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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 Prudência.jpg
Tiziano - Alegoria do Tempo governado pela Prudência
 

    Minha Princesa de mim:
 

   Refletindo sobre as muitas hesitações, variações e debates, à volta da necessidade de se reforçarem medidas preventivas, dissuasoras, e até repressivas, de atos terroristas, suas ameaças, seus suspeitos ou presumíveis perpetradores, Michel Eltchaninoff publica, no nº 98, de abril de 2016, da Philosophie magazine, um artigo intitulado Le Sabre et l´Esprit. Começa assim: Estamos aborrecidos com a força. Por um lado, precisamos dela, na nossa vida privada, para enfrentar a doença, o luto, para não cairmos no desespero ou na depressão. Nos momentos difíceis dizemos: "Sê forte!" Também preferimos viver num país poderoso e respeitado, do que num estado débil e periclitante. Mas, por outro lado, sentimos então vergonha de nós.

   Ao lê-lo, lembro-me de umas voltas de Luís de Camões ao mote De que me serve fugir / de morte, dor e perigo, se me eu levo comigo? Não resisto a transcrevê-las para ti:

 

          Tenho-me persuadido,

          por razão conveniente,

          que não posso ser contente,

          pois que pude ser nascido.

          Anda sempre tão unido

          o meu tormento comigo,

          que eu mesmo sou meu perigo.

          E, se de mi me livrasse,

          nenhum gosto me seria.

          Que, não sendo eu, não teria

          mal que esse bem me tirasse.

          Força é logo que assim passe:

          ou com desgosto comigo,

          ou sem gosto e sem perigo.
 

   E, deparando com perplexidade, com esse tal "mas que podemos fazer?", logo me ocorre o recurso a São Tomás de Aquino, pois a palavra que me veio à mente foi Prudência. Como muito bem assinala o teólogo dominicano Marie-Dominique Chenu, que aqui passo a traduzir, para o Doutor Angélico, a inteligência - inclusive a inteligência da fé -  é a regra, tanto da ação como do pensamento. Assim sendo, a inteligência não devia então ser, ela própria, para nos guiar a vida, a sede de uma virtude? de uma virtude de certo modo supervisora de todas as outras, incluindo as emoções exteriores do amor, e introduzindo na sucessão das nossas ações singulares e efémeras uma luz racional, nessa altura reguladora? Assim chegamos à pedra angular da moral de São Tomás, essa que ele tão longamente construiu, único entre os seus pares, e cuja originalidade hoje está tão mal conservada, quer pelos moralistas, quer pelos espiritualistas. Dessa virtude intelectual, o próprio nome, na linguagem moderna, lhe aponta a desvalorização doutrinal: para os moralistas, como no nosso dia a dia, a prudência é tratada como uma virtude menor, como uma habilidadezinha feita de precaução e astúcia, conferindo uma segurança empírica e um precário saber viver e saber fazer... E Chenu sublinha que, diferentemente, para Aristóteles e, na esteira deste, em São Tomás, prudência significa precisamente essa disposição estável, graças à qual a razão discerne, escolhe, impera, na mobilidade e variedade das nossas ações, a verdade da sua ordem para o fim último. Verdade prática, que nem os princípios gerais, nem as ciências, nem a própria sabedoria, podem determinar, pois está imersa na irredutível singularidade das ações e das situações. Verdade experimental, portanto, mas assegurada pela perfeita posse de um estar em andamento, graças à justa proporção dos meios ao fim, que nem boas intenções nem ardores místicos fornecem. A prudência não vem juntar-se, exteriormente, à razão e à vontade, como dever que se imponha à liberdade, para a constranger: antes é a própria razão, tornada perfeita, no seu juízo e nas suas escolhas. Interioriza, personaliza a lei, a tal ponto que só aí, em minha consciência, posso decididamente falar de obrigação. O virtuoso é a regra viva da sua ação; a sua razão apenas à sua certeza prática deve a última determinação da sua obra.

   É claro que só os ditadores, seja qual for a sua ideologia ou projeto político - e também os fundamentalistas religiosos que, por esse mundo e essa história, sempre vão surgindo, seja qual for a sua fé ou falta dela - não podem tolerar tal liberdade de consciência, porque ela se furta à aquiescência cega, simplesmente alienada num qualquer ensinamento, certo ou errado, de outrem, do presumido mestre ou comandante. Ora a prudência é a virtude, intelectual, da observação, mais do que da observância; da escuta e do diálogo, mais do que da indiferença ou contestação, tantas vezes emotiva e irracional, do outro; a prudência estuda, não se precipita a condenar, procura compreender, não quer impor. Na segunda parte, II, quaestio 47, 1, da Summa Theologiae, São Tomás de Aquino retoma, interpretando-a à luz de Aristóteles, esta expressão de Santo Agostinho, tão bonita - e que já tantas vezes te repeti, Princesa de mim: Prudência é um amor que escolhe com sagacidade... 

   Hoje, como sempre deveríamos ter feito, rezemos para que seja sagaz o nosso amor dos outros (Deus omnisciente está onde há amor), e amorosa a nossa sagacidade (até para não ser estúpida).   


   Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira