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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ATORES, ENCENDORES - LXXI

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EVOCAÇÕES DE ÂNGELA PINTO POR QUEM A VIU REPRESENTAR

 

Evoco hoje a memória e a carreira da atriz Ângela Pinto, nos 150 anos do seu nascimento e isto na perspetiva de um desempenho que, na época, foi unanimemente elogiado e aplaudido, o que hoje já não podemos obviamente avaliar: mas diz-nos muito, porque - e isso podemos avaliar - alem do sucesso unânime e duradouro junto do publico e da critica, deixou a memória de uma renovação de repertório e de modernização de espetáculos que impulsionou ou a que esteva ligada. Ora, se não se pode obviamente avaliar, repita-se, a qualidade das interpretações, pode-se, isso sim, atestar a qualidade e exigência de repertório, tanto em teatro declamado como em teatro ligeiro e musicado, e, mais do que isso, evocar o estrondoso sucesso e prestígio na sua longa vida de atriz, tanto em Portugal como no Brasil.

Transcrevo, a propósito, o que Mário Duarte, na revista “De Teatro” (Março de 1925), escreveu por ocasião da morte da atriz, ocorrida em 9 de Fevereiro daquele ano:

“Não se precisa citar a sua maior criação, se foi no papel cómico, picaresco de uma revista que brilhou, ou se o seu talento deu maior tensão à trágica figura de determinada obra dramática; não. A comediante que hoje perdemos fazia todos os seus papéis com a mesma arte e levava – os consigo até á altura descomunal do seu talento de criadora”.

Cita em seguida um grupo de notáveis atores então recentemente falecidos: Virgínia, Ferreira da Silva, Joaquim Costa, Ângela Pinto. Só a fama de Joaquim Costa não chegou aos dias de hoje. 

E Mário Duarte completa a evocação com recomendações veementes de disciplina e ordem aos atores:

“Basta de indisciplina e falta de ordem que vão pelos teatros, porque, desaparecendo consecutivamente essas figuras, que ainda hoje o dignificam, e poucas são, uma escassa dúzia, se outras não estiverem preparadas para tomar dignamente os seus postos, não teremos apenas, como agora, de chorar a perda de um artista, mas em breve teremos de pôr luto pelo teatro português!”…Assim mesmo!

Mas recuemos no tempo. Vinte e um anos antes, portanto em 1906, é publicado um livro intitulado precisamente “Ângela Pinto – Esboços, Homenagens e Apreciações Críticas” que recolhe depoimentos sobre a atriz, então no auge da carreira. E aí, escreveu Henrique Lopes de Mendonça, já na época figura destacadíssima do teatro e da sociedade portuguesa em geral:

“Essa radiante atriz, que começou pela opereta e galgou rapidamente às eminências do grande drama, reflete em cada um dos géneros as qualidades primaciais que noutro a distinguiram e que às vezes… raras vezes!... poderão destacar desagradavelmente. (…). Um simples gesto dela, nessa admirável fantasia burlesca do «Burro do Senhor Alcaide» (peça de D. João da Câmara e Gervásio Lobato estreada em 1891) revelou-me uma trágica. E se não correspondeu ainda plenamente a essa minha previsão, não é dela a culpa. É do meio artístico, que não parece comprazer-se na singeleza clássica da tragédia. Mas não há drama em que ela entre, onde, por um admirável gesto, por uma frase de profundo patético, a Ângela não produza o misterioso arrepio de que só os grandes artistas são os agentes. Intuição verdadeiramente genial, por certo, visto ser esta a frase consagrada para essas refulgências de espírito artístico, geradas espontaneamente no mais recôndito do ser (…) porque o temperamento vibrátil, irrequieto, impulsivo de Ângela Pinto não lhe consente o estudo demorado, minucioso, atento e paciente”…

E finalmente, Sousa Bastos (marido de Palmira Bastos, que amplamente elogia) no “Diccionário do Theatro Português” (1908):

“Ângela Pinto é um talento de eleição, uma atriz distintíssima, um nome que sem dúvida ficará vinculado, como raros, na história do nosso teatro. Nas suas tournées ao Brasil, tem sempre tido êxito igual ao que alcança a toda a hora na sua terra natal”!

Para terminar: Luís Francisco Rebello, no estudo intitulado “Três Espelhos” (2010), evoca, com elogios, algumas das peças que, ao longo da longa carreira, Ângela Pinto interpretou. E aí encontramos a heterogeneidade de géneros e autores: de Garrett (a Madalena de Vilhena) a D. João da Câmara (a Mariana do “Amor de Perdição”), de Shakespeare (“Hamlet”, em que fez o protagonista - imagem) a Feydeau, Augier, Bernestein, ou à “Severa” de Júlio Dantas, entre tantos e tantos mais.

 

DUARTE IVO CRUZ