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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Camilo _ caracteres chineses.jpg

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Muitas vezes meditei, nos meus anos de muito oriente, num caracter chinês  --  ou, melhor, em três --  que , no Japão, é um kanji, assim chamam eles aos caracteres importados da China. O tal, em japonês, lê-se ô, quer dizer rei : riscas um traço horizontal, outro um pouco abaixo, mais outro em baixo mesmo, a igual distância, e cortas todos três por um traço vertical, ao meio. O traço de cima quer dizer céu, o médio homem, o inferior terra. O vertical liga os três, sendo, portanto, o Rei quem ao divino liga a terra e o homem. Mas se apuseres, à direita da vertical para que olhas, entre as horizontais de baixo e do meio, um ponto, uma bolinha cheia, ou um tracinho como vírgula, já irás ler, em japonês, tama, que quer dizer joia, pérola. Quando colocares esse conjunto de rei e joia num quadrado fechado, irás ler kuni ou koku, país, pátria, nação...

  Cada kanji é, pois, para mim, um conceito e um discurso, isto é, mais do que palavra, mesmo composta, uma associação. Traduzimos, e bem, ô por rei, mas o caracter, em que céu, homem e terra estão ligados pelo traço vertical, diz-nos que o rei é pontífice, fazedor de pontes entre o homem, a terra e o céu. E, na verdade, desde tempos imemoráveis encontramos essa figura sagrada do rei, simultaneamente chefe soberano e sacerdote, intermediário entre homens e deuses, por divino direito ou mesmo pela sua origem divina. Assim é, na tradição sino-nipónica, o imperador. Aliás, no caso japonês, ele foi sempre muito mais sumo pontífice do que chefe de estado. É certo que a Restauração Meiji, nos finais do século XIX (1868) instituiu, pela constituição de 1889, o modelo ocidental de imperador, ainda que mantendo a tradição da origem divina da linhagem imperial e impondo os ritos shintoístas como liturgia político-religiosa do Império do Sol Nascente. Depois da derrota, em 1945, a nova constituição de 1949, actualmente em vigor, despojou-o de poder político, mas ele continua sendo a figura sacerdotal, histórica e central, de remota origem.

   Por isso é o guardião dos símbolos divinos do Japão ou sanshu no jingi, os três objectos que representam a legitimidade e autoridade imperiais: as joias ditas yasakani no magatama que, de acordo com a mitologia shinto, foram oferecidas pelas celestiais divindades à deusa solar Amaterasu Omikami, quando esta saiu da gruta em que se encerrara; o espelho sagrado ou yata no kagami, que a atraiu para fora da mesma gruta; e a espada sagrada, a kusanagi no tsurugi, que fora retirada da cauda da serpente yamata no orochi pelo irmão de Amaterasu, Susango no Mikoto, que então a ofereceu à deusa, em preito de vassalagem. Pensa nos kanji acima descritos e repara como o rei é o guardião da joia, e chama-se joia àquilo que o rei guarda. Preciosidade real. E quando tal é circunscrito por um quadrado, emoldurado, definido num espaço, aí lemos koku ou kuni, país, nação. O rei guarda a identidade nacional do estado, o Estado-Nação define-se pelo que o rei guarda.

   Se pensaressentires estas minhas divagações, entenderás melhor porque é que a caligrafia sino-nipónica é uma arte: a escrita não é sobretudo uma transcrição fonética, nem a definitiva tradução de um conceito. Antes é, como qualquer arte, uma janela que se abre à peregrinação do entendimento... Nem imaginas as aventuras a que podem levar-nos os possíveis diferentes posicionamentos relativos dos caracteres numa frase, ou as evoluções dos seus significados pela simples aposição de elementos de escrita: assim, por exemplo, se desenhares um telhado por cima de tama, lerás tesouro, joia guardada numa casa; mas se nada acrescentares, também tama poderá significar círculo, coisa redonda, além de pérola e joia. Já se puseres o tal telhado por cima de ô, rei, vais ler zen, usado sobretudo no sentido do grego pan, isto é, de todo, totalidade, abrangência total, panamérica ou panamericano dizendo-se então zenbei, sendo que bei quer dizer arroz ou... América! Sim, Princesa de mim, os japoneses chamam  aos EUA o Beikoku, ou seja, o país do arroz! Se agarrares nos caracteres, acima apresentados, para zen e koku, constróis zenkoku e dizes pan-nacional, ou simplesmente nacional, o que cobre ou diz respeito a toda a nação. Divertido, não achas?

   Nesta brincadeira contigo, falta-me apenas dizer-te que imperador, no Japão, se diz Tennô, em dois caracteres, o primeiro, ten sendo o de céu, o segundo o ô, ou rei, aqui composto, por cima, com haku ou shiro, ou seja, branco. Trata-se, pois, do título de rei celeste, designação do soberano-xamã nipónico que surge, por influência da imperial China da dinastia Tang, no Japão dos séculos VI-VII, que ,aliás, do Império do Meio importa então a escrita e o budismo. Mas tenho para comigo  --  nada contes, seja a quem for  --  que a figura e a importância histórica do Imperador do Sol Nascente é bem melhor dita pelo Ô, aquele que mostra como se liga o homem à terra e ao céu, tal como o Ô será o guardião dessa divina joia que é a identidade do povo japonês... Mais do que filho privilegiado do Celeste Império, ele é o ponto de encontro. Talvez por isso, ainda hoje o Imperador do Japão  -- apesar de quase nunca ter exercido poder político, e de, finalmente, ter sido envolvido no caudal nacionalista que o complexo militar-industrial foi impondo, na primeira metade do século XX, à evolução da restauração Meiji, até à traumatizante derrota na 2ª Grande Guerra  --  seja venerado pela esmagadora maioria dos japoneses...

   Tinhas razão, Princesa, quando me dizias que fui muito marcado pelo Oriente, sobretudo pelo Japão. Quiçá mais do que o tio Manuel que, nas décadas de 20, 30 e 40 do passado século, percorreu, de África à Índia, até Macau e Timor, as terras e os sonhos de um império perdido. Dou-te a mão

                  Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira