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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

   Atalho de leituras, colho para ti duas referências. Uma de Pierre Teilhard de Chardin: Pareceu-me que, na Igreja actual, há três pedras perecíveis perigosamente colocadas nas fundações: a primeira é um governo que exclui a democracia; a segunda é um sacerdócio que exclui e minimiza a mulher; a terceira é uma revelação que exclui, para o futuro, a Profecia. Outra, apanhei-a no Les Enfants humiliés de Georges Bernanos: Ensina-me a vida que ninguém é consolado neste mundo sem antes ter consolado, que não recebemos nada que não tenhamos dado antes. Entre nós só há troca. Só Deus dá, só ele. Surgiram-me hoje, numa qualquer curva do meu caminho, como providência para as pensarsentir juntas. E fiquei como quem tomba do cavalo que julgava conduzir...

   Não sei a data certa do dito de Teilhard, mas é certamente profético, mais ou menos coevo deste texto do dominicano Yves Congar, escrito em 1963, na euforia dos trabalhos do concílio Vaticano II: a Igreja é chamada a romper francamente com antigos modos de presença, herdados do tempo em que ela tinha nas mãos, seguro, o ceptro, e a descobrir um novo estilo de presença junto dos homens...   ... O que, na situação presente, é mais literalmente conforme ao estatuto evangélico da existência cristã é, antes do mais, a distinção e a tensão entre a Igreja e o mundo, enfraquecidas, ou quiçá obliteradas, por um regime de cristandade. É, pela mesma lógica, a emancipação dos perigos de uma associação ou de uma simbiose com a sociedade temporal, tão forte que corria o risco de levar os homens da Igreja a desposarem as atitudes do mundo, a já não se envergonharem de falar a sua língua, nem de vestirem as suas librés, as suas joias, os seus miseráveis enfeites dourados. Num mundo que se tornou ou voltou a ser puramente "mundo", a Igreja, se ainda quiser ser algo, encontra-se, de certo modo, encurralada a ser apenas Igreja, testemunha do Evangelho e do Reino de Deus, desde Jesus Cristo e em vista dele. É disso que os homens precisam, é isso que esperam dela. Faça-se um inventário dos quesitos mais válidos relativamente à Igreja, e poderemos resumi-lo assim: que a Igreja seja menos do mundo, e mais para o mundo e esteja nele; que ela seja só a Igreja de Jesus Cristo, a consciência evangélica dos homens, mas que seja isso mesmo!

   A Igreja, como todas as realidades que possamos considerar sagradas ou de instituição divina, tem, na sua existência temporal, uma dimensão histórica. Entre outros exemplos, frei Yves Congar, em nota prévia ao seu opúsculo Pour une Église servante et pauvre, refere que o episcopado, sendo, na sua essência, uma instituição divino-apostólica, conheceu mais de uma forma histórica de realização e foi vivido em estilos bastante diferentesPorque, enquanto autoridade e sacramento, o episcopado é sempre o mesmo, somos induzidos a não ver  tudo o que separa um chefe de comunidade local dos primeiros séculos, um bispo da época feudal e um pastor do século XX. Igreja de sempre, sacerdócio de sempre, mas também Igreja de hoje, sacerdócio de hoje... O conhecimento das formas históricas ajuda-nos a perceber melhor a permanência do essencial e a mudança das formas; Permite-nos situar mais exactamente o absoluto e o relativo, e sermos assim mais fiéis ao absoluto mesmo, adaptando o relativo aos quesitos do tempo... Se formos incapazes de tal fidelidade essencial, se nos cobrir a cegueira aos sinais dos tempos, faltar-nos-á o tal sentido da Profecia que Teilhard reclamava. Num mundo que, com erros e esforços de percurso, vai tentando democratizar-se, sobretudo quando procura abrir em todos a consciência da cidadania, a figura do bispo  --  ou a realidade temporal desse corpo místico que é a Igreja  --  não tem sentido como senhor feudal, nem ditador, nem simples poder autoritário. Antes tem de ser quem escuta, isto é, como disse Bernanos, quem percebe que entre nós só há troca, que nada recebemos que antes não tenhamos dado, que só Deus simplesmente dá. As mulheres hodiernas também já não são, nem podem ser, aqueles seres submissos a que São Paulo mandava cobrir a cabeça, como agora fazem ainda certos líderes muçulmanos... Há mais de meio século já, o jesuíta Tellhard apontava o sem sentido de se excluir ou minimizar as mulheres, numa Igreja que existe em sociedades onde elas hoje são de todos os ofícios, até chefes de Estado ou de Governo.

   Noutras questões, haverá que ter em conta mais atenta os resultados ou simples progressos de trabalhos sérios, em áreas que vão desde a hermenêutica bíblica e da teologia às ciências da natureza e do homem. Assim, talvez não seja suficiente uma interpretação literal e descontextualizada das palavras de Jesus sobre o divórcio mosaico, nem tampouco alimentar o horror à homossexualidade como pecado contranatura, quando, mesmo que ela possa ser considerada uma excepção genética, já nenhum cientista a toma por doença ou anomalia natural tratável. Não esqueçamos que houve, em todos os continentes, "civilizações" que eliminavam as crianças defeituosas à nascença. Achamos bem?

   Profetizar será ir descobrindo o dedo de Deus no traçado dos caminhos do tempo. O profeta é humilde, tem de o ser, na vivência dessa tensão entre o que misticamente vê e o que humanamente observa.

   E deixo-te, Princesa, porque os recordo agora, com estes versos de Yuan Hongdao (1568-1610), poeta chinês da dinastia Ming:

 

          Uma luz alegre entra pela persiana,

          tenho bem encanecidas a barba e as sobrancelhas...

          Já os monges lamentam a minha velhice,

          e se espanta a água com ver-me tão atarefado...

          A chuva reaviva o azul das montanhas,

          o vento sopra um perfume de mancha verde...

          Sombra de saudade surta na embriaguez,

          uma barca me leva de volta a casa...

 

   Dou-te a mão

                                  Camilo Maria

     

    
Camilo Martins de Oliveira