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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Terminava eu a minha última carta, citando-te o rabino Yeshaia Dalsace e o véu que protegia Moisés, iluminado pela revelação divina, dos olhos do povo.

Ocorreram-me, na altura, várias representações de Maomé na iconografia islâmica, em todas o Profeta não tendo feições, sendo a sua face uma mancha branca ou um véu. Recorri então a Bruno Nassir Aboudrar, professor de estética na Universidade de Paris 3 (Sorbonne Nouvelle), autor de Comment le voile est devenu musulman (Paris, Flammarion, 2014) que, depois de recordar que o carácter religioso do véu tem a sua origem na epístola paulina que então te referi - e só mais tarde se torna também islâmico - afirma que o véu serve para subtrair as mulheres ao visível, porque são sagradas. Antes de avançar para os prometidos testemunhos de mulheres, cristãs e muçulmanas, sobre o véu, o seu porte e o seu significado, creio ser importante deixar-te, Princesa, uma nota sobre a figura de Maria (Maryam), Mãe de Jesus, no Corão. Na verdade, ela é a única mulher designada pelo seu nome no livro sagrado do islão. Onze vezes só por ela, mais vinte e três associada a Jesus (Issa). Curiosamente, enquanto, nos evangelhos, Maria é referida como Mãe de Jesus, no Corão diz-se Issa, filho de Maria. Diferença subtil.

   O lugar de Maria na devoção, sobretudo católica, - perdoa-me, Princesa, a ousadia da opinião - tenho-o como sinal de contradição, como Jesus diz de si, e como o Evangelho é. No caso da Mãe de Deus, no culto católico, a humildade da serva que diz sim à vontade do seu Senhor eleva-a acima de todos os outros seres humanos, Maria torna-se apocalíptica, isto é, reveladora, é aquela que submete a serpente do mal e cuja cabeça surge coroada de estrelas. Sabes bem como penso que a Igreja continua a sofrer - e muito - de misoginia, sendo o culto mariano uma reação, sobretudo popular, à situação canónica das mulheres na Igreja (e no pensamento da "autoridade eclesiástica"). No fundo, é uma subversão, sinal da contradição que é a Boa Nova, tal como o Magnificat a canta. Se refletirmos um pouco nisto, quiçá entendamos melhor, também, a convicção das nossas religiosas professas e muitos dos protestos e aspirações de mulheres muçulmanas. Aqui, tem presente, Princesa, a imagem de Benazir Bhutto, eleita por dezenas de milhões de muçulmanos primeira ministra do Paquistão, que governou com a cabeça coberta pelo véu da praxe. Ou Teresa de Calcutá que, pequenina, curvada, forte e de véu coberta, inventou uma santidade. Passo agora ao primeiro testemunho, este de Zarah Ali, muçulmana francesa de origem magrebina, autora de Féminismes Islamiques (Paris, La Fabrique, 2012): As feministas muçulmanas propõem uma libertação que implica uma relação diferente com o corpo e a sexualidade: uma relação marcada por normas e uma sacralização do íntimo, e por uma defesa do enquadramento familiar heterossexual... o que, trocado por miúdos, quer dizer "reler o Corão, de modo a reabilitar os direitos das mulheres, e usar o véu como estandarte contra o racismo e o sexismo da hegemonia ocidental." Preconiza-se assim a ijtihad, ou interpretação pessoal do Livro, para um aggiornamento. Tal tendência verifica-se entre as mulheres iranianas que, em 2014, despiram-se do véu em sinal de protesto perante as autoridades político-religiosas. Mas já a feminista persa, escritora e socióloga, Chalah Chafiq, insiste na separação entre feminismo e religião: O feminismo é um conceito universal. Associar feminismo e islão significa prender as mulheres à ideia de que o seu futuro se encontra na religião... Num contexto de repressão totalitária e religiosa, a estratégia do feminismo muçulmano pode permitir um passo em frente em direção aos direitos das mulheres. Mas o acesso a uma cidadania livre e autónoma não pode ser articulada ao religioso... E outra iraniana, Shirin Ebadi, prémio Nobel da paz em 2003, sublinha: Os direitos humanos constituem um só e único conceito, não podem diferenciar-se entre islâmicos e não-islâmicos. Aceitar tal distinção em nome do relativismo cultural significaria aniquilá-los. Parece-me, Princesa de mim, que esta chamada de atenção é mais abrangente ainda, na medida em que nos lembra que qualquer direito humano não é circunstanciável, isto é, reconhece-se de per se, não pode ser atribuído de modo discriminatório, é universal. No caso em análise, tal significa que a cada mulher, enquanto ser humano sujeito de direitos, cabe decidir se usa ou não usa véu.

  
Mulher bonita, simpática e serena - talvez o Eça dissesse "De apetite, menino!" -  médica e feminista, a marroquina Asma Lamrabet, de véu na cabeça, luta por fundamentar, na própria tradição corânica, um entendimento feminino da sua revelação: Sou crente, mas não gosto muito do dogmatismo, nem desse jeito islâmico de nos dizerem o que é lícito ou ilícito. Em minha opinião, a perceção dos textos é diferente, segundo se é homem ou mulher...   ... os textos nem de longe são misóginos, a sua interpretação é que o tem sido...   ... O processo foi exatamente o mesmo nas outras religiões monoteístas. Veja-se o exemplo de Jesus, tão próximo das mulheres, e olhe-se para a Igreja católica de hoje, onde elas praticamente não existem... Feministas judias e cristãs fazem também esse trabalho de releitura dos textos sagrados. A ideia de obediência da mulher ao marido encontra-se em todas as tradições abraâmicas...   ... Marrocos, onde vivo, é, com a Tunísia, um dos poucos países muçulmanos que reformaram o código da família. Passou-se da obediência da mulher ao marido -  herança do Código de Napoleão - para a corresponsabilidade dos dois cônjuges...   ... Todavia, temos de reconhecer que a realidade não tem seguido. Se as leis são importantes, é também preciso mudar as mentalidades pela educação.

  
Vou ser muito clara. Desde os anos 1950, a ideologia patriarcal muçulmana focalizou-se sobre a questão do véu, do
hijab, reduzindo as muçulmanas a corpos e véus. Lamento dizê-lo, mas o véu não é um pilar do islão. O Corão tem mais de 6250 versículos que falam de liberdade e igualdade, de dignidade, de sabedoria, de razão e de justiça. Só um trata do véu, e há quem queira crer que é uma obrigação. É aflitivo! Dito isto, tanto critico a tendência que quer impor o porte do véu como a que quer impor a sua interdição a quem o quiser usar. Porque, neste último caso, as mulheres são apertadas entre a vontade de se inscreverem numa prática religiosa, e o seu desejo de se expandirem no seio duma sociedade que as exclui. O véu deve continuar a ser uma liberdade. Quanto a mim, ponho-o quando me apetece, porque se trata do meu corpo e do meu modo de ser. Reveste-se, aos meus olhos, de uma significação espiritual, e não tenho de prestar contas seja a quem for, exceto Deus.

  
Aqui chegado, ia já transmitir-te, Princesa, outros testemunhos, mas eis que recebo uma carta de querida amiga, a falar-me da crítica feita por Fatiha Douadi a Edwy Plenel, jornalista francês, nascido na Martinica, crescido na Argélia, tornado famoso, sobretudo, pelo seu trabalho, entre 1980 e 2005, para Le Monde, hoje governando o seu jornal on line chamado Mediapart. A conhecida e ativa jurista marroquina, militante de direitos humanos e feminista activa, escreve, em 19 de Agosto p.p., em resposta a um artigo de Plenel no Mediapart - que defende a liberdade das mulheres muçulmanas poderem vestir burkini, que não é nem mais nem menos fato do que qualquer outro: Ao ouvir-vos perorar sobre a liberdade vestimentar das mulheres muçulmanas, confortavelmente instalado numa democracia centenária cuja instituições estão solidamente ancoradas e onde as liberdades individuais são sacralizadas, põem-se-me os cabelos em pé, na cabeça sem véu, e invade-me a cólera. Quando, Senhor Plenel, compara o burkini à sotaina, falando da sacrossanta liberdade individual, esquece-se de uma coisa importante: a sotaina é um hábito vestido por pessoas que fazem da religião uma profissão, as quais, bem entendido, não devem ser, de modo algum, discriminadas, mesmo havendo separação da Igreja e do Estado. Pelo contrário, o burkini não é uma vestimenta profissional, mas uma sequência lógica do véu e da burka. É um casulo sofisticado onde se encerram mulheres nas praias, que deviam ser lugares de vilegiatura e lazer. Com tal vestuário, o corpo das mulheres é entravado, a fim de, ao que parece, não se descontrolar a libido masculina. Talvez o senhor não saiba que, nesses países muçulmanos, as nossas mães vestiam, nos anos 60, fatos de banho na praia, para os seus corpos gozarem livremente do sol. Hoje em dia, muitas mulheres evitam levar o fato de banho para a praia, com medo de serem agredidas por loucos da religião que, de facto, não passam de tarados sexuais.

