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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

«Stefan Zweig, ou esperer l’Europe à en mourir

 

     Minha Princesa de mim:
 

   Descobri, num livro da coleção Nouveaux Regards (Le Magazine Littéraire) dedicado a Stefan Zweig, trechos de uma conferência que o escritor austríaco proferira em Florença, em 1932, sobre O Pensamento Europeu no seu Desenvolvimento Histórico. Ao que parece, esses textos constam do livrinho que, sob a orientação do seu antigo reitor, Gabriel Fagnière, o Colégio da Europa, em Bruges, editara em 1993, com o título Stefan Zweig, ou espérer l´Europe à en mourir. Achei graça ao facto de, já lá vão quase oitenta e cinco anos, se ter refletido e debatido um tema que insistentemente me persegue, como sabes... Aliás, ele está subjacente a passos da última carta que te enviei. Leio e traduzo Stefan Zweig: A História, esse oceano de acontecimentos aparentemente sem maré, obedece na realidade a uma lei rítmica imutável, a uma espécie de jogo de ondas que divide as suas épocas em fluxos e refluxos, em avanços e recuos; como poderia ser de outro modo se ela é feita pelos homens e as leis psíquicas apenas refletem as do indivíduo? Em cada um de nós existe esta dualidade; o processo a que chamamos vida mais não é, afinal, do que uma tensão de polo a polo. Seja qual for o nome que dermos a essas duas forças opostas, que uma seja a centrífuga e a outra a centrípeta, ou, na linguagem da nova psicologia, que elas sejam a introvertida e a extrovertida, ou, na da moral, a egoísta e a altruísta, sempre e em toda a parte é sob tal forma que se exprime a dupla tendência que está em cada um de nós: por um lado, isolar-me do mundo enquanto eu; pelo outro, ligar o meu eu ao mundo. Nós queremos conservar a nossa individualidade, e mesmo reforça-la, mas somos simultaneamente impelidos a dissolve-la na comunidade. Eis como as nações, esses indivíduos coletivos, estão também sujeitas a essa tendência alternativa, consistindo em ora afirmar a sua personalidade intelectual e moral, ora em procurar comunidades supranacionais mais altas, que as fecundarão, mas às quais deverão abandonar uma parte do seu fundo e da sua individualidade. Ao longo da história, estas duas tendências de atração e repulsão, de paz e de guerra, a concêntrica e a expansiva, opõem-se incessantemente. Ora se formam grandes edifícios estatais e religiosos, ora se dissolvem; períodos de hostilidade sucedem a períodos de reconciliação e amizade; mas, no fundo, a humanidade, considerada de um ponto de vista cada vez mais elevado, tende constantemente para uniões cada vez mais altas e fecundas. Em todo este texto vibra uma corda emotiva, a de um homem que, um dia, já não poderá ser austríaco na sua terra, por ser judeu, e, depois, no exílio, quando se naturaliza britânico, também perceberá que facilmente o classificam com desconfiança, por ser austríaco, pertencer à esfera inimiga germânica. Em 1932, parece que adivinha. E agarra-se então a uma certa ideia de pertença, quase poderá dizer, parafraseando Pessoa, que "a minha pátria é a cultura europeia": Quero tentar, deitando um olhar sobre o desenvolvimento intelectual da Europa, dar-vos uma curta história desse eterno desejo de unidade de sentimento, de vontade, de pensamentos e de vida, que em dois mil anos criou o magnífico edifício comum que briosamente chamamos cultura europeia. E vai então buscar à Bíblia o conto que, a seus olhos, melhor diz como, afinal, esse desejo de unidade é um desafio gigantesco: a torre de Babel. Para Zweig, o projeto da sua edificação deve-se ao facto de que homens - ou a humanidade - viam um céu acima deles e, como eram homens, já sentiam o desejo do sobre humano e do inacessível, pelo que pensaram: "Construamos uma cidade e uma torre cujo cimo atinja o céu, a fim de ganharmos nome para a eternidade"...   ... Mas Deus viu do alto dos céus -  assim conta a Bíblia - esse esforço ambicioso, e deu-se conta do crescimento grandioso da obra. Reconheceu o poder do espírito que ele próprio tinha posto nos homens e a força imensa que existe, irresistível, nessa humanidade enquanto ela se mantiver unida. E para que a humanidade não se enchesse de orgulho e o atingisse, a Ele, o Criador na sua solitária altura, decidiu impedir a obra e disse: "Perturbemo-los, para que nenhum compreenda a linguagem do outro..."

 

   O recurso a esta parábola é estimulante de reflexões que farei adiante. Mas, antes disso, Princesa, deixa-me dizer-te que a visão do "desenvolvimento intelectual da Europa", que Zweig nos propõe, traz a marca do seu tempo, da sua classe social, do seu elitismo. Quando, por exemplo, ele escreve, sobre o humanismo renascentista europeu: Na era do humanismo, é completamente indiferente estudar-se em Bolonha, Praga, Oxford ou Paris. Os livros são em latim, os professores falam latim. O mesmo tipo de discurso, de pensamento e de conversa é comum a todos os intelectuais da Europa. Erasmo de Roterdão, Giordano Bruno, Espinoza, Bacon, Leibniz, Descartes, todos se sentem cidadãos da mesma república: a dos sábios. A Europa sente de novo que trabalha para uma obra comum, para um novo futuro da civilização ocidental. É também interessante observar como o gosto clássico, e o sentimento de estar acima do vulgo, o leva, por exemplo, a afirmar, de modo encomiástico e parcial: a verdadeira unidade política e intelectual da Europa, a história universal, só começa com Roma, com o Império romano. Aí, pela primeira vez, surge, de uma cidade, de uma língua, de uma lei, a vontade resoluta de dominar e administrar todos os povos, todas as nações do mundo de então, conforme a um só esquema, genialmente elaborado -  domínio conseguido não só, como até então, pela força das armas, mas baseado num princípio espiritual, domínio não como fim em si, mas como organização inteligente do mundo. Eis como, em toda a parte, se insinua uma qualquer tentação totalitária. Stefan Zweig, judeu e pacifista, fugido ao nazismo, consentia que o seu elitismo sonhasse com uma "organização inteligente do mundo", pelo modelo europeu, ça va sans dire. E, assim, defendia uns Estados Unidos da Europa, na convicção de que uma "União Europeia" seria a pátria da cultura por excelência, a nação superior. Ter-lhe-á escapado o risco da construção de uma superburocracia, controlada por interesses poderosos, ignorante de outras variedades de pessoas e soluções, legislando, regulamentando e governando quase tudo de acordo com regras concebidas por uns poucos... Mas devo ressalvar, com aplauso, que foi ele que disse: Mesmo a mais pura verdade, quando é imposta pela violência, se torna num pecado contra o espírito. O pior é que, pegando no exemplo do Império romano, o domínio do tal "princípio espiritual" se impõe na sequência de uma autoridade assegurada pela força das armas e da ocupação. Sobram casos históricos para o ilustrar e, se hoje tanto se tem falado de choque de civilizações, é porque acreditamos pouco no poder de convicção universal de uma ideia, mas, com pessimismo, vemos que mais facilmente se vai tomando partido por esta ou aquela, pretendendo, aliás, que, sendo superior, a nossa se imponha às outras.

 

   Assim estamos, Princesa, de volta à torre de Babel. Prefiro pensar comigo que o que Deus Nosso Senhor quis castigar não foi a natural aspiração dos homens a chegar até Ele -  Deus não tem medo - mas algo que eu chamaria "o orgulho do princípio de Peter" ou - para não entrarmos por análises da incompetência - a soberba como desafio da sabedoria, e, mais simplesmente, o orgulho de mandar. Na tradição cristã, a narrativa da torre de Babel é, depois da queda e expulsão de Adão e Eva, e da história de Abel e Caim, ou da proliferação do pecado que o dilúvio fustiga universalmente, uma ilustração dos conceitos de transgressão e castigo. Todavia, ela é posterior às outras, que são antediluvianas. Como se quisesse relembrar a permanência teimosa do pecado, mesmo na humanidade nova, que as águas do dilúvio purificaram. Para melhor entender Babel (se assim me posso exprimir), parece-me importante considerar o capítulo 9º do Génese, em que Deus reúne Noé e os seus filhos, para lhes repetir o conselho dado a Adão: Sede fecundos, multiplicai-vos, pululai sobre a terra e dominai-a. E com eles firmará uma aliança, cujo sinal será o arco do próprio Deus, posto nas nuvens. O Criador está acima das nuvens do céu, transcendente, mas presente e atento, amigo da humanidade nova. E esta, em paz com Deus, fala toda a mesma língua. No capítulo 10º, conta-se que Kush, filho de Cham, filho de Noé, gerou Nemrod, que foi o primeiro potentado sobre a terra, sendo a cidade de Babel um dos pilares do seu império. Nemrod foi lendário caçador e guerreiro, conquistador de Babilónia, cidade em cuja arquitetura - recorda, Princesa, os zigurates, torres que subiam alto, ladeadas de rampas de acesso ao templo ou observatório astronómico lá no topo - se inspiraram as representações cristãs de Babel, nome que significa Porta dos Deuses, mas que se pode aproximar do verbo hebraico que diz misturar, perturbar. Creio que Santo Agostinho, na Cidade de Deus, a opõe, cidade da perturbação, a Jerusalém, cidade da paz. [Lembro-me bem do quadro de Pieter Brueghel, o Velho, que hoje está no Kunsthistorisches, em Viena]

 

   O que me seduz, em tanta divagação, é precisamente o mistério permanente dessa alternativa entre a unidade e a diversidade, entre a ditadura e a anarquia, entre a imposição da subserviência e a liberdade da convivência. O problema da concórdia. Será que a solução se encontra no respeito da diferença? Facto é andarmos muito desentendidos, chego a perguntar-me se por Deus assim nos ter feito à nascença, ou por tal e qual nos ter querido pôr mais tarde, como conta a Bíblia. E, pelos vistos, só com alguém a mandar em todos entramos na ordem (na ordem de quem manda e pode, claro), e mesmo para tanto será preciso alguém poder mandar, geralmente depois de andar à pancada aos opositores. Praticamente, enquanto não nos passar o sentimento de superioridade e, sobretudo, de detentores exclusivos ou privilegiados da "verdade", não estaremos aptos a abrir espaços de convivência e concórdia. Curiosamente, o cristianismo alarga à humanidade inteira a boa nova da salvação de todos, pela graça de Deus em Jesus Cristo, chamando-nos ao cumprimento do mandamento novo: amai-vos uns aos outros. E a tradição cristã encontrará no Pentecostes a resposta redentora da maldição de Babel: Todos ficaram então cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os fazia exprimirem-se...   ... a multidão reuniu-se e ficou admirada: cada um os ouvia falar no seu próprio idioma...   ... ouvimo-los anunciar, na nossa língua, as maravilhas de Deus! Sabemos, Princesa, que nem sempre a Igreja considerou adequadamente (e esta é fórmula eufemística) a diversidade religiosa e cultural como propiciadora de outros modos de escutar a vocação de Quem, esse mistério de sermos, antes e depois de nós. O Papa Francisco, pela naturalidade com que pisa o chão de todos ao encontro deles, traz luz e alegria à esperança de que será possível, num mundo ainda tão cheio de divisões e ameaças, irmos construindo a casa comum, onde a diferença de línguas, não lance a confusão, mas enriqueça a concórdia.

 

   Um estudo recente, feito em França pela Comissão Nacional Consultiva dos Direitos do Homem, mostra que, hoje em dia, 90% dos franceses pensa que todas as raças humanas valem o mesmo, ou que não existem enquanto diferenças. 71% defendem um combate contra o racismo, 68% contra o antissemitismo, 63% contra os preconceitos relativos a muçulmanos. No dia em que te escrevo esta carta, os eleitores londrinos vão depositando nas urnas os seus votos que, provavelmente levarão a Lord Mayor da capital britânica um muçulmano, cidadão do Reino Unido, mas de família oriunda do Paquistão, chamado Sadiq Khan. O pai dele é motorista de autocarro, mas parece que tal não o impedirá de ganhar as eleições ao candidato conservador, eurocético e ecologista, Zac Goldsmith, filho do multimilionário judeu, franco-britânico, Jimmy Goldsmith. Sinais dos tempos... Seja quem for o vencedor, terá de ser aceite por todos, por ser legítimo e legal Lord Mayor de Londres. Seja qual for a sua etnia, religião, origem social ou ideológica, terá simplesmente de exercer o seu mandato de acordo com o que a lei manda e lhe permite. Nenhum londrino terá de o considerar como judeu ou muçulmano, homem de cor ou branco, rico ou remediado, adepto do Arsenal ou do Chelsea, com raízes na imigração recente ou saxão de gema. Ele será, simplesmente, aquele que foi escolhido pela maioria dos oito milhões de londrinos (dos quais, dois milhões são muçulmanos) para seu Lord Mayor. A Europa hodierna, mais circunstanciadamente a União Europeia, vê-se ao espelho e surpreende-se mais como construção comercial, económica e financeira, interveniente e reguladora, do que como projeto humanista de uma sociedade transnacional fraterna e justa. E repara em como assim se vem tornando materialista, com diminutiva consciência moral e pouca respiração mística. Assusta-se com os estranhos povos e culturas que a habitam, pois que, tendo vindo a perder a sua alma, carece de fortaleza de cultura para conviver com a diferença. É sinal dos tempos a atribuição, hoje, 6 de Maio de 2016, do prémio Carlos Magno, ao papa Francisco: abafada em preconceito, egoísmo e falta de visão, a Europa oficial vira-se para um líder que apela à generosidade do reconhecimento da humanidade comum a todos, à fé que não exclui os outros e até abraça a multiculturalidade, e não se furta a acolher os desvalidos. A Europa precisa de abrir janelas, e deixar entrar ar fresco. E todos precisamos da alegria do amor e de com ela celebrarmos a graça da vida em comum.
 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira