Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

Passion Kaboul.JPG

Minha Princesa de mim:
 

Diz-se que a idade é um peso, cabelo branco e saudade. Pois fica sabendo que o que mais me dói na idade, não são lembranças, nem desgostos presentes, nem as cãs com que o tempo me vai pintando o pelo escasso. Nada disso, nem sequer qualquer embaraço de mim. É o esquecimento de nós, do corpo contínuo que somos, antes, agora e depois. Todos nós, inevitavelmente juntos, tão ontologicamente solidários que já não existimos quando olvidamos a presença uns dos outros, nem fomos se já perdemos o nosso rasto, nem seremos se não quisermos encontrarmo-nos. Ao escrever-te isto, não sei se mesmo tu me entenderás, e até já receio que ninguém mais possa entender-me... Fui educado para português, eu  que, pelo nascimento, tinha mais de metade de mim vinda de tantas outras pátrias europeias. Talvez por isso  -  e por ter passado o mais da minha vida por esse mundo quase todo  -  facilmente me eduquei para europeu. Não por qualquer gosto que tivesse em tecno-normalizações ou outras serializações. Mas talvez por ser ainda - vetusto e atrasado  -  um homem da Renascença. Afinal, desde pequeno que o tentara ser, era o meu modo de sobrevivência, tive de aprender a ser tudo com todos, a minha cultura não era só portuguesa, nem tampouco poderia ser um disfarce mal traduzido, era necessariamente a interpelação de ambientes vários, através das pessoas que os habitavam e que, por força do fado, eram meus parentes. Nem sempre foi fácil, menos ainda nessa idade em que crescemos muito e depressa, e vertiginosamente bailam as referências à nossa volta. Foi sempre gratificante, porque aprendi a amar, no sentido em que, quiçá, o amor é mais verdadeiro: como atitude de abertura, esforço de entendimento, vontade de querer bem sem nos deslumbrarmos nem trairmos.  Também tive, talvez inconscientemente, de criar defesas : desde muito novo, dessa idade em que, tornando-nos mais densos e duros, nos vamos fazendo adultos, reforcei-me com uma aversão impiedosa à hipocrisia, sobretudo a essa supina forma da estupidez que é o disfarce em convencionalismos correctos.  E, hoje ainda mais, não tenho dúvida de que essa recusa do risco da contestação  -  que é  falta de esforço e honestidade intelectual - é a raiz de todas as intolerâncias. Impede-nos de sair de nós, do nosso meio de convicções não interpeladas (e, apenas, pelo seguro, convencionalmente entendidas com as do nosso "grupo"), para irmos ao encontro dos outros, dos que são diferentes... E, afinal, também ao encontro de nós mesmos, tantas vezes contraditórios... Vivi décadas no meio de gente não cristã, que praticava outras religiões, falava outras línguas, e se referia a usos e costumes, a filosofias e passados históricos que eu não conhecia. Curiosamente  -  sem mérito próprio, talvez só por sempre ter sido forasteiro  -  nunca me senti estranho, nem contrariado, nem adverso. Pratiquei sempre a minha religião católica, partilhei com todos a minha fé e a minha cultura. Até me senti  - quantas vezes! - mais próximo da minha tradição cristã quando entendia melhor, e partilhava, o modo como "eles" rezavam do que, de regresso a Portugal, na monotonia, tão invariavelmente apertada , das nossas igrejas. E quase todas as noites, quando me recolho e rezo e lembro de Jesus, me surge a figura do padre Sérgio de Laugier de Beaureceuil, que era conde e se fez frade dominicano francês, de que já te falei. Estudou árabe e literatura islâmica e, depois do Cairo e do Iraque, foi viver para Cabul, no Afeganistão, cuja universidade o convidara a aceitar a cátedra de mística persa, de que era especialista. Viveu por lá duas décadas, tinha a sua capela, onde, todos os dias, consagrava, na eucaristia, ao fim da tarde, o pão que lhe coubera daquele que, ao almoço, os seus alunos muçulmanos com ele tinham partilhado. Ainda hoje os seus discípulos falam dele. Morreu longe dali, mas ficou-lhe lá a alma, perto deles. Como o pão, que todos os dias pedimos. Esse que só Deus nos dá. Dou-te a mão, com umas migalhas em que cabe a alma toda.

 

(a) Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira