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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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Minha Princesa de mim:

 

Lembras-te da minha carta de 29 de Janeiro p.p., onde me interrogava sobre alguém a quem, digo-te hoje, poderíamos chamar Fernando Ricardo Pessoa Reis? Será que Fernando Pessoa, ele mesmo, o ortónimo, poderia dizer, com pertinência, eu sou eu e os meus heterónimos? E essoutro (ou outros) que desenhei (un dessin à dessein?) e sou, ou também sou, será livre? Poderei libertá-lo, isto é, quando sou essoutro é ele que pensassente e escreve, ou serei eu que o mantenho agarrado e preso e o uso e exploro como um projecto? Serei eu próprio diferente, consoante a circunstância, o tempo e o modo? Serão os heterónimos ficções, sombras chinesas de mim, eu em caleidoscópio, ou vários eu mesmo? O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente, / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente... // E os que lêem o que escreve / na dor lida sentem bem / não as duas que ele teve, / mas só as que ele não tem... O poeta identifica duas dores numa só: a própria que dói e essa mesma que se finge. Ambas são íntimas e secretas, não podem ser sentidas por quem está de fora: só porque versos as exprimem, ambas são já outras dores, que outros sentem e o poeta não conhece. A verdadeira dor pode mascarar-se, mas é essa, essa mesma que fica ela e o seu fingimento, mas que não se comunica, com ou sem máscara. Um heterónimo será, assim, um alter ego, como se, na solidão de mim, só comigo eu pudesse comunicar. As minhas contradições pessoais tornam-se suportáveis, na minha condição de poeta, quando as partilho com os outros de mim, pois só com eles vários, e por eles, eu me posso entender e reconhecer, objectivando-me na multiplicação de mim nos meus espelhos. Liberto-me nesses outros de mim, e todos eles são os rostos diversos da minha liberdade, que cada uma das luzes destinadas  --  ou providenciais  --  vai, aqui e ali, mais adiante ou lá atrás, iluminando. Escreveu o poeta mexicano Octavio Paz: Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem vacilar que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e os acidentes da sua existência terrestre. Nada na sua vida é surpreendente  --  nada, excepto os seus poemas. Mas Octavio Paz vai mais longe: O seu segredo, além disso, está escrito no seu nome: Pessoa, quer dizer pessoa em português e vem de persona, máscara dos actores romanos. Máscara, personagem de ficção, ninguém: Pessoa. A sua história poderia reduzir-se ao trânsito entre a irrealidade da sua vida quotidiana e a realidade das suas ficções. Estas ficções são os poetas Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e, sobretudo, o próprio Fernando Pessoa. O mexicano põe assim o dedo nessa ferida que é o fingimento do poeta, isso que o torna uma ficção de si mesmo. E cada persona de Pessoa é essencialmente, como o próprio, ele mesmo e o seu fingimento.

 

                                                                                             Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira