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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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     Minha Princesa de mim:

 

   Antes de contar mais, Tiago Voragino resume assim, sucintamente, a vida de Santo Antão: Quando Antão fez vinte anos e ouviu dizer na igreja «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres», vendeu todos os seus bens e distribuiu-os pelos pobres, e levou uma vida eremítica. Este homem fez frente a inumeráveis tentações por parte dos demónios. Encontramos aqui toda a inspiração das Tentações de Santo Antão, de Jerónimo Bosch, tríptico no acervo do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa. Há outras obras do mesmo pintor sobre o tema, esta sendo considerada a melhor. Chegou ao MNAA, proveniente do Palácio das Necessidades, diz-se que, no século XVI, teria pertencido, como já te disse, e gosto de dizer, a Damião de Gois, feitor na Flandres, defensor da vila e da universidade de Lovaina contra o assalto de Francisco I de França, humanista português, amigo e correspondente de Erasmo e outros reformadores católicos (e alguns protestantes), inspirador de Tomás Moro... Convido-te, hoje, Princesa, a entrares comigo num passeio pela pintura do tríptico. O itinerário pictórico , embora sendo claramente inspirado na Legenda Aurea, do Voragino, e nas respectivas fontes, a Vita, escrita por Atanásio de Alexandria e as Verba Seniorum das Vitae Patrum, não segue exactamente a esteira da narrativa, e ainda inclui, pela imaginação e a criatividade figurativa de Bosch, cenas e personagens que, sendo embora fiéis ao espírito daquelas hagiografias, são animações novas e próprias das representações do pintor. O ponto fulcral encontra-se no painel central, e é o túmulo que, diz o conto, Antão escolhera para sua habitação isolada da cidade e do mundo. Surge aqui como altar, com o Santo ajoelhado e apoiado nele, apontando para a capela ao fundo, em que a figura de Cristo, quase escondida, lhe acena. Creio que nos reporta ao passo da Legenda que conta como Antão tivera uma visão sinistra e se atirara ao chão diante de Deus, para lhe pedir que afastasse um crime que se preparava. Aos irmãos que o interrogavam a esse respeito, disse com lágrimas e soluços que um crime inédito ameaçava: «Vi o altar de Deus cercado por uma multidão que tudo pisava ao passar. A fé católica será derrubada por um grande turbilhão, e homens parecidos com bestas farão em pedaços os sacramentos»... Na verdade, a pintura do Bosco apresenta-nos, à volta do Santo ajoelhado, gente de extravagante luxo, demónios activos, bestas estranhas, híbridas e ameaçadoras, incêndios ao longe, engenhos animalescos e diabólicos voando nos céus, ou navegando as águas baixas... Mas Antão vira para nós um rosto sereno, quase risonho, leva-nos a descobrir o espaço aberto e limpo à sua frente, ao fundo do qual, no interior da capela, diante de um crucifixo, o próprio Jesus nos abençoa. Talvez aqui recorde o episódio, narrado pelo Voragino, que sucede ao segundo espancamento do santo eremita por uma legião de demónios, quando ele se refugiara no tal túmulo: Eles apareceram-lhe então sob diversas formas de bestas selvagens, e novamente o rasgaram cruelmente, a golpes de dentes, de cornos e de garras. Depois, um estranho esplendor surgiu subitamente, que afugentou todos os demónios e imediatamente sarou Antão. Compreendendo que estava ali Cristo, disse-lhe: «Onde estavas, bom Jesus, onde estavas tu? Porque não chegaste logo ao princípio, para me ajudares e curares as minhas feridas?» O Senhor respondeu-lhe: « Antão, eu estava cá, mas aguardei, para ver o teu combate. Agora que combateste virilmente, tornar-te-ei famoso no universo inteiro».

   A cena da primeira sova dos demónios ao Santo vem aludida no painel da esquerda, que nos mostra dois monges a carregarem-no, combalido pelas dores e feridas sofridas. Ajuda-os outro homem, o único cujo rosto vemos, e no qual já muitos pretenderam reconhecer um autorretrato do pintor. O gigante ajoelhado, com as pernas afastadas e o rabo espetado, significando a entrada de um prostíbulo, será uma alusão às primeiras vitórias de Antão sobre o espírito de fornicação, a seguir às quais, conta a Legenda, o diabo lhe apareceu em forma de miúdo negro e, prosternado à sua frente, se confessou vencido.

   Ou, quiçá ainda, se reparares na cabeça medonha que o gigante ergue ao céu e nas estranhas naves voadoras que, monstruosas, o percorrem, uma lembrança destoutro passo do Voragino: Eis que viu um ser que levantava uma cabeça comprida e terrível até às nuvens, e que com as mãos estendidas impedia seres alados de voarem até ao céu, mas era impotente para impedir outros de livremente voarem. E ele ouvia uma imensa alegria misturada de extrema dor, e compreendeu que se tratava da ascensão das almas, e do diabo que tentava impedi-la, que retinha as almas pecadoras e gemia ao ver o voo dos santos que ele não conseguia reter... Curiosamente, numa daquelas estranhas naves aéreas, é o próprio Antão que vai, envolto no seu hábito religioso, jacente e de mãos postas em oração, tão bem-aventurado que não conseguem despenhá-lo os raivosos demónios. Assim igualmente vestido o voltamos a encontrar no painel da direita, que nos representa a tentação da rainha demoníaca. Mas antes de irmos lá, deixa-me ainda só perguntar-te, Princesa de mim, se, nessa cena voadora, Bosch não terá levado a ironia ao ponto de, afinal, pintar os demónios em desespero de causa, condenados a levarem para o céu aquele homem virtuoso, que teriam roubado aos anjos celestiais... Repara neste trecho da Legenda: Um dia em que os anjos o elevavam aos céus, chegaram uns demónios, que lhe barraram a passagem, acusando-o dos pecados que cometera desde o nascimento. Os anjos disseram-lhes: « Não devereis contar os pecados que já foram apagados pela bondade de Cristo. Mas se souberdes de alguns que ele tenha cometido desde que se fez monge, revelai-os.» E, como a sua tentativa tinha falhado, Antão foi livremente levado pelo ar.  Pelos mesmíssimos demónios, como o Bosco pinta? Que giro! Vamos então ao painel da direita, onde as chamas que, ao fundo, saem da torre da porta principal, e o dragão que, no lago interior, persegue um homem, que se defende erguendo uma espada, sugerem que chegámos à casa do diabo. E outras figuras ainda no-lo lembram. Mas a principal é uma mulher nua, à entrada de uma tenda: a demoníaca rainha que, em gesto de falso pudor se insinua ao Santo. Este, segurando o livro aberto, algo edificante que estaria a ler, vira a cabeça e desvia o olhar, parecendo ainda indiferente à paródia de banquete afrodisíaco que uma mesa redonda e tudo o que nela, e à sua volta se pôs, sugere. Vencidas as tentações, a virtude de Antão afirma-se serenamente, como a dizer-nos Amen!  --  chegámos à paisagem tranquila que, lá longe, na retaguarda do quadro, fora da cidade do diabo, acolhe gente. Tudo o que aqui te escrevo, como vês e vejo, é impressão minha (nossa?), é partilha, também, esse gosto de comunicar como se gosta. Não sou cientista, nem sequer científico, nunca saberei escrever tratados, não sei como apetecerem-me discursos rigorosos, conducentes a definitivas e inabaláveis conclusões. Procuro não ser leviano, nem apressado, tampouco me quero zangar, menos ainda destruir o que seja do espectáculo do mundo. Acerca de Jerónimo Bosch, da sua arte e do seu tempo, muitos saberão dizer, afirmar, analisar, mais e melhor do que eu, que apenas me limito a abrir o meu pensarsentir. Quiçá também a sua incerteza, talvez sobretudo um aliciante gosto de busca, modo amável de nos entendermos em cada tempo. Conta Tiago Voragino, na Legenda Aurea, sobre Santo Antão: Uma vez, durante um êxtase, ele viu o mundo cheio de laços imbricados uns nos outros. Exclamou: «Quem poderá livrar-nos deles?» e ouviu: «A humildade.»

   Deixo para próxima carta outros olhares, que não são meus, mas que gostei de ver, sobretudo por reflectirem sentimentos coevos do pintor. Alguma vez pensaste, Princesa, no bom que é amavelmente ver o olhar dos outros? 

 

                      Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira