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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:
 

Nunca fui, tanto quanto possa recordar, protestante, nem contestatário. Contestei muito, protestei, quiçá mais do que me soía, nunca de tal fiz ofício, nem vício tive. Seria, para mim - admito e compreendo que, para outros, não o seja - uma falta de gosto. E detesto o desprazer. Não o que outrem me possa provocar, mas apenas o que possa ser, tão só, capricho meu, essa teimosia superficial, com pretensões a coisa íntima e firme, inabalável convicção... como se aceitável fosse, e pudesse durar, qualquer bizarra birra do meu humor! Claro que tenho embirrações e acessos de fúria, mas passam depressa. Ao fim e ao cabo, sempre pensei assim: acaba, afinal, por ser mais cómodo, confortável, talvez, ou certamente, inteligente, sermos nós a perceber os outros. Mas é preciso lá chegar...

Por outro lado - e perdoa-me, Princesa, o deslize - também me dá riso. Vê tu bem como as coisas são: quanto menos nos queixarmos do que nos parecem ser os disparates dos outros - e em nossos segredos menos fecharmos as nossas certezas - tanto mais nos banharemos no regozijo deleitoso da aparição da verdade... Ou será engano? Até pode ser, ninguém nos engana tão maravilhosamente como nós mesmos. Já reparaste em que quanto mais certezas tivermos para nós e para querer impor aos outros, mais longe ficamos do convívio ou, como alguém sublinhou, da alegria do amor?

Até parece nó górdio, mas não é. Antes fosse, que o dito se desfaz com uma catanada, ou simples faca afiada. O problema da alma humana é ser um cadeado sem instruções sobre a volta evidente que se deva dar à chave. Tanto dá para um lado como para o outro. Alvitram, por aí, que o preço da consciência é a liberdade. Ou vice-versa. Ambas as versões estarão certas, nunca saberemos mesmo, à point [como também se diz do fim da cozedura ou da afinação de um queijo], por onde haveremos de começar. Aí está o que dá graça à vida, e eis o que abre a vida à graça. E a graça, pensossinto eu, é o presente de Deus. 

Assim pomos o dedo na chaga de todos os chamados "fundamentalistas", os tais que, de fundamentos só têm os que a sua miopia alcança... São também conhecidos por "radicais", mas são bem superficiais as raízes que os sustentam. Nada há mais feio do que julgarmo-nos proprietários da verdade, como se esta tivesse dono humano possível. Nem nada mais estúpido do que não perceber que qualquer realidade é sempre duas: aquela que mal conhecemos e a ideia que fazemos dela. A humildade é, supinamente, uma virtude da inteligência. Também, portanto, condição imprescindível do diálogo. Este só é possível quando aceitamos que poderá ser perspicaz outro olhar, de um ponto de vista diferente do nosso, e que talvez até aperfeiçoe a nossa perceção. A grande lição do jardim zen, seco, de Ryoanji, em Kyoto, é nunca conseguirmos contar as quinze rochas, ou ilhas perdidas num mar de gravilha penteada, apenas com um só olhar de uma qualquer perspetiva possível. Temos de andar à volta, e de olhar de vários lados, para compreender que, de cada vez, há sempre, pelo menos, uma que nos escapa ao conto. Não há ciência nem obra humana possível sem a condição prévia do reconhecimento da nossa imperfeição. Nem vida de pessoa ou instituição se pode melhorar sem se entender que o bem e a beleza, qualquer verdade, nunca estão possuídos nem terminados. A sina de qualquer vida, o fado do espírito humano, é a demanda infinita, uma ascese, uma ascensão. Do universo sabemos, ou julgamos saber, que se expande. O próprio Deus, sendo a única verdade ontológica, é infinito. Por isso me parece triste e feia toda a pretensa apropriação de Deus, como se Ele coubesse em qualquer conceito nosso. Gente que se reclama de muita religião esquece-se, por vezes, de que norma nenhuma define Deus nem a nossa relação com Ele. A mística é a contemplação do Infinito...Rezar talvez não seja pedir o que desejamos, pois só se deseja o que se viu, ou vê, ou julga ver. Será, tão somente, pedir que se nos abra a alma. Para as coisas que devemos esperar...
 

   Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira