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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:
 

Deixámos Mrs. C. no seu hotel em Monte Carlo, quando, finalmente, o nobre polaco lhe aceitaria o empréstimo e lhe passava o respectivo recibo: Quando ergueu os olhos, tinha pérolas de suor na testa, algo parecia assalta-lo violentamente por dentro e acabara de me entregar aquela folha de papel, quando me pareceu trespassado. De repente - ai de mim!, até recuei um passo - caiu de joelhos e beijou a orla do meu vestido. Gesto indescritível: toda eu tremi diante daquele incontrolado fervor. Estranho estremecimento me invadiu, perturbei-me e só consegui balbuciar: " Agradeço-lhe a sua gratidão. Mas por favor, parta já! Esta noite, às sete horas, despedir-nos-emos no átrio da estação". Mirou-me com olhos húmidos de emoção e, nesse instante, pensei que quisesse dizer-me algo, pareceu-me, naquele momento, que quereria aproximar-se de mim. Mas de novo se curvou profundamente, muito profundamente, e deixou o quarto. Neste ponto da sua narrativa ao contador da história, a dama inglesa vai juntar todas as suas forças, para arriscar a confissão mais difícil, a do reconhecimento posterior da razão da dor que, naquela altura, sentira e mortalmente a magoara, e que não fora apenas a separação súbita: O que outrora tanto me magoou foi a decepção... a decepção que... que aquele jovem me causara por partir assim, tão docilmente... sem a menor tentativa de me guardar consigo, de me ter a seu lado... foi ele ter obedecido, submisso e respeitador, à minha ordem de partida, em vez de... em vez de me puxar para ele... foi ele ter-me apenas venerado como santa aparecida no seu caminho... foi... foi ele não me ter considerado uma mulher...  ... Se ele me tivesse então abraçado, teria partido com ele até ao fim do mundo, teria desonrado o meu nome e o dos meus filhos... ... teria sacrificado o meu dinheiro, a minha fortuna... ... teria ido mendigar, sei que não há baixeza neste mundo que ele não fosse capaz de me obrigar a fazer...

Certo é que acabou mesmo por liquidar a conta do hotel e mandar as malas para a estação, disposta a seguir com ele no mesmo comboio. Só que a reunião de familiares e amigas a atrasou irremediavelmente e, quando chegou à estação, apenas viu a composição afastar-se, nem conseguiu vislumbrar o rosto amado. Ali deixou entregue a bagagem, e resolveu matar saudades, percorrendo os lugares onde na véspera o conhecera. Assim se esgotarão as vinte e quatro horas dessa vida de uma mulher, mas não termina a história, ficará aberta uma ferida. O primeiro local para onde se encaminha é o casino, sabendo que, mesmo de olhos fechados, logo encontrará a mesa de jogo à qual, pela primeira vez, o vira. Ao chegar aí, novamente o vê, febrilmente na batota.

Melhor mesmo, Princesa de mim, é não deixarmos os demónios tomarem conta de nós. Porque é muito difícil, está bastante acima das nossas simples forças, expulsá-los. E mesmo que alguém os expulse por nós, dói sempre muito. Contas feitas, pesassem embora a surpresa violenta, a desilusão sempre lenta a esvair-se, a mágoa que passa a ressentimento, perdão talvez, difícil esquecimento, a dama inglesa quiçá tenha tido sorte. Por isso mesmo, ela nada terá sentido quando, dez anos mais tarde, num qualquer baile ou recepção diplomática, um adido de embaixada, um polaco, lhe disse que amigo seu se tinha suicidado, a tiro de pistola, à saída de um casino...

Tive hoje a notícia - dada por filha minha que, com marido e três filhos, vive  agora, novamente, em Bruxelas - de que uma colega sua, dos tempos de liceu, na década de setenta, quando nessa cidade vivíamos todos, perdeu um filho no atentado terrorista em Maelbeek. E volto a pensarsentir aquele beijo de Judas que o Caravaggio tão bem pintou: nesta Sexta Feira Santa, acredito que só no coração de Deus, ou em comunhão com ele, encontraremos misericórdia.
 

               Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira