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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES - XLVIII

 

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UMA ATRIZ ESQUECIDA QUE É NOME DE UM BELO E IMPORTANTE TEATRO

Na preparação do programa da visita do CNC a Montemor- o- Velho, inclui-se, com toda a justiça, o velho Teatro Ester de Carvalho. Mas esclareça-se desde já, e sem embargo óbvio do que, na altura e in loco, será referido e confirmado: para além da qualidade do teatro em si, exemplo notável de edifício de espetáculos do início do século passado, concretamente 1901/2, mercê da adaptação de uma antiga Igreja – para além dessa exemplaridade de arquitetura de espetáculo, que no local será visitada e devidamente referida, há que assinalar desde já a sua atividade artística: funciona exemplarmente o CITEMOR, grupo cultural e cénico de verdadeira qualidade. Tudo isso veremos no local e no momento próprio.

Como veremos também a importância cénica e literária daquilo a que, como todo o rigor, podermos chamar de dramaturgia inesina, relativa pois à tragédia de Inês de Castro, que se inicia, em termos de teatro, com a esplendorosa “CASTRO” (c. 1560) de António Ferreira, passa pelas expressões dramáticas dos seculos XVII a XX, dura até hoje em peças contemporâneas, e surge também em textos dramatúrgicos espanhóis e franceses de grande qualidade.

Mas insista-se, tudo isso será visto no momento e no local próprio.

Para já, refira-se que o Teatro Ester de Carvalho, existe apesar de modernizações que o mantêm mais ou menos na traça original, corresponde à adaptação de uma velha Igreja de São Pedro dos Clérigos. Não é caso único: podemos recordar, entre tantos mais, o Tetro Lhetes de Faro. Como também não é inédita a mudança de nome do Teatro Ester de Carvalho, que na origem se chamava Teatro Infante D. Manuel.

Mas quem era então a atriz Ester de Carvalho? A sua biografia, breve e dramática em sentido artístico mas também em sentido literal, deixa a memória (hoje esquecida) de uma atriz de grande qualidade e de total instabilidade pessoal e profissional. Era natural de Montemor-o-Velho, daí a homenagem do nome do Teatro.

Estreou-se muito jovem em 31 de Março de 1880, no Teatro da Trindade, com a opereta “O Cão de Malaquias”. Tomaz Ribas recorda aliás a estreia do Trindade, em 30 de Setembro de 1867, assinalando que “mais do que o espetáculo inaugural - que não agradou nem ao público nem á critica – o edifício e a sala do Trindade foram as grandes vedetas da noite…” (in “O Teatro da Trindade - 125 anos de Vida” ed. Lelo e Irmão -1993 pag. 18). E basta recordar as páginas que Eça dedica, designadamente em “Os Maias”, recentemente adaptadas e encenadas precisamente no Trindade.

Ora se é certo que a estreia de Ester de Carvalho foi promissora, a carreira a muito breve prazo deixa de o ser. E a atriz morreu jovem no Rio de Janeiro. Sousa Bastos, fonte sempre citada e tantas vezes única para os atores e atrizes desta época, não deixa por menos no “Diccionário do Theatro Português”:

“Era inteligentíssima, tinha uma voz deliciosa, grande desembaraço, olhar vivo e penetrante, enfim, todos os dotes requeridos para um grande sucesso no teatro. (…) O pior é que tinha tanto de atraente como de desequilibrada. Era turbulenta a não havia meio de a fazer cumprir com os seus deveres. A empresa fartou-se dela e ela ainda mais da empresa”. Seguiu então para o Rio de Janeiro onde “foi acolhida com o maior entusiasmo e aclamada. Fanatizou o público: mas fazendo ao mesmo tempo loucuras que lhe deram grandes desgostos e a acabaram por a matar! Em poucos meses”…

Merce no entanto a homenagem que o nome do teatro da localidade onde nasceu ainda hoje ostenta. E o Teatro Ester de Carvalho merece amplamente a visita, como exemplo conservado e ativo da geração de salas de espetáculo dos séculos XIX / início do século XX. Em boa hora o CNC promove essa visita, para além do sentido histórico e urbanístico de Montemor-o-Velho, e a memória dramática de Inês de Castro.

Dramática em sentido histórico, em sentido literal e em sentido de expressão teatral: pois a literatura dramática do tema inesino, como vimos acima e melhor veremos, é vasta e perdura dos clássicos aos contemporâneos, tanto em Portugal como na Europa.

DUARTE IVO CRUZ