Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ATORES, ENCENADORES – XXXVIII

Scan0094.jpg

EVOCAÇÃO HISTÓRICA DE UM CHAMADO “TEATRO NOVO”

Fazemos hoje uma evocação histórica.

Como seria o teatro-espetáculo, as suas salas, atores e público no século XVIII?
Não é descabido, nesta série de referências – que vão desde atores do século XIX até aos que, felizmente, estão hoje em plena atividade – analisar uma peça do século XVIII que precisamente descreve um espetáculo teatral da sua época.

Um espetáculo e uma peça de Pedro António Correia Garção (1724-1772), dramaturgo ele próprio protagonista de um insólito drama pessoal e politico-judicial: alto funcionário protegido pela corte, filho de um secretário do Marquês de Pombal, escrivão da Casa da India, fundador da prestigiosa Academia Lusitana (1756), redator da Gazeta de Lisboa (1760), leva uma vida tranquila junto do poder. Até que, a certa altura cai em desgraça e na mais negra miséria: “filho rotos” ele próprio refere. Ou, como escreveu o seu contemporâneo José Basílio da Gama, “cheio de sarro/ roto o vestido /hirsutos os cabelos/ a boca negra/ os dentes amarelos”!...

E mais: sem que até hoje se conheçam as razões, é encarcerado na cadeia do Limoeiro em 9 de Abril de 1771 e lá virá a morrer, sem julgamento, em 19 de Novembro de 1772.

Queremos então referir a peça de Correia Garção denominada precisamente “Teatro Novo”, pois, além do valor literário e dramatúrgico, documenta de forma direta o meio teatral e a própria sociedade do seu tempo.

Trata-se de uma comédia familiar. A família de Aprígio Fafes vive em dificuldades financeiras. Eis porem que o “compadre Artur Bigodes” regressa rico a Lisboa depois de anos no Brasil, onde fez fortuna “passando tantos dias/ Por duros morros, por incultas fragas”. Logo se arma uma conspiração: há que casar o Artur com uma das filhas de Aprígio, Aldonsa ou Branca. E a forma de o seduzir é organizar um espetáculo teatral.

Tal como escreveu António José Saraiva, “na sua comédia O Teatro Novo Garção reúne uma pequena mas variada assembleia para discutir o repertório que irá ser apresentado num teatro com os capitais de um brasileiro de torna-viagem”. (in “Obras Completas” de Correia Garção, vol. II “Prosa e Teatro” – pág. XLIX). O debate é intenso pois cada um tem o seu gosto e a sua ideia. Mas quem vai pagar toda a iniciativa é o “compadre Artur”.

Este, sem suspeitar das intenções, concorda com a representação:
“aprovo/ A ideia do teatro; é bom projeto./ O ponto só consiste em desbancarmos/ O da rua dos Condes e Bairro Alto” - curiosa referência a estes dois teatros de Lisboa, que aliás já aqui foram evocados.

Ora bem: a conspiração resultou. Artur casa com Aldonsa e dota Branca. E tudo isto se deve ao teatro. “O teatro/ Depende mais que tudo do poeta” e “errado vai quem julga que o teatro/ só para divertir o povo rude/ Dos antigos poetas foi achado”, até porque “a mudança de vistas sobre vistas, as tramoias/ mares, incêndios, drogas e batalhas/ são cousas de que o povo se enamora”. O que realça certo predomínio da cena sobre o texto em si.

E a peça termina com uma evocação erudita de Aprígio sobre o teatro português:

“Inda o fado não quer, inda não chega/ a época feliz e suspirada/ De lançar do teatro alheias musas/ De restaurar a cena portuguesa./ Vós, manes de Ferreira e de Miranda/ E tu, ó Gil Vicente a quem as Graças/ embalaram o berço, e te gravaram/ Na honrada campa o nome de Terêncio”…

Destaco a evocação: “restaurar a cena portuguesa”, neste caso, diz-nos Pedro António Correia Garção, através de um grupo de amadores. Mas como vimos, são citados dois teatros onde atuavam certamente alguns dos atores e atrizes cujo registo chegou até nós: António José de Penha, Francisca Eugénia, João Inácio Henriques, Vitorino José Leite, Joana Inácio da Piedade, José António Ferreira… E citamos desde finais do século XVIII até inícios do século XIX. O que não sabemos é como representavam…

DUARTE IVO CRUZ