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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENADORES (XXX)

Maria Lalande.JPG 
Maria Lalande (in http://encontrogeracoesbnm.blogspot.pt/)

 

FRANCISCO RIBEIRO E OS COMEDIANTES DE LISBOA

Não vamos transformar esta série de artigos num levantamento histórico, mesmo de história moderna do espetáculo em Portugal: mas é justo e necessário para compreensão da estética e da política do teatro português contemporâneo, enquadrar o teatro que hoje se faz, e os artistas que o fazem, numa perspetiva de antecedentes históricos, designadamente a nível de repertório moderno da época e de hoje, desde que de qualidade: com a “agravante” que essa contemporaneidade, em tantos exemplos, era na época perfeitamente “vanguardista”.

E mais: o mérito de quem o fez em Portugal surge hoje reforçado pelo ambiente difícil, distanciado, no mínimo desconfiado ou repressivo com que esses espetáculos chegavam ao público – e quando chegavam… Nesse sentido, ainda falarei aqui de algumas iniciativas hoje “históricas” mas na data extremamente relevantes e importantes. 

Referi, no artigo precedente, a importância de Francisco Ribeiro na estruturação e atualização do teatro em Portugal, ao longo do século passado. E já na altura vimos que não se tratou, então como agora, de uma simples evocação “histórica” – do espetáculo e da própria literatura dramática. Já não seria pouco, dada a época. Mas o que importa salientar é que a atualidade dos autores, de facto em muitos casos desconhecidos na época, conciliou-se com uma renovação de elencos, de estilos e de estéticas que abrangeu a arte teatral portuguesa como um todo. E de tal forma, que não perdeu hoje atualidade.

Está nessa perspetiva a evocação do companhia dos Comediantes de Lisboa,  dirigida nos anos 40/50 por Francisco Ribeiro e pelo irmão António Lopes Ribeiro. E isto porque se mantêm atuais muitos dos autores e das peças na altura estreadas, mas sobretudo, essa perspetiva de renovação que constituiu o cerne dos programas, mesmo quando reencenavam autores já na altura clássicos, e cito como tais as peças de Ibsen, de Tolstoi, de Camilo, de D. João da Câmara, de Dumas Filho – e muitos deles constituíam revelações, no que respeita  ao teatro encenado em Portugal. Isto não obstante outras iniciativas então empreendidas, e é justo evocar a renovação que também trouxe à cena a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro.

Mas o repertório dos Comediantes de Lisboa era de facto moderno e  na época inovador. Inclusive, pela revelação de dramaturgias então pouco ou nada conhecidas em Portugal. Basta lembrar que o primeiro espetáculo dos Comediantes de Lisboa foi uma peça americana, o ainda hoje evocável “Não o Levarás Contigo” de Kaufman e Hart, depois divulgado na versão cinematográfica. E se passarmos rapidamente o repertório traduzido dos Comediantes de Lisboa, encontramos peças como a “Fanny” de Marcel Pagnol, a “Eletra” de Giraudoux, o “Pigmalião” de Bernard Shaw,  “O Círculo” de Somerseth Maugham, e ainda textos de Marcel Achard e tantos mais.

Mas mais interessante será a insistência em dramaturgos portugueses contemporâneos, o que desde logo reforçava a dificuldade de os apresentar em público. E nesse aspeto, apraz-me salientar a estreia do “Baton” de Alfredo Cortez, pela qualidade do texto mas também pela revelação que na época constituiu, depois de anos de proibição.

O tema da peça será delicado – mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem, numa retoma, agora num ambiente social e urbano  desenvolvido de alta burguesia, antes referido por Cortez num meio rural em “O Lodo”. A peça acaba por propor uma solução de renúncia ética e social, mas nem por isso causou menos turbulência na época. “Sátira burguesa” dizem  António José Saraiva e Óscar Lopes na “História da Literatura Portuguesa”.

Ora, importa então referir que a peça, proibida em 1938/9, acabou por ser, anos  decorridos,  um dos mais assinaláveis espetáculos dos Comediantes de Lisboa, a partir da encenação de António Lopes Ribeiro e da interpretação de João Villaret no papel de “Tatinho - rapaz novo, efeminado”, diz a didascália, e percebemos bem o que  representaria essa caracterização do personagem, no Teatro da Trindade, em 1946!

Mas ficou também a qualidade do restante elenco, desde Lucília Simões a Maria Lalande, José Gamboa, Josefina Silva, Lucia Mariani, e outros mais, de primeiro plano já na altura: e muitos deles, ainda os vi anos depois  representar, só que em personagens bem mais idosos …         

 

DUARTE IVO CRUZ