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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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     Minha Princesa de mim:

 

   Escrevia, há pouco ainda, a uma amiga, que já só terei, hoje em dia, um desgosto fundamental. Não significo envelhecer, velho já eu estou. Quero somente contar-te uma pena, tão cá dentro sentida, que talvez a idade me la tenha trazido para nela se me sofrerem todas as outras... É a memória de tudo, quiçá só, talvez, de muito. A memória que guardo e vejo apagar-se à minha volta... Sabes bem como sempre penseissenti e sentipensei, pois são indissociáveis o coração e a cabeça. Quando os velhos, antigamente, e os nossos avós ainda, nos contavam histórias de família e pátria -- da nossa vida antes de nós -- não nos entregavam um registo, comunicávam-nos a tradição de sermos vivos. Éramos, então, mais do que só nós com a nossa solidão, tudo aquilo que, de nós antes de nós, aprendíamos: fosse mais ou menos narrativa ou lenda era, todavia, um depósito íntimo, que nos tornava humanos de mãos dadas com o passado e o futuro... Assim me sentia eu também: elo de uma relação entre o antiquíssimo de mim e o apocalipse, que não quer dizer fim do mundo -- como por aí se julga -- mas descobrimento, revelação. E, voltando à pena que tenho, dói-me o esquecimento, não tanto por obliteração, mas mais por excesso de registos. Tudo, tudo, hoje finge registar-se, menos a memória autêntica, a tal que guardamos no fundo do coração, e não tem fotografia possível... Há mais verdade num silêncio contemplativo do que em todos esses registos superficiais, nesses rostos afinal desconhecidos das revistas, nas conversas só sonoras dos telemóveis, nas catadupas de notícias da televisão. Penso, Princesa de mim, que quando Deus criou o homem e a mulher, à sua imagem e semelhança, os fez capazes de silêncio e segredo, para os destinar à comunicação. Por isso mesmo te digo, Princesa, que este excesso de transmissão por vias eletrónicas e outras, acaba por ser um levantar de muros, tão altos e estranhos, que ainda não sabemos como transpô-los para irmos dar um abraço sentido a quem nos espera. Comunicar é partilhar, é comungar, será insustentável na leveza do estar, na leviandade do palrar, autêntico apenas na densidade do ser. Não nos iludamos, nem nos deixemos entontecer com o barulho a mais que anda por aí. Calemos fundo, para sermos generosos ao encontro uns dos outros. 

 

   Este domingo, começava a clarear o dia quando me levantei, pelas seis horas. Anunciava-se limpo o céu, e uma voz interior disse-me: chega hoje a primavera! Uma hora depois, ao abrir a janela toda, para deixar entrar a manhã, saudou-me um bando de andorinhas que alegrava o ar. O silêncio dentro de mim voava também lá fora, tudo era uma presença só. Uma comunhão. Assim, tão simples e livre como um resguardo aberto, se revela a felicidade. Na transparência do ar, na aurora ainda fresca do silêncio da noite, encontro e sinto-me encontrado, murmuro a Passagem de Sophia:

 

               O êxtase do ar e a palavra do vento

               Povoaram de ti meu pensamento.

 

   E logo me ocorrem esses outros versos da poeta, para me dizer o que sinto:

 

               Sobe do destino uma sede de Ti.

               Não somos só isto que se torce

               Com as mãos cortadas aqui.

 

   E sei que, horas mais logo, quando sobre todos nós descer a noite, antiquíssima e idêntica, igual por dentro ao silêncio, não temerei a sombra, mas me alegrarei nessa dança de roda que nos move e junta, e se chama vida. Algo que está cá dentro e lá fora, o absoluto milagre, sem esquecimento possível.

  

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira