Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Perceberás adiante, nesta ou noutra carta, por que pergunto se o antónimo ou antinómico de edificante é deletério. Ocorreu-me tal interrogação ao cair-me nas mãos - no decurso desta atarefada arrumação de milhares de livros em que a mudança de casa me meteu - uma edição bilingue (Relógio d´Água, Lisboa, 2003) de Les Fleurs du Mal (1857) de Charles Baudelaire, com versão portuguesa de Maria Gabriela Llansol. Já tinha, e ainda conservo, duas edições francesas da obra, quando adquiri esta, num período em que apreciava cotejar originais e suas traduções por "nomes conhecidos" das letras portuguesas, como, entre outros amigos, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura, etc...

 

   Sobre esta versão de As Flores do Mal, teimo em sentir que deparo com dois estilos distintos, a tal ponto que só posso afirmar que um poema é tradução de outro pela coincidência dos temas e a genealogia das inspirações, por vezes ainda porque uns e outros versos tocam as mesmas notas. A edição bilingue sublinha trechos do seu posfácio, que reproduz a Introduction que Paul Valéry escreveu para a edição francesa de 1926. Escolho um, assaz claro, de acordo com a editora portuguesa que, sabiamente, o destacou, quiçá para chamar a atenção para a tentação do original e o desafio da tradução:

 

   Há nos melhores versos de Baudelaire uma combinação de carne e de espírito, uma mistura de solenidade, de calor e de amargura, de eternidade e de intimidade, uma raríssima aliança da vontade com a harmonia, que os distingue nitidamente dos versos românticos, como os distingue nitidamente dos versos parnasianos...   ... Vemos hoje que a ressonância, passados mais de sessenta anos [este escrito de Valéry, não esqueças, Princesa, data de 1926], da obra única e muito pouco volumosa de Baudelaire preenche ainda toda a esfera poética, está presente nos espíritos, é impossível de ignorar, reforçado por um número notável de obras que dela derivam, que não são imitações, mas consequências, e que seria pois necessário, para ser equitativo, juntar à delicada recolha das "Flores do Mal" diversas obras de primeira ordem, e um conjunto de investigações mais profundas e mais subtis como nunca a poesia empreendeu. [Tradução de Manuel Alberto]

 

   Confesso - a ti, Princesa de mim, depositária de meus inauditos segredos - que não sei se prefiro a tradução que a Maria Gabriela Llansol fez de Un Cantique d´Amour (com o título, em português, de O Alto Voo da Cotovia - Relógio d´Água, Lisboa, 1999), de Therèse Martin, aliás, Santa Teresinha do Menino Jesus, à sua versão de Les Fleurs du Mal. Não confronto o pensadossentimento com que a escritora portuguesa verteu, para a sua língua, qualquer dessas obras tão diferentes. Tampouco me atrevo a pretender que uma ou outra se coaduna melhor com o pensarsentir o mundo, a alma e a vida de Gabriela. Só ela, ela e ninguém mais, poderia ter consciência disso. E mesmo esta não teria, ao calhar, a mesma densidade. Mas, por estranho que te possa parecer, vejo uma essência comum a ambas as versões, de obras aparentemente tão diversas e contrárias como flores do mal e lírios de castidade. Talvez lhe chame misericórdia, esse mistério de entreajuda universal, o primeiro dos nossos deveres e o eminente direito de cada um de nós. Caio aqui em pensarsentir a misericórdia como o poder gratuito de revelar e edificar a beleza escondida, de renovar o ser. Estranhamente, poucos entenderão que é precisamente essa gratuidade que Deus quer dar e que seja dada. Como nesse lema medievo: Deus la deu, Deus la há dado.

 

   Escreve, sobre Teresa de Lisieux, Gabriela Llansol: Perguntam-me se é escritora. Respondo-lhes que, em escassos quatro anos, a poesia foi servida como mandam os manuais. Mas vou responder-lhe de outro modo. A Teresa entrou, de facto, no armazém dos sinais da literatura. Noto que foi buscar imagens e ritmos a Musset, a Chateaubriand e a Lamartine. Que entrou, se serviu como entendeu, e fez poemas. Também foi buscar pensamentos e palavras aos Evangelhos, a São João da Cruz, à mística carmelita. As freiras, suas irmãs, apreciaram. Tudo rimava, apesar de quase nada respirar. As ideias pareciam ortodoxas, as sonoridades não chocavam, a mobilidade rítmica introduzia movimento, algum drama, as imagens vinham quase todas da natureza e da vida familiar, os versos eram fáceis de cantar. Sim, porque os poemas eram para ser cantados. Não é inconveniente ver freiras cantar versos que não são os do Ofício. Não é sequer inconveniente que as melodias sejam profanas...   ... Como não nos desviarmos, sem discordar? Sim "dis-cordar" é separar os corações. O teu   escondeste-o nos poemas e nas palavras estranhas que utilizas. Escreves Deus e não sabes o que é. Escreves vale de lágrimas / céu / divino-pai / paraíso / carmelo / coro celeste / pecadores / felicidade / eleitos / anjos / divino / e nenhuma dessas palavras dizem o que parecem. São estranhos de passagem. Como os Musset, Chateaubriand e outros Lamartine não disseram o que te ia na alma. Nem por instantes acreditariam no que os teus olhos viam. Nunca o teu jesus seria para eles o encontro arriscado de uma vida.  E para as tuas irmãs? / Imaginaram-no vindo do sagrado / quando / ele veio para ti vindo do fulgor, / «misericórdia», / como lhe chamaste.

 

   E na misericórdia se encontram as flores do mal e essas que Santa Teresinha canta no seu JÉSUS, MON BIEN AIMÉ, RAPELLE-TOI !... Rapelle-toi qu´au soir de l´agonie / Avec ton sang se mélêrent tes pleurs / Rosée d´amour, sa valeur infinie / a fait germer de virginales fleurs... A escrita francesa de Teresa vai crescendo num ritmo e num balanço sonoro que a versão de Gabriela não pretende imitar. Basta-lhe, magnificamente, colher o coração do poema e, adiante, traduzi-lo assim:

 

          Eis o mistério __ Esse orvalho fecundo,

          Tal um sémen __ virginizou as corolas floridas __

          Flores de um ventre invisível __ onde germinam

          E crescem __ inumeráveis corações maternos.

 

          Meu corpo cresceu nesse mistério __ Sou virgem __ Virginizada

          Por ti __ um corpo materno de corações sem fim

 

          Flores virginais que libertam os homens

          Da ilimitada tristeza

          De viver.

 

          Foste um condenado __ forçado ao extremo

          Sofrimento humano __ que se mirou no azur __ aflito,

          E exclamo __ «Mais um pouco e ver-me-eis

          Surgir glorioso __ na extrema mudez do Pai».

 

   Não, Princesa de mim, não me esqueci de Charles Baudelaire nem de Les Fleurs du Mal;  tampouco, ou ainda menos, olvidarei esta conversa em que se me aproximaram um poeta maldito e uma santa de altar (da qual, lembras-te?, ainda guardo uma relíquia que herdei da minha Avó Teresa...). Espera pela próxima carta.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira