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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (LXXX)

Almada Negreiros

 

ALMADA E O ESPETÁCULO TEATRAL, NO “MANIFESTO ANTI-DANTAS”

Assinala-se este mês o centenário do “Manifesto Anti-Dantas e por Extenso”, texto referencial, não só da obra e da intervenção de Almada Negreiros através da análise polémica e veemente, mas de profunda atualidade, do meio cultural da época – e em tantas coisas, do meio cultural da nossa época: e isto, tanto pela singularidade e qualidade do texto em si mesmo, como das críticas que em grande parte e no global, ainda hoje se revelam atuais.

 

Façamos pois uma breve análise.

Antes de mais, há que referir a simbologia das críticas, a partir da obra, à época em plena criação e expansão, do próprio Júlio Dantas, realçando aliás dois aspetos hoje muito claros. De um lado, a simbologia em si mesma, considerando-se Dantas um símbolo de certa criação literária e artística da época, e daí a abrangência de tantos nomes e tantas formas de arte e literatura.

 

Mas de outro lado, o reconhecimento de que o “Manifesto” em si, notabilíssimo ainda hoje como expressão e rigor da critica, peca em certos aspetos por análises epocais que entretanto ou foram corrigidas por obras posteriores de cada um dos visados, ou revelam um excesso de criticismo: o que, porém, constitui em si mesmo um dos valores perenes do “Manifesto”, mesmo quando não se concorde inteiramente com a analise.

 

Ora bem: um dos aspetos que nos apraz salientar, por que menos lembrado, é a referência ao meio teatral – atores, encenadores – na época em plena atualidade, mas que, precisamente, hoje, é importante recordar. E tenha-se presente que essas referencias nem sempre são expressas, o que mais reforça a abrangência global, digamos assim, do “Manifesto” em si mesmo.

 

E isso é particularmente assinalável no que respeita a atores, pois a sua arte é, por definição e por essência, transitória e como tal tantas vezes esquecida. Por outro lado, as referencias diretas são escassas o eu não impede Almada de condenar, em termos genéricos mas veementes e abrangentes, “os atores de todos os teatros”, nada menos!

 

Sara Afonso Ferreira, que tem dedicado vasto e meritório labor à obra de Almada, procede, na edição critica do “Manifesto Anti Dantas”, a qual integra um CD com leitura e entrevista, pelo próprio Almada gravada em 1965, procede a um levantamento vasto dos atores relacionados com as companhias e espetáculos que direta ou indiretamente são referidos no próprio texto. Por vezes expressamente, outras vezes através dos espetáculos e companhias citados.    

 

Assim, temos “os Rosas” e “os Brazão” que correspondem a João Rosa, Augusto Rosa e Eduardo Brazão, em “A Ceia dos Cardeais” do próprio Dantas. E temos Maria Matos, Luísa Lopes, Celeste Leitão, a jovem Hermínia Silva, Francisco Mendonça de Carvalho e Mário Duarte na estreia de “Soror Mariana”, também de Júlio Dantas, no Teatro Ginásio em 21 de Outubro de 1915.

 

E surgem mais evocações, no livro de Sara Afonso Ferreira, de elencos de espetáculos citados no “Manifesto Anti-Dantas”, do próprio Dantas e de outros autores. E são sempre marcadas pela crítica irónica ou violenta de Almada.

 

Por exemplo, o ator Mário Duarte, na estreia da “Soror Mariana” é referido como “o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa”, alusão a um dentista homónimo da época.

 

E há mais citações de peças, atores e atrizes que marcaram a época, e são citados em espetáculos de autores diversos: Maria Matos, que na “Soror Mariana” interpreta a Abadessa com “a voz tão fresca e maviosa da tia Felicidade da Vizinha do Lado”, peça de André Brun; ou Mendonça de Carvalho, evocado num papel anterior, em “A Menina do Chocolate” de Paul Gavault; ou estreia de “Aljubarrota” de Rui Chanca, com Eduardo Brazão e Augusto Rosa, e “que deixou de ser a derrota dos castelhanos para ser a derrota do Chianca”; a atriz Palmira Torres, que em 1916 estreou uma comédia, “Como se Vingam Mulheres”, de Sousa Costa, dedicada a Julio Dantas …

E tantos mais!

(cfr. “Manifesto Anti-Dantas e por Extenso por José de Almada Negreiros Poeta d´Orpheu, Futurista e Tudo” edição de Sara Afonso Ferreira, Assírio e Alvim ed.)

DUARTE IVO CRUZ