  
Estamos, Princesa de mim, perante um bom exemplo de quanto é difícil e delicado transpor valores e inculturá-los, ou conciliá-los com circunstâncias diferentes. Douadi e Plenel, ambos são defensores acérrimos da dignidade humana ou, se preferires, desses valores cristãos, que a Igreja clerical, vezes demais, tentou escamotear, mas que integraram o sentimento popular e foram laicizados pela Revolução Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. Mas o respetivo reconhecimento e prática opera-se, necessariamente, em meios ou circunstâncias que podem ser muito diferentes. Neste caso, parece-me, temos de dizer ao laicismo francês que as muçulmanas é que têm o direito e o dever de decidirem como se vestem (desde que esse exercício da liberdade não viole ou coarte a dos outros e sua segurança), tal como deve ser dito aos "fundamentalistas" islâmicos a mesmíssima coisa, só que de outro modo, com o objetivo de defender essa liberdade noutra circunstância. Eis o que respondi à minha amiga:

  
Fatiha Douadi, jurista, é militante política, ao jeito contestatário francês. Não sendo apreciador do estilo (sinto sempre uma ligeira irritação quando me surge gente que gosta de agitar pelo gosto de discordar, tal como refilões que sofrem excessivamente de tentações totalitárias), posso todavia entender que uma marroquina - como, aliás, qualquer outra mulher natural de um país muçulmano - possa incomodar-se e sublevar-se contra o machismo reinante ou em alta no seu país e em meios religiosos islâmicos. Está no seu direito, e até me parece ser justa a sua ira. Nesse sentido, tem certamente o direito de atacar o burkini.

  
Por outro lado, penso que a questão que se levanta em França não é, propriamente, o burkini em si, o qual pode - quiçá deva - ser contestado, ridicularizado, o que se entenda ou queira. Mas, e este mas é importante, o Estado laico não tem o menor direito de o proibir, muito menos da forma como o faz, invocando as "razões" que apresenta. Aí, está, facciosamente, a ofender um direito pessoal, isto é, o burkini - como, aliás, qualquer hábito religioso - é um fato como qualquer outro, da livre escolha de quem o veste.

  
Não confundamos as coisas: do mesmo modo que condeno a intervenção política e policial em matéria de burkini, também defendo o direito de Fatiha Douadi, ou qualquer pessoa, opinar e criticar o mesmo vestido. E até compreendo que só a vista dele possa incomodar - e muito - uma mulher muçulmana culta e emancipada.

   Indo agora ao artigo de Plenel, publicado a 14 de agosto no Mediapart, e cuja leitura integral aconselho: que diz ele?

Na praia, cada um de nós pode pensar o que quiser das posturas escolhidas pelos outros veraneantes (segundo as suas culturas, convicções, religiões, etc.), mas ninguém tem o direito de impor autoritariamente aos outros a sua escolha, à maneira de uniforme obrigatório. Assim, tal como me oporia com todas as forças a um poder que obrigasse as mulheres a cobrirem os corpos no espaço público, também me oponho hoje a que se lhes proíba nas praias uma veste que as cobre, só porque pode estar relacionada com uma religião. Em ambos os casos, cedemos as nossas liberdades individuais, em proveito de uma lógica autoritária e discriminatória que, no primeiro caso, visa as mulheres, continuando a fazer delas uma minoria política oprimida e, no segundo, visa as muçulmanas, tornando-as numa minoria a excluir...   ...Será preciso recordar aos nossos intolerantes de hoje que, em 1905, aquando da votação da lei de separação das igrejas e do Estado, certos republicanos conservadores quiseram proibir o porte da sotaina no espaço público? E que, evidentemente, Aristide Briand (que tomara a iniciativa legislativa, com firme apoio de Jean Jaurès) a isso se opôs, em nome da liberdade de cada um proclamar as suas opiniões (e, portanto as suas crenças), tendo então recebido o apoio de todos os republicanos progressistas?...   ...Os adeptos da interdição do "hábito eclesiástico" (como outros, hoje, querem proibir o "hábito islâmico") afirmavam tratar-se de um hábito de submissão, e que era dever do Estado republicano emancipar, pela lei (ou seja, pela força...da lei), os padres... da sotaina!...

   Aristide Briand, Princesa, acrescentaria que a sotaina se tornará, a partir do dia seguinte à separação, uma vestimenta como qualquer outra, acessível a todos os cidadãos, sejam padres ou não. E diria ainda que se os homens, fossem quem fossem, quisessem ir para a praia de sotaina e, em tal preparo, tomarem banho, teriam esse direito...

   Vai longa a carta. Deixo para a próxima outros testemunhos, femininos e pacíficos.


Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira