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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Sadiq Khan

 

     Minha Princesa de mim:
 

   Ter-te-á passado despercebido o ligeiro sururu que, há poucas semanas, se agitou em volta de umas declarações do comissário europeu Pierre Moscovici acerca da eleição, para Mayor de Londres, do muçulmano de origem paquistanesa Sadiq Khan. O comissário francês disse então - naquele momento e no contexto do escândalo que tal decisão eleitoral produziu em certos sectores da sociedade europeia - que era sua convicção ser Europa uma comunidade de valores, um grande desígnio e um grande destino cultural. E que a Europa não é cristã, mesmo sendo verdade que no nosso continente haja uma maioria da população de religião ou de cultura cristãs. Não acredito nas raízes cristãs da Europa - ou talvez se possa falar de raízes, mas creio que a Europa é una e diversa. Deixa-me confessar-te, Princesa de mim, que me é cada vez mais difícil entender o porquê das confusões que número crescente de declarações dos nossos políticos vão lançando no "mercado". É ambiguidade favorável ao "marketing" político? Ou excessivo incómodo de pedra no sapato? Neste caso, o senhor comissário europeu, além de vir queixar-se de vários comentários "odiosos", veio defender-se das críticas de "mon ami Renaud Girard": Devo explicar-me e dizer-lhe que não sou um "tecnocrata da sociedade de consumo, para quem o homem é um ser exclusivamente económico". Pelo contrário, tenho o maior respeito pelas religiões e pela sua contribuição espiritual. Tenho horror a qualquer revisionismo histórico. Não quis ofender nenhuma consciência. Etc.. E, logo a seguir, volta a lançar confusão, quiçá por essa "fâcheuse" propensão dos nossos políticos a tudo misturar, já que diferenciar torna as coisas perigosamente claras demais. Assim, do mesmo modo que uma simpática senhora  --  falando duns milagres de Fátima, fantasia "religiosa" à qual, pessoalmente, não dou qualquer crédito  --  pretendia que, "depois da conversão da Rússia, conseguida pelos penitentes da Cova da Iria, a bandeira daquela nação passou a incluir o azul de Nossa Senhora"... (ao que eu, intimamente retorqui que me parecia também a cor do avental maçónico)... o nosso comissário, justificando a afirmação de que o projeto europeu não teve raízes religiosas, mas tão só políticas, diz que, contrariamente ao que por vezes leio, as doze estrelas da bandeira europeia não simbolizam a coroa da Virgem Maria! Pois eu creio que talvez sim ou talvez não, sendo todavia facto que os fundadores que as escolheram representavam, na altura, apenas seis países, mas optaram por doze estrelas, provavelmente por ser esse o número bíblico da perfeição, totalidade, vocação universal, e que o francês Robert Schuman - cujo processo de beatificação decorre no Vaticano - o  propôs, lembrado do número de estrelas que coroam a Virgem parturiente do Redentor que, contra o Dragão maligno, trará o mundo novo, segundo o livro do Apocalipse. Quero eu dizer, com tudo isto, que me parece tão mau inventar certas "histórias" como negar certos factos. E é facto que a cultura europeia está prenhe de valores e símbolos cristãos, nem sempre reconhecidos ou respeitados, ou ainda, muitas vezes, abusivamente agitados. Mas do facto de Schuman ter invocado aquelas doze estrelas, por cultura e fé pessoal, e por saber o que o doze simboliza, não decorre, nem se conclua, que os "pais da Europa", na sua forma de Comunidades Europeias, com a CECA, primeiro, e o Tratado de Roma em 1957, quisessem atribuir-lhe qualquer origem religiosa. É bem sabido que entre eles se contavam agnósticos (ainda que o outro francês, Jean Monnet, se tenha finalmente casado com Sílvia, mãe das suas duas filhas, na catedral de Lourdes) e defensores da laicidade das organizações políticas, e a constituição das CE é um ato político. Tal, porém, não retira à Europa, enquanto reconhecida realidade cultural e moral, o carácter original de cristandade. O próprio Moscovici reconhece que, com certeza, a fé cristã foi um fator de unificação da Europa. Dito isto, eu até concordo com quase tudo o que o comissário europeu afirma no "esclarecimento" que publicou em Le Figaro de 12 de maio p.p., muito embora lamente o facciosismo latente em trechos como: O projeto dos pais fundadores - qui étaient farouchement attachés à la laïcité - nunca foi criar um clube cristão ou religioso, mas acabar com o nacionalismo. Na verdade, não me parece necessário sublinhar o apego feroz à laicidade daqueles homens - entre os quais, aliás, se contavam também católicos devotos (como também foram os líderes das duas maiores nações pactuantes, o francês De Gaulle, com a implantação da V República, em 1958, e o alemão Adenauer) - para se concluir que tinha, o seu projeto, um objetivo político. Ao escamotear a conotação cristã daqueles, Moscovici, como outros arautos da laicidade, coloca-se em simetria com alguns cristãos "fundamentalistas" que pretendem cristianizar oficialmente a União Europeia, ao ponto de defenderem a exclusão de nações e de imigrantes que professem outras religiões ou tenham outra cultura... Eu mesmo, como muitos outros cristãos, defendo que a cristandade da Europa não pode, não deve, ser sequer tentativa ou simples pretexto de qualquer triunfalismo cristão (aliás, nem sempre o comportamento dos fiéis, e da própria Igreja, foi motivo de satisfação moral), e muito menos de exclusão ou desclassificação de outras religiões ou filosofias... O cristianismo europeu tem de redescobrir e praticar o apelo do amor de Jesus à dignidade e coexistência pacífica de todos.

 

   Surgiram-me, assim, cheias de sageza bem cristã, as declarações do papa Francisco ao jornal La Croix, periódico católico publicado em França, pátria da laicidade, também conhecida por fille aînée de l´Église. Datam de 17 de maio: Devemos falar de raízes no plural, pois há muitas. Nesse sentido, quando ouço falar das raízes cristãs da Europa, chego a recear que tenham um tom que possa ser triunfalista ou vingativo. Torna-se então colonialismo. A Europa tem, sim, raízes cristãs. O cristianismo tem o dever de as regar, mas com espírito de serviço, como no lava-pés. O dever do cristianismo para com a Europa é o serviço. No seu discurso de aceitação do prémio Carlos Magno, Francisco definiu a Europa, não por oposição aos outros, mas, sim, pelas suas diversas culturas, tal como pela beleza de vencer as clausuras, ou ainda pela sua capacidade de integração. Sobre esta, faz uma proposta nas declarações ao La Croix: No fundo, a coexistência de cristãos e muçulmanos é possível. Venho de um país onde eles coabitam em boa familiaridade...   ... Cada qual deve ter liberdade de exteriorizar a sua própria fé. Se uma mulher muçulmana quiser usar véu, deve poder fazê-lo. Tal como um católico trazer uma cruz. Sabes bem, Princesa, que eu, que também defendo a laicidade do Estado, assim tenho pensado e escrito. Recordo que Jürgen Habermas já afirmou que, ao invés do tratamento que o laicismo pretende dar-lhe, a fé não é uma opinião. E Olivier Roy conclui daí que, assim não sendo, a laicidade, para não ser intolerante - como acontece vezes demais - deve compreender a singularidade do religioso, quer no plano filosófico, quer no domínio jurídico. A liberdade religiosa não é assimilável às outras liberdades, mas o direito atual não leva isso em conta. Quando um tribunal condena a circuncisão de um menino, trata como opinião o que, para os pais dele, é obediência à lei de Deus...  ... Os laicos deveriam aceitar os símbolos religiosos, que nada significam para eles, desde que não se imponham ao seu modo de vida; em retorno, as comunidades religiosas não deveriam impor as suas normas à sociedade secularizada. Despartidarizando os temas, procurando enaltecer a convivência, o papa Francisco vai conseguindo que a Igreja participe, com outros, num diálogo que não seja discussão de poderes, mas reconhecimento mútuo de valores. Os que têm força para nos impor o respeito mútuo.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira