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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (XXVII)

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RUI DE CARVALHO, ATOR DE ESPETÁCULOS MUSICAIS


Não se pretende aqui proceder a uma síntese da carreira de Rui de Carvalho, em rigor iniciada em 1942, tinha o ator na altura cerca de 15 anos: e carreira que se prolonga até hoje, em plena atividade.

Bastaria para isso evocar a intervenção, constante a partir de 1957, ininterrupta e quotidiana, desde os anos 80/90 em espetáculos, séries e novelas na televisão: estas duram rigorosamente até hoje. Ou evocar os 27 filmes em que interveio. Para não falar nas centenas de peças que protagonizou, desde pelo menos 1947, com papéis de destaque e cobrindo todas as épocas, géneros e expressões do teatro, desde Gil Vicente, D. Francisco Manuel de Melo, Shakespeare, Molière, Tchekov, até aos contemporâneos.

Destaco no entanto a participação em filmes portugueses, pela constância, o que não é fácil como bem sabemos, mas também, obviamente, pela qualidade. Lá encontramos os melhores nomes da cinematografia portuguesa, com destaque, exatamente na qualidade e constância, para Manoel de Oliveira, Artur Ramos, Manuel Guimarães, Cunha Telles, João Botelho e outros.

E também quero evocar a participação no Teatro Nacional Popular, dirigida por Francisco Ribeiro, companhia que na época mas em rigor ainda hoje, marca uma radical renovação de repertório: sobretudo autores da vanguarda portuguesa, como Costa Ferreira ou Luis Francisco Rebello. Haveria aliás mais tarde de protagonizar estreias de Cardoso Pires, Luis de Sttau  Monteiro  e Bernardo Santareno entre outros.        

Mas o que aqui quero agora especificamente recordar, por menos habitual, é a intervenção de Rui de Carvalho num género de espetáculo exigente e pouco praticado entre nós, a comédia musical. Esclareça-se: não se trata de revista, como não se trata de ópera ou opereta. Trata-se, isso sim, de uma expressão teatral em que se cruzam, com maior ou menor incidência, o texto dramático propriamente dito, e a intervenção de cenas musicais, cantadas e representadas pelos mesmos protagonistas.

É interessante então constatar que Rui de Carvalho foi, durante anos largos, protagonista deste género ambíguo, difícil e exigente que é a comédia musical. E posso evocar espetáculos como “O Baile” de E. Neville em 1959, ou “Margarida da Rua” que lhe valeu um prémio da crítica de 1960 , ou “Boa Noite  Betina”, de Garinei e Giovanini, ou ainda “O Aniversário da Tartaruga”, este levado à cena no então recente Teatro Villaret, dos mesmos autores, com música de Renato Rascel.

 Estes nomes talvez já talvez hoje pouco digam ao público em geral, decorridos que são mais de 35 anos. E no entanto, de acordo aliás com críticas que então escrevi, mereceram e merecem o maior destaque e interessaram o público, também pela qualidade da interpretação.

Lembro designadamente o que escrevi sobre a “O Aniversário da Tartaruga”. Contracenando com Florbela Queiroz e com apoio musical de Thilo Krasmann, Rui de Carvalho assumiu uma função cénica que não era o habitual na sua longa carreira. Cantava e dançava em cena.

E não obstante opinar nessa crítica que “ambos os atores representam melhor do que cantam”, o que não deixa de ser recorrente, o certo é que a interpretação de Rui de Carvalho, neste papel de “protagonista global” - ator,- dançarino-cantor, mereceu uma referência bem positiva: “Rui de Carvalho surge numa interpretação cheia de garra, inteligente no desvio dos perigos constantes, leve e bem movimentada, versátil, plena de talento e profissionalismo”… (in revista Flama. 15 de outubro de 1971).

Daí para cá, não parou, como bem se sabe. Por exemplo, o “Passa por Mim no Rossio” de Filipe La Féria marcou, nos anos 90, a renovação do género musical.  E é interessante assinalar também que pela mesma época, Rui de Carvalho se desdobrava em géneros e espetáculos bem diversos, do clássico ao contemporâneo e do drama ao teatro infantil, na altura bem presente nos espetáculos da companhia do Teatro do Gerifalto, dirigida durante décadas por António Manuel Couto Viana, a qual constituiu, para sucessivas gerações, a iniciação ao espetáculo teatral, como um dia poderemos aqui recordar.

 

DUARTE IVO CRUZ