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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Cary Grant e Grace Kelly em «O Ladrão de Casaca»

Minha Princesa de mim:
 

Entretanto, perdeste de vista a dama inglesa, que saía do casino de Monte Carlo atrás de um perdedor desesperado. Mas já vais dar com ela, ainda a medo observando a figura fugidia que se abate sobre um banco de jardim. Hesita, quer estender-lhe mão salvadora, mas não sabe como, até pode ser mal interpretada... Sabe, outrossim, que convenção alguma prevê que uma quarentona se aproxime - e de noite, em deserta esplanada! - de um jovem elegante, à saída de um casino, sem ser (ou poder ser tomada por) prostituta ou mulher prosaicamente interesseira, ou simplesmente devassa... Rebenta no céu forte aguaceiro, será um qualquer deus a trazer-lhe um pretexto? Dessa descarga de água logo fará razão justificativa, imperativo mais poderoso do que desculpa. Um prosaico guarda-chuva (uma "sombrinha"?) lhe dará argumento e, melhor ou pior, lhes servirá, a ambos, de abrigo imaginário, tal como o beiral de um quiosque solitário. Não a abandona todavia o sentido da rectidão, nem o propósito de bem fazer. Passando por cima da declarada suspeita do jovem senhor, que a toma por uma entradota caçadora de lucros ou sobras de casino, oferece-lhe, ela mesma, o dinheiro necessário para que, em vez de matar-se, vá dormir, num hotel, sono reparador, de que acordará em redentora manhã. Irá então ela busca-lo, para o conduzir ao comboio que o levará de volta à vida da sua sociedade e família, e à brilhante carreira diplomática que o espera. Ainda bêbedo de jogo e desespero, ele acaba por aceitar a oferta, e assim embarcam numa tipoia de praça, que os levará a hotel barato. Chegados, é já ele quem manda e a leva para dentro. Ocuparão o único quarto disponível dessa pensão manhosa, que diligente criada ainda está a limpar da presença anterior de outros hóspedes de passagem. Na manhã seguinte, a nobre dama acorda, despida, em desconhecida cama, com um homem, cujo nome ainda não conhece, adormecido a seu lado. A sua primeira reacção será vestir-se em silêncio e fugir dali. Só quer esquecer, nem sequer revelará, vinte e tal anos depois, ao nosso contador, êxtases e outras loucuras... Mas uma qualquer inadvertência (movimento brusco, suspiro, outro qualquer gesto inconsciente?) acorda-lhe o comparsa. Reassomo que os remete à conversa, e a leva a apresentar, ao rapaz e à própria ansiedade dela, o plano que tinha, o tal já pensado: voltará a busca-lo ao meio dia, tratará entretanto de levantar dinheiro e marcar a viagem de comboio. O que acima te relato é sucinto resumo, espremido. Mas dou-lhe agora, a ela mesma, narradora, traduzindo-a para ti, a palavra, para que da própria boca dessa nobre senhora ouças a narrativa de uma perturbadora sucessão de estados de alma: Subitamente, fui tomada por outra angústia, uma angústia furibunda e atroz: aquele estranho, de quem nem o nome conhecia, ia acordar e falar-me. E logo pensei que só me restava uma coisa a fazer: vestir-me, fugir dali antes dele acordar. Nunca mais o ver, nem falar-lhe. Safar-me a tempo, fugir, fugir, fugir, voltar à minha vida, de qualquer maneira, regressar ao meu hotel e partir, no primeiro comboio, desse lugar de deboche, desse país, nunca mais o encontrar nem ver, não ter testemunha alguma, nem qualquer acusador ou cúmplice... Mas não resiste, nem ela saberá porquê, a lançar-lhe um derradeiro olhar. Estranhei então: o jovem que ali dormitava era mesmo um estranho para mim, o meu primeiro olhar nem reconheceu o rosto da véspera. Na verdade, os traços tensos, cavados pela paixão, frementes pelos espasmos do homem excitado...substituía-os agora este outro rosto, perfeitamente infantil, perfeitamente adolescente, que irradiava simplesmente pureza e serenidade... ...Neste rosto, todos os sentimentos ganhavam forma em incomparável aparência, num estado de descontracção paradisíaca, aliviado de qualquer peso interior, num estado de repouso, de libertação. Ao ter tão surpreendente visão, tombaram de mim, como pesado e negro manto, todos os receios, todos os estremecimentos - já não tinha vergonha, não, até me sentia quase feliz. O terrível, o inconcebível, ganhava sentido a meus olhos; regozijava-me, orgulhava-me a ideia de que esse jovem, delicado e belo, que, como se fosse flor, ali jazia tranquilo e sereno, se eu não tivesse intervindo  poderia  ter sido encontrado algures, ao pé de uma falésia, esmagado, cheio de sangue, com a cara metida para dentro, sem vida, com os olhos de fora: eu tinha-o salvo, ele estava salvo. E olhava agora - não sei como dizê-lo de outro modo - com olhos de mãe , para esse homem adormecido, que eu fizera renascer para a vida - com mais sofrimento do que o que tivera no nascimento dos meus filhos. E ali, naquele quarto estragado e sujo, nessa casa de passe infecta e suspeita, fui tomada - não se  diga que são ridículas as minhas palavras - por esse sentimento que temos numa igreja : a bem aventurança do milagre e da santificação. Após ter vivido o mais aterrador momento de toda a minha vida, respirava agora a sua irmã gémea, bem mais admirável e grandiosa. E com tal comprazimento de si, ou alegria de se ver diferente, como se não fora ela, vai-se embora. Estará, ao meio dia,diante do casino fatal, para levar a bom destino o objecto da sua pouco consciente intenção... Seguem em passeio de tipoia pelos montes à beira-mar, ele vai-lhe contando a sua história, aquela que já te referi atrás e mais uns episódios, como o de ter furtado, a uma velha tia, um par de valiosos brincos, que penhorara para conseguir mais dinheiro para o jogo. E lá vai desfiando as desgraças, que se sucedem no sorvedouro do risco incalculado. Resumindo, digo-te que, no ponto alto do passeio, entram numa ermida, onde ele cairá de joelhos, arrependido e suplicante - e, a Deus e a ela, pede perdão e jura nunca mais cair em tentação... Convicta, ela oferece-lhe, quando já estão em Monte Carlo, a maquia necessária ao resgate dos brincos, eventuais reembolsos, custas da viagem de regresso a casa, família e carreira. Ele recusa a doação, insiste em assinar um recibo, promete pagar a dívida. A dama promete-lhe que irá à estação de caminho de ferro despedir-se dele, meia hora antes da partida do comboio marcado. Mas inesperada demora em reunião com parentes suas, atrasá-la-á, e perderá a despedida... E não só, nem sei se perdeu ou ganhou, como verás em próxima carta. Por hoje, deixo-te com mais umas traduções minhas de relatos íntimos da senhora inglesa, que nos chegaram pela pena de Stefan Zweig. O primeiro trecho tem a ver com a cena da ermida, pouco depois dela se interrogar se jamais teria sido tão feliz, porque era contagiosa a alegria dele... Entrámos, ele descobriu-se, mergulhou a mão na pia de água benta purificadora, persignou-se e genuflectiu. Assim que se levantou, agarrei-o. "Entre, exortei-o, vá até ao altar ou qualquer imagem a seus olhos sagrada, e pronuncie a jura que eu lhe disser". Olhou para mim com espanto, quase terror. Mas depressa se recompôs, aproximou-se de um nicho, fez o sinal da cruz e, obedientemente, de novo se ajoelhou. "Repita comigo, disse-lhe, eu mesma tremendo de excitação, repita comigo: juro..." - "Juro", repetiu, e eu continuei: ..."que nunca mais participarei em jogos de dinheiro, sejam quais forem, e que nunca mais exporei a minha vida nem a minha honra a essa paixão". Repetiu as minhas palavras, tremendo: elas encheram com clareza e energia o nada absoluto da nave. Seguiu-se um momento de silêncio, silêncio tal que se ouvia o leve fremir das folhas das árvores lá fora sopradas pelo vento. E, subitamente, ele atirou-se para diante como um penitente, e pronunciou em polaco, em êxtase que eu nunca antes vira, uma rápida e baralhada sequência de palavras, que não entendi. Devia ser uma oração extática, uma prece de graças e contrição, já que essa tempestuosa confissão o fazia debruçar-se incessantemente sobre o genuflectório. Com crescente paixão se repetiam os sons estranhos, e uma palavra dele mais vezes saía com especial e maior ardor, dita com indizível fervor. Nunca jamais ouvi nem ouvirei alguém rezar assim em qualquer igreja do mundo. As suas mãos agarravam-se com força ao genuflectório de madeira, todo o seu corpo era agitado por um furacão interior que ora o rasgava, ora de novo o derrubava. Nada mais via nem sentia: parecia estar noutro mundo, num purgatório da metamorfose ou num impulso para uma esfera sagrada. Lá se levantou, fez o sinal da cruz e a custo se voltou. Tremiam-lhe os joelhos, tinha o rosto pálido como o de um extenuado. Mas quando me viu, brilharam-lhe os olhos, e um puro sorriso, um sorriso santo, iluminou-lhe o semblante enlevado. Aproximou-se mais de mim, curvou-se profundamente, à maneira russa, tomou-me as mãos ambas para respeitosa e levemente as beijar . "Foi Deus que vos enviou até mim. Já lhe dei graças." Eu não sabia o que dizer. Mas teria desejado que, nesse momento, o órgão se pusesse a tocar e ressoasse pela capela. Na verdade, sentia que tinha conseguido um êxito absoluto: tinha salvo, para sempre, aquele homem. Saímos da ermida numa luz radiosa, triunfante, digna de um dia de Maio. Nunca o mundo me parecera tão belo. Assim acabaria em beleza esta história. Mas continua, vou ter de deixar o fim para próxima carta ainda. Será, Princesa de mim, que o que aí vem tem a ver com a exclamação do jovem polaco, quando primeiro recusou o dinheiro que a dama inglesa queria oferecer-lhe? Disse ele então: Não...não! Dinheiro...nunca! Peço-vos por tudo: dinheiro não...dinheiro não...não posso vê-lo!
 

                        Camilo Maria
      

Camilo Martins de Oliveira