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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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     Minha Princesa de mim:
 

   Não sei se há tradução portuguesa, publicada, da novela Vierundzwanzig Stunden aus dem Leben einer Frau (Vinte e quatro horas da vida de uma mulher) que reli toda, de um sopro só, esta noite, na cama. Editada em 1927, sempre a tive como a mais fascinante ficção de Stefan Zweig, a mais rica de registos, e cheia de profundas interrogações. E a narrativa pega em nós  --  pega-se-nos  --  e leva-nos sem largar... Claro que o que acabo de te dizer é subjectivo, nem eu tenho a certeza de sentir e apreciar sempre igualmente a mesma pessoa, obra ou acontecimento. Mas é verdade que, uma vez mais, fechei este livrinho, consolado, apesar da tensão inquietante que percorre toda a história, desenrolada pelas profundas de alma desassossegada e perplexa.

   O contador imagina a narradora dela numa estância da Riviera francesa, não longe de Monte Carlo. Apresenta-no-la, sexagenária inglesa, nobre e distinta, presidindo naturalmente à "table d´hôte" da pensão em que se alojam várias pessoas, casais e famílias, provenientes de diversos países europeus, em gozo de férias ou atraídas pelo casino próximo. O ambiente é sociável, coloquial e cordato, até ao dia em que, à mesa das refeições comuns, estala uma acalorada discussão acerca da conduta de uma senhora casada, mãe de duas filhas, que com estas, mais criada e marido, ali passa uns dias. Conhecem, no próprio hotel, um jovem senhor, francês como eles, que joga ténis com as pequenas, conversa animadamente com o pater famílias, rico industrial de Lyon, e por duas ocasiões se entretém a sós com madame... Os outros hóspedes apenas se interrogam sobre qual teria sido o teor dessas anódinas trocas de palavras, entre duas pessoas que mal se conheciam, quando, subitamente, certo dia rebenta o escândalo: Henriette  --  assim se chama a mulher do volumoso e rico homem  --  fugira com o jovem atraente e simpático, tão atencioso e bem educado...Chovem então as críticas à imoralidade dos protagonistas, a vários títulos. Só o contador procura achar qualquer explicação para o facto, um desagravo, uma atenuante, uma simples análise das paixões humanas, assim caindo, debaixo do fogo dos seus convivas, no anátema de violador do Direito do Estado e dos Ditados das Igrejas e das Morais. Então intervém Mrs. C., a nobre senhora inglesa, que, com natural autoridade, vai procurando abrir outro caminho ao debate, talvez mais consideração e ponderação dos motivos, cegos ou lúcidos, de comportamentos humanos menos convencionais ou aceitáveis... Surpreso fica o contador, por tão inesperada aliança, vinda de senhora que irradia, nos modos e na fala das ideias, os princípios morais e sociais da sua classe e educação. Mais surpreendido ficará ainda, quando, mais tarde, Mrs. C. lhe pedirá que venha à sua suite, já que tem necessidade de lhe contar uma história, segredo antigo que lhe pesa no coração, pois, sendo de confissão anglicana, dele não pudera libertar-se antes, em confissão católica... A narrativa dela ficará, Princesa, para próxima carta. Por hoje, além do que abaixo escrevo, só quero traduzir para ti o passo com que a dama encerra a sua confidência ao contador: Afinal, o tempo tem muita força, e a idade vai aliviando, em seu jeito especial, todos os sentimentos. Sentimos a morte aproximar-se, a sua negra sombra barra-nos o caminho, e é então que as coisas parecem menos vivas, já não se espetam tão profundamente nos nossos sentidos, e perdem a sua perigosa veemência...  Envelhecer  não significa certamente nada mais do que já não termos medo do passado. 

   Pergunto, Princesa: esse apagar-se o receio será, no final da vida, o advento da serenidade definitiva, ou apenas esquecimento do que, sabemos, já não se repetirá? São coisas diferentes, pois mesmo que não queiramos já recordar algo que nos desagrada ou tememos, nada nos livra da possibilidade eventual dessas agressões que são as lembranças públicas de males passados... Por outro lado, a serenidade tem dois rostos: o da capacidade de reconhecer e evitar erros, por se terem cansado ou adormecido as paixões, ou seja, por nos escondermos e esvaziarmos na negra sombra que nos barra o caminho, essa que impede o regresso de juvenis fulgores; e essoutro, que é o de reconhecer que não há regresso possível e se desvanece o tempo que foi nosso, ou seja, que já só temos força para nos entregarmos ao desconhecido, como promessa...

   O admirável, para mim, nessa novela de Stefan Zweig  --  como, aliás, noutras  --   é um olhar sobre o ser e o estar de cada pessoa, que não pretende condená-la nem absolvê-la, mas apenas compreendê-la, nela, em si mesma, e na sua circunstância, esta tal que tanto pode fazer dela um santo ou um demónio... Ou, para são sermos injustos, alguém que se pode salvar ou perder-se  --  sobretudo num mundo como o daquela Europa de entre guerras, onde, por algo, e muito, bem mais absurdo, se ia esquecendo ou pretendendo substituir a inteligência e a ética já destruídas. Não sei, Princesa de mim, não sei mesmo, quem tem primazia: se o ovo, se a galinha; se as ordens morais e sociais várias, que se vão impondo, ou se as pessoas humanas que lhes vão sendo sujeitas. Mas pensossinto, muito em mim, profundamente, que não há lucidez possível sem misericórdia, nem exigência sem perdão, nem valor qualquer que chegue ao de quem se debruça para acolher. Os demónios, que o génio de Dostoievsky retratou em tantas almas inquietas e maltratadas do seu tempo russo, são parentes próximos daqueles que o castigo dos aliados vencedores despertaram, em consequência da 1ªGuerra, nos alemães do povo identificado com o Reich derrotado : todos eles nasceram em berço de ressentimentos e frustrações, construídos com a "boa consciência" cega dos que pretendem possuir a exclusividade da vida religiosa, do direito aprovado, da razão dos critérios morais ou tecnocráticos.

   O que te direi, em carta seguinte, Princesa, voltando à confissão de Mrs. C., é como nenhum de nós está livre de demónios, nem a misericórdia é assim tão fácil que resolva tudo, sem problema... Mas quiçá seja a nossa única esperança num mundo melhor, mais perceptível quando, aproximando-se o fim desta vida, já não temos tanto receio do passado e talvez tenhamos mais fé, ganhemos mais essa substância das coisas que devemos esperar.   

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira