Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em tempos de pós estudante só aprendiz a inquirir, escrevi uma dissertação intitulada A Liberdade em Espinosa. Não sei já porque escolhi o judeu excomungado da sinagoga portuguesa de Amesterdão, que, aliás, também curioso visitei... e onde me impressionou, em pleno século XX, ouvir uma comunidade judaica holandesa, mas nomeada por inúmeros apelidos portugueses (patronímicos e outros como Álvares, Fernandes, Marques, Mendes, Fonseca, da Costa, Teixeira da Mota, Ribeiro, Pinto, eu sei lá!...) recitar uma oração "pela Rainha e a Madama sua Mãe", na língua lusa de seiscentos. Talvez tivesse essa minha opção sido influenciada por aquele que, ainda que nascido nos Países Baixos, sempre ficou também português de coração, nunca tendo deixado de falar a nossa língua, e assinando quase sempre os seus escritos como Bento, de preferência a Baruch ou Benedictus, o mesmo onomástico tendo sido gravado em três línguas no seu registo de nascimento: Bento Baruch Benedictus Marques Espinhosa, e depois d´Espinoza ou, apenas de Spinoza... Já o pai, Miguel, e o avô, Pedro, usavam os nomes portugueses para negócios e vida corrente, e os hebraicos para a sinagoga. Como Bento-Baruch faria, o Benedictus acabando por lembrar que esse judeu português quis aprender latim e escrever nessa língua da liturgia católica, que, todavia, era também a língua franca dos filósofos e cientistas do seu tempo. E, além do português e castelhano ladinos, também falava e escrevia neerlandês e hebraico.

 

   Mais certamente ainda, terei escolhido Bento Espinosa, por sentirpensar a liberdade, não como "fazer o que apetece", sem mais, mas como um atributo conatus (essencial ao ser pessoal):  Qualquer ente, tanto quanto esteja em seu poder, luta por perseverar no seu próprio ser. E, desde então, liguei esta ideia à da distinção espinosiana, não entre corpo e alma, mas entre tristeza (ou mágoa?) e alegria... A liberdade, digo eu, de cada um de nós é o direito inato à demanda da alegria.

 

   Achei há dias, entre vários escritos de Espinosa e livros sobre ele, um volume das suas obras traduzidas e anotadas por Charles Appuhn, para a Garnier-Flammarion (Paris, 1964), e bastamente percorrida de sublinhados e apontamentos feitos por um meu lápis de então. A edição de Appuhn recorre a muitas observações antes feitas por Gebhardt na versão alemã publicada pela Heidelberg Karl Winters Universitätsbuchandlung, que eu conhecera na minha passagem pela universidade renana em 1962. Não encontro, na papelada vária que por cá vou liquidando, o texto que escrevi na altura sobre "A Liberdade em Espinosa". Mas algo me diz que o mesmo espírito me terá sobrado dos sinais que hoje achei na referida edição francesa, muito próximos também das memórias do filósofo que ainda recordo. Lá iremos, não sei, quiçá em próxima carta, posto que te escrevo hoje com essas lembranças agudizadas por conversas que tenho tido com o Gonçalo, em celebração da "sua" Maria Benedicta, que tão recentemente ficou a viver só no coração dos seus familiares e amigos. E continuamente - é essa a minha fé - no coração de Deus. Ia falar-te de Espinosa, mas intrometeu-se outra história de incompreensão, de expulsão ou não-acolhimento, que te quero contar agora. Que em mim se mistura com uma incorrigível esperança numa universal comunhão na alegria. 

 

   Adiante compreenderás porque te transcrevo aqui um trecho do decreto de excomunhão de Bento Espinosa da sinagoga de Amesterdão, a 27 de julho de 1656, tinha o filósofo 23 anos. Tal herém - comparável à fatwah islâmica ou à excomunhão cristã - de Baruch (Bento, Bendito ou Benedito) reza assim, in folio 408 do Livro dos Acordos de Naçam (em português hodierno Livro dos Acórdãos da Nação, esta designando a comunidade judaica portuguesa de Amesterdão):

 

   Com sentença dos Anjos, com dito dos Santos excomungamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa...   ... com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar... Esta citação é acessível em Uma Suprema Alegria: escritos sobre Espinosa de Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Quarteto, Coimbra, 2003) e, antes, em Espinosa e Outros Herejes, de Yirmihahu Yovel (INCM, 1993). Mas não resisto a traduzir-te, por não ter aqui à mão o texto integral em português, doutra fonte, estrangeira, o final do herém: Queira o Eterno nunca mais lhe perdoar. Queira o Eterno acender contra este homem toda a Sua cólera e derramar sobre ele todos os males referidos no livro da Lei: que o seu nome seja apagado neste mundo e para sempre, e seja do agrado de Deus de todas as tribos de Israel, afligindo-o com todas as maldições que a lei contém. E a vós, que permaneceis fiéis ao Eterno, vosso Deus, vos mantenha Ele em vida! Sabei que não devereis ter com Espinosa qualquer relação, nem escrita, nem verbal. Que ninguém lhe preste serviço, nem alguém se aproxime dele a menos de quatro passos. Que ninguém habite sob o mesmo teto, nem alguém leia qualquer dos seus escritos!

 

   Assim decidiram os rabinos e anciãos da sinagoga. Não te vou contar agora, Princesa de mim, os motivos e argumentos das acusações, de heresia e outras, que fundamentaram esse ostracismo. Nem da circunstância de tudo isso se passar num país que, apesar de tudo - dos fundamentalismos dos "religiosos" calvinistas, do liberalismo político dos republicanos do Grande Pensionário De Witt, das ambições monárquicas dos Guilherme de Orange (na raiz da atual casa reinante de Nassau)  - acolhia muita gente refugiada de países bem menos tolerantes que, aliás, os judeus ibéricos conheceriam melhor do que ninguém... Permite-me que dê um salto  afinal, o que te escrevo são apenas simples cartas familiares - e vá buscar citações a um texto da Maria Benedicta, num encontro de cristãos, já no tempo em que ela se sentira excomungada da Igreja Católica e como que entrara numa nebulosa a que João Bénard da Costa daria, entre decisão pensadassentida e saudade, o nome de Nós, os Vencidos do Catolicismo, "plagiando" um verso de Ruy Belo, que primeiro como tal se assumiu. O livrito do João Bénard que tem por título esse primeiro verso do poema do Ruy em Homem de Palavra(s) - que a seguir transcrevo - reuniu para as Edições Tenacitas, os artigos escritos para O Independente, em 1, 8 e 15 de agosto de 1997. É, tudo bem ponderado, um testemunho muito pessoal da aventura ou peregrinação espiritual de uma geração de católicos que, nos anos 50 e 60, procurava aproximar a Igreja do povo de um Portugal - que se desruralizava, industrializava e emigrava, mantinha guerra em África, sem qualquer demanda de diálogo  -, desidentificá-la do Estado Novo e suas obras - o que não quer dizer que excluísse do seu diálogo gente do regime vigente - e empenhar os cristãos nos processos de transformação da nossa sociedade numa comunidade moderna, mais livre e democrática, mais justa e mais fraterna. Falhados muitos objetivos desse movimento e desanimados muitos esforços, por inércia, desconfiança, ou mesmo oposição da hierarquia clerical, foram desertando uns e mais alguns, e sobre essa geração pairou a desolação, o desgosto da orfandade espiritual. Leio Ruy Belo:

 

               Nós os vencidos do catolicismo

               que não sabemos já donde a luz mana

               haurimos o perdido misticismo

               nos acordes dos carmina burana

 

               Nós que perdemos na luta da fé

               não é que no fundo não creiamos

               mas não lutamos já firme e a pé 

               nem nada impomos do que duvidamos

 

               Já nenhum garizim nos chega agora

               depois de ouvir como a samaritana

               que em espírito e verdade é que se adora

               deixem-me ouvir os carmina burana

 

               Nesta vida é que nós acreditamos

               e no homem que dizem que criaste

               se temos o que temos o jogamos

               "meu deus meu deus porque me abandonaste?"

 

   Pessoalmente, estive muito próximo desse e doutros grupos, sobretudo católicos, com que comungava no propósito e na urgência de uma renovação de culturas e políticas, num mundo onde já fermentavam novos horizontes. Assinei, como sabes, entre outros, o famoso "dos 101", colaborei em obras várias da Moraes Editora, respondi a uma vocação religiosa, apesar de, em certo sentido muito próprio - ou talvez em razão dele -  ter sido sempre muito reservado em qualquer adesão aos comandos de clérigos (incluindo a chamada "hierarquia"), considerados códigos de conduta canónica e sem discussão, só por provirem do clero. [Certo dia uma amiga advertiu-me de que "a Igreja não é nenhuma democracia!", ao que retorqui que a instituição clerical que açambarcava o nome de Igreja, evidentemente não era... E, mais ainda, pensava eu que a Igreja não é "cracia" nenhuma, muito menos clerocracia, mas, isso sim, a comunhão dos santos ou comunicação dos humanos em Cristo. Foi sem ilusões acerca da omnipresente infalibilidade da "hierarquia", nem qualquer temor a quem se toma por polícia de Deus, que permaneci na comunhão dos que confessam o credo dos Apóstolos e se alimentam dos sacramentos como sinais efetivos de reconciliação, isto é, da presença de Deus connosco. Igreja onde encontrei muitos humanos carregadores da Palavra, e estimo tantos ministros ordenados que não esquecem ser o seu ministério um serviço e, não, como no foro da política, o exercício de um poder. Este Natal, muito especialmente, procurarei meditar nos caminhos de reconciliação de que a incarnação de Deus num menino humano é o supremo exemplo e desafio].

 

   Mas vamos ao testemunho da Maria Benedicta, dado na sessão "Identidades, comportamentos e modos de vida" do programa Escutar a Cidade, contributo para o Sínodo da Diocese de Lisboa, em 15 de janeiro de 2015. Começou por recordar estas palavras de Martin Luther King: A minha grande preocupação é o silêncio das pessoas sensatas. Frase que retomará ao encerrar a sua intervenção, depois de ter manifestado a sua preocupação com situações e problemas contemporâneos, para a solução dos quais - ou progresso para um mundo melhor - apresentara análises, intuições e sugestões, e apelara ao diálogo e esforço comum:

 

   Como vivem, o que pensam, o que querem os jovens portugueses e europeus deste século?...   ... Que síntese fazem do percurso dos mais velhos?

 

   Em relação ao futuro, o que pensam, em que acreditam, o que esperam as gerações de "entre-séculos"? Que sociedade lhes interessa? Quanto estão disponíveis para a construir? Onde estamos agora? Para onde vamos?

 

   A Maria faz então uma longa referência ao projeto de estudo da Comissão Europeia intitulado Os jovens enquanto motores de mudança social. Podes e deves ler integralmente, Princesa de mim, esta contribuição da Maria para uma reflexão cujo objetivo será averiguar:

 

   - quais são as normas e os valores que esses jovens reconhecem e quais as suas atitudes em relação a múltiplos aspetos da vida social;

 

   - quais são as suas expectativas em relação às políticas públicas e à organização da vida económica, social e privada, incluindo a organização das cidades e a ética dos negócios;

 

   - qual é a orientação e a disponibilidade dos jovens para serem o motor da transição para formas inovadoras da vida individual e coletiva na Europa, num quadro intergeracional e intercultural.

 

   Consulta em linha, na rede, o sítio escutar a cidade. Com o impulso à abertura e participação da Igreja nos diálogos interculturais e interreligiosos, bem como em iniciativas e movimentos ecuménicos e abrangentes de todos os humanos, que o papa Francisco tem procurado dar, vejo sempre com alegria a publicação de textos de "outros" em sítios católicos. Mas voltando a dar a palavra à Maria Benedicta Monteiro, logo após a citação de Martin Luther King:

 

   ... Tenho que começar por louvar a iniciativa que hoje aqui começa, e agradecer a possibilidade de estar aqui convosco.

 

   Para quebrar o silêncio entre cristãos e não cristãos.

   Para quebrar a barreira dos estereótipos mútuos.

   O que é difícil:

      Porque não vale a pena.

      Porque já sabemos o que eles pensam.

      Porque achamos que temos valores diferentes.

      Porque achamos que "eles" não vão mudar de ideias.

 

   Não foi fácil aceitar. Eu perguntava-me: o que querem ouvir os católicos de Lisboa? O que tenho eu, que sou agnóstica, para lhes dizer?

 

   Resolvi por isso interrogar a minha própria vida, e a partir daí mostrar como vejo, hoje, algumas preocupações da sociedade que me rodeia.

 

   Para tua reflexão, Princesa, respigo apenas dois passos do que a Maria contou de si. Deixo-te, assim, um trecho breve daquela confissão (agostiniana), a resumir o seu afastamento da Igreja:

 

   1º aviso, em Belém, em 1960, pelo Padre Felicidade Alves, recém chegado como pároco: "Dado o seu envolvimento em atividades de natureza política naturalmente prejudiciais à sua função de catequista desta paróquia, fica dispensada desse serviço".

 

   2º aviso, na Faculdade de Letras, pelo Padre Maurício, mentor da Juventude Católica Feminina: "Dado o seu envolvimento em atividades políticas condenadas pela Igreja, deve fazer a sua opção: ou continua na JUCF e se desliga da Associação Académica da Faculdade, ou devolve-me o seu emblema e considera-se fora deste movimento católico". 

 

   A Maria era cabalmente frontal e demasiado honesta para poder disfarçar a mágoa de se sentir expulsa de uma comunidade cristã, só porque se empenhava em combates de natureza política que lhe pareciam justos, ao ponto de até os considerar desafios dignos de um espírito cristão. Mas quem com ela conviveu também sabe como poderia dizer:  "se não me queres assim, ou só me acolhes se eu mudar, paciência, há convívios que não se forçam..."

 

   Creio - talvez por fiel amizade à Maria e ao Gonçalo, como a tantos outros que foram saindo e ficando pelo adro - que, no fundo, todos eles terão reagido como Bento Espinosa, que confessa no seu Tratado da Reforma do Entendimento: constitui tandem inquirere an aliquid daretur, quo invento et acquisito, continua, ac summa, in aeternum fruere laetitia [Em tradução livre e sucinta: "decidi procurar o que, uma vez achado, para todo o sempre dê suprema alegria...]. A demanda da alegria é o motor da vida de todos e de toda a vida cristã. E não deixa de ser intrigante que um filósofo luso judeu, que por muitos foi considerado ateu, tenha escrito no seu Tratado Teológico-Político que Cristo teve revelação dos desígnios divinos sobre a salvação dos homens, não por intermédio de palavras nem de visões, mas imediatamente...   ... Nesse mesmo sentido, podemos também dizer que a Sabedoria de Deus, isto é, uma Sabedoria sobre humana, se incarnou em Cristo, e Cristo se tornou caminho de salvação...   ... Para sempre Ele escreveu a lei divina no fundo dos corações...

 

   Olhemos pois para o fundo dos corações: talvez nada enxerguemos, cada um tem o seu mistério. Mas a contemplação do mistério do outro, daquilo que nele não entendemos deverá ser motivo de respeito e espera, não de rejeição ou humilhação. Se entendermos isso, entenderemos a Festa Grande do Natal, a celebração do mistério maior que nos anima: a alegria do encontro, da reconciliação de Deus com todos e em todos. Este ano, alegro-me com a Natividade de Jesus, sobretudo como sacramento do encontro e da paz. E agradeço o testemunho da Maria Benedicta e a constância do Gonçalo, que tanto me recordam quanto devemos reunir todos à volta do Presépio, e nunca deixar ninguém de fora. Assim, talvez para nos lembrar de que nenhum de nós é dono de nada, Deus, quando se fez homem, quis nascer pobre.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira