Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Torre de Montaigne

 

     Minha Princesa de mim:
 

   Que apesar da sua infalível lucidez, apesar da piedade que o comovia até ao fundo da alma, ele tenha tido que assistir a essa assustadora recaída do humanismo na bestialidade, a um desses ataques esporádicos de loucura que por vezes se apropriam da humanidade, como este que hoje vivemos, eis o que foi a verdadeira tragédia da vida de Montaigne... Ao escrever estas palavras, pouco antes do seu suicídio, em Petrópolis, Brasil, em 1942, Stefan Zweig recordava certamente o Montaigne desgostado com as guerras de religião, com a matança de huguenotes, em dia de São Bartolomeu, a 24 de Agosto de 1572, em Paris, ou ainda as barbaridades cometidas por espanhóis sobre os ameríndios, que tantas interrogações, perplexidades e angústias despertaram na alma do grande pensador e ensaísta da Renascença francesa. Ao fazê-lo, o judeu e grande escritor austríaco, fugido e desesperado pelo nazismo, sofria, ele próprio, íntima e doridamente, a tragedia do seu tempo. Quiçá sobretudo por se sentir dividido em sua pessoa, rasgado por dentro: judeu por família e tradição, mais do que por fé religiosa, austríaco e germânico por cultura e nacionalidade (embora recorra a naturalizar-se britânico em 1940), Stefan Zweig era um homem do seu tempo, vulto eminente do pensamento modernista e da literatura europeia da primeira metade do século XX. O seu O Mundo de Ontem é, mais do que um livro de memórias, a confissão da saudade espiritual de uma cultura que a loucura dos homens, no turbilhão do advento de fascismos e comunismos, ia desfazendo... Sem tentar, sequer, perceber o que ela era ou pretendia dizer. Sabes, Princesa de mim, que eu ainda não sei, jamais saberei, o sentido de um Mário de Sá Carneiro (que teria o , do António Nobre, a ver com ele?), nem as direções diversas do homem dividido em Fernando Pessoa... Politicamente, por exemplo, o que era ele? E o nosso Amadeo Sousa Cardoso - para cuja obra hoje pasma o mundo da inteligência na moda - afinal, que Summa da arte e do sentimento ocidental fez, deveras? Tudo, no fim e substantivamente, se passa num recôndito da alma de cada um de nós. E tal é bastante para justificar a liberdade de pensamento: ao fim e ao cabo, é sempre, irrevogavelmente, a única que de, nascença, temos e, moribundos, nos resta.  

 

   Pensando em tudo isso, Princesa, pergunto-me, na circunstância presente das nossas vidas, se as teorias dos choques ou afrontamentos de civilizações - para além do seu inerente fatalismo, razoavelmente inspirado na verificação de conflitos históricos vários, mas cujos fatores foram, sempre, mais complexos do que diz a simplista exposição de uma única ou principal causa... - pergunto, sim, se essas teorias, sofrendo do esquematismo com que a preguiça dos cérebros tão frequentemente pretende afirmar uma racionalidade exclusiva de outras  considerações - quiçá pertinentes - não nos levarão sobretudo a esquecer o drama humano que é a falta de confiança em si e excesso de desconfiança dos outros. Uma crise de identidade que espicaça o receio e a agressividade. Nesse sentido, até poderemos sugerir que a tal crise do humanismo é, precisamente, uma esclerose da racionalidade. O que também explica o surto perene de fanatismos. Pessoalmente, aliás, penso que qualquer fanatismo não é, no seu motivo, um excesso de certeza; antes me parece mais ser a exiguidade intelectual dela, donde o medo de a perder.

 

   A maior fonte de discórdia no seio da umma é o califado. Nunca nenhum outro princípio religioso fez correr tanto sangue no islão. Assim disse Abu al-Hasan al-Ashaari, teólogo muçulmano do século X. Mas, se a noção e a instituição do califado semeou discórdias no seio da comunidade dos crentes (umma), também funcionou como toque a reunir os fiéis num só povo, com a mesma fé e o mesmo rei, ou chefe. A tentações deste cariz - ou mais ou menos - nem o papado sempre escapou, tal como, nas democracias hodiernas, sistematicamente assistimos a campanhas por maiorias absolutas e, nos regimes republicanos, pela sintonia ideológica e partidária de presidentes e governos. De um ou de outro modo, a tentação totalitária vai andando por aí, representando por vezes o desejo de um estado sem Deus - como nos regimes soviéticos ou análogos, ou simplesmente ditatoriais - ou de uma só religião, como aquando das expulsões de mouros e judeus, ou da sua conversão forçada (como a de muitos indígenas de outros continentes durante a expansão da cristandade europeia), ou nas guerras fratricidas, na Europa cristã, depois da Reforma. O sonho violento de instauração de um Estado Islâmico Universal não é exceção a tão viciosa regra, muito embora ainda circunscrito a focos de islamistas, outros desperados (como nos filmes ditos western) e alguns mercenários e traficantes, com motivos que vão, de ressentimentos históricos contra a ocupação do Médio Oriente por potências ocidentais, ao agravamento de guerras intestinas e à inadaptação social e cultural de muitos a regimes de vida que lhes são estranhos. Em várias outras cartas te falei já um pouco de tudo isto, hoje quero tão só refletir, adiante, acerca da crise atual da laicidade, conceito e prática a pedir mais cuidada atenção, sereno debate e, em minha opinião, maior concórdia. Tenho para mim, que o Estado laico bem pensado e garantido será o enquadramento jurídico indispensável a uma proteção adequada das religiões e quaisquer outras ideologias ou crenças, e à saudável convivência de todas elas. Recordo ter visto, há dias, um instante de uma conversa do papa Francisco que, referindo-se à laicidade, a recomendava para a harmonia da sociedade política e internacional, insistindo todavia em que ela deve ser saudável (em vez de saine, a jornalista francesa, quiçá por excesso de zelo apostólico, escreveu sainte...). Entende o papa, com essa reserva, chamar a atenção para uma dada interpretação mais radical daquele conceito, mais decorrente de certa antipatia pelas religiões tradicionais, que também marcou o iluminismo, do que do desejo de definir um espaço de convivência para todos. E, na verdade, sente-se hoje, entre gente laica mais dogmática, um qualquer deslize para a tentativa de impor a laicidade como religião única, sendo as demais consideradas subculturas. Já te tenho dito, Princesa, que o Estado laico não tem que impor o agnosticismo como princípio de exclusão de cultos ou quaisquer sinais pessoais de confissão religiosa. Por exemplo: uma coisa é a proibição de qualquer símbolo religioso em espaços públicos - que são, por definição, destinados à utilização comum - outra sendo a interdição de um hábito de freira ou de um véu islâmico em qualquer sala de aulas ou salão de voto onde, evidentemente, não tem lugar a afixação de cruzes ou crescentes na parede. A tolerância da manifestação da liberdade de cada filho de Deus (e todos o somos) é, no desejável Estado laico, a justificação do próprio princípio da sua existência, e é promotora da sua aceitação por todos. Além de fonte de alegria comunitária: nada pode ser mais belo, verdadeiro e bom, do que o nosso reconhecimento comum na diferença.

 

   Para que não me digas que sou um lírico (oxalá fosse, e dos bons!), repito que não gosto da fundamentação emocional que se vai dando a recusas, da parte de Estados europeus, de licença de construção de mesquitas subsidiadas por Estados muçulmanos que proíbem a edificação de igrejas cristãs nos seus territórios: Se não deres, também não dou, prontos! Dito assim como se todos fôssemos meninos birrentos... Afinal, eu não respeito o meu princípio de liberdade e tolerância apenas quando os outros o aplicam, mas, simplesmente, porque é meu princípio! O que, aliás, em qualquer Estado democrático e laico, não me impede de determinar que a construção de templos e o financiamento de cultos sejam da responsabilidade exclusiva dos respetivos fiéis. Nunca, jamais, do Estado, nacional ou estrangeiro. Eis um princípio simples e justo. E que poderia eliminar tantos gestos eleitoralistas e caros... Admito que, pelos tempos que correm, possa ser embaraçoso para uma Igreja que gera ou recolhe, nos países ricos do chamado "ocidente cristão" -- e já por atavismo -- receitas para as suas missões... Mas, pessoalmente, penso que qualquer proselitismo, no mundo globalizante de hoje, só será geralmente considerado legítimo pelas gentes várias, quando, caídas as barreiras, sobretudo dos muitos preconceitos que todos vamos mantendo, nos lembrarmos de que, para ser tão somente boa pessoa, não é preciso sermos daqui ou dali, nem terem os outros a nossa fé.

 

   Na realidade, defrontamos um dilema que não é só nosso (falo como católico português), mas que progressivamente vai desafiando todos. Queres, Princesa de mim, um exemplo? Recentemente, o presidente do parlamento turco, Ismaïl Kahraman, interrogava, intencionalmente: Enquanto país muçulmano, porque deveremos nós deixar a religião de fora? Somos um país muçulmano... A laicidade não deve ser inscrita na nossa Constituição! Esta é, como sabes, laica, desde Mustafá Kemal, ou Ataturk, o pai dos turcos, o fundador da República. E o atual presidente, Recep Tayyip Erdogan, fundador do AKP, partido islâmico ao qual Kahraman também pertence -- e cuja mulher, aliás, cobre a cabeça com o tal véu, coisa que Ataturk proibiria -- não hesitou em reagir: Quanto a mim, o meu pensamento é desde sempre claro: O Estado deve manter-se a igual distância de todas as religiões. É isto a laicidade. Concordo. E faço votos por que assim seja. No mundo contemporâneo, o nosso trabalho deve ser, acima de tudo, a procura de terrenos comuns.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira