje designaríamos como encenador: mas desses, nem se fala!  

E vejamos, para terminar, ainda uma referência ao Chiado, na comédia “Aulegrafia” da autoria de Jorge Ferreira de Vasconcelos. Aqui, dialogam dois personagens, D. Galindo e D. Ricardo:

«D. Galindo – Ah desumana cegueira,/ que trago os olhos quebrados/ para chorar/ todos os gostos passados (…)/ D. Ricardo – Isso é vosso?/ D. Galindo – Senhor, não. É do escudeiro Chiado./ D. Ricardo – Em algumas coisas teve veia esse escudeiro» …

Teófilo Braga enfatiza esta citação e relaciona-a com a referência de Camões que acima se transcreveu: «não carecia de mais para a sua imortalidade». (in “História da Literatura Portuguesa – Escola de Gil Vicente e Desenvolvimento do Teatro Nacional”- 1898 pag. 83).

DUARTE IVO CRUZ