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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES – XLIX

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AS “CONVERSAS COM AMÉLIA REY COLAÇO”

 

Chama-se “O Veneno do Teatro ou Conversas com Amélia Rey Colaço” o livro biográfico e critico de Vítor Pavão dos Santos, onde se traça, com base em longas entrevistas com a protagonista, um quadro detalhado da carreira de Amélia mas também da história do teatro-espetáculo em Portugal: desde 1923, estreia agitada de “O Lodo” de Alfredo Cortez - que o autor denomina adequadamente “A Batalha de O Lodo” - até ao último espetáculo de Amélia, curiosamente no Cine-Teatro de Portalegre, com a representação, em 19 e 20 de Outubro de 1985, de “El Rei Sebastião” de José Régio, tinha Amélia 87 anos.

Mas a carreira profissional iniciara-se em 1916, no Teatro Avenida, com um “sainete teatral” dos Irmãos Quinteros, e ganharia balanço definitivo no ano seguinte, agora no Teatro República, com uma peça dos mesmos autores, peça e autores então num primeiro plano de sucesso. De tal forma que no ano seguinte, com o Teatro a chamar-se, como de início e até hoje, Teatro São Luiz, do nome do empresário-proprietário Visconde de São Luiz Braga, temos Amélia Rey Colaço a contracenar com os grandes nomes da época – Ferreira da Silva, Lucinda Simões, Ângela Pinto, António Pinheiro, em peças de D. João da Câmara, Augusto de Castro, Veva de Lima, Afonso Lopes Vieira, para só citar os portugueses.

E daí para cá, o livro regista centenas de peças interpretadas por Amélia, e recolhe em centenas de páginas, um longuíssimo depoimento crítico da atriz, deviamente integrado na perspetiva histórica que Vítor Pavão dos Santos elabora, comenta e enquadra no que acaba por constituir uma história do teatro português, ao longo de 70 anos, em Portugal e também no Brasil.

Porque podemos então lembrar que as tournées de companhias portuguesas de teatro declamado no Brasil foram correntes até meados do século passado - e com sucesso. Mas também evocamos os espetáculos de grandes companhias brasileiras em Portugal, até pelo menos aos anos 70. Recordo especialmente aqui, como espetador e crítico de teatro, as tournées de Maria Della Costa - Sandro Polónio ou de Cacilda Becker em Lisboa, ou os espetáculos de Raul Solnado no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Mas, para além da atividade profissional, importa referir o registo cultural subjacente. Em tantas dezenas de anos de atividade, como atriz ou como co-diretora, no quadro da Empresa Rey Colaço – Robles Monteiro, vemos Amélia responsável direta pela companhia oficial de teatro, no D. Maria II desde 1929 até ao incendio de 1964, e depois, mais episodicamente, no Avenida, no Capitólio, no São Luis, no Trindade e também pelo país fora, até 1974: e até no Coliseu dos Recreios, mas aí em espetáculo único de homenagem a Amélia e Companhia, depois do incêndio do D. Maria II, espetáculo a que assisti, como a quase todos os outros aqui citados ou não, desde os anos 50/60.

E o livro de Vítor Pavão dos Santos detalha com muita informação e muita qualidade crítica, esta longa carreira que é também, repita-se, a “carreira” da História do Teatro Português do século XX.

O que passa pela renovação dramatúrgica. Ao longo dos depoimentos de Amélia e dos comentários e enquadramentos histórico-críticos de Pavão dos Santos, encontramos descrições e referências a autores contemporâneos, e na época por vezes verdadeiras revelações. Aqui só vou citar os autores portugueses - e há que situá-los no período de estreias. Mas efetivamente, a Amélia Rey Colaço e à empresa Rey Colaço - Robles Monteiro deve-se muito da renovação do teatro português.

Vejamos os autores citados com destaque:

Almada Negreiros, Alfredo Cortez, Vasco Mendonça Alves, Carlos Selvagem, Ramada Curto, José Régio, Henrique Galvão, Bernardo Santareno, Olga Alves Guerra, Costa Ferreira, Augusto Sobral, Jaime Salazar Sampaio, Virgínia Vitorino, Teresa Rita, Tomaz Ribeiro Colaço, Manuel Frederico Pressler, Isabel da Nóbrega, Joaquim Paço d’Arcos, Nuno Moniz Pereira, e outros!...

E quanto aos atores e encenadores, é impossível referir exaustivamente a verdadeira renovação que Amélia Rey Colaço proporcionou e ajudou, em dezenas de anos de atividade…


DUARTE IVO CRUZ