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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

Gustav Mahler.JPG

Gustav Mahler

 

Minha Princesa de mim:

 

Vê tu que, depois de ter fechado a última carta para ti, e ter escutado, meditando, a 14ª do Shostakovich, me ocorreu o que acaba também por ser uma sinfonia em canções: Das Lied von der Erde, do Gustav Mahler. Composta, para seis poemas chineses traduzidos em alemão por Hans Behtge, em 1908-9, é contemporânea da 9ª e penúltima sinfonia daquele compositor, que aliás também medita na precaridade e transição da vida, e na aceitação conformada da morte. Esta lá está, bem presente, já antes Mahler dissera que as minhas obras são acontecimentos antecipados! E a Bruno Walter, em princípios de 1909: Passei, nestes últimos dezoito meses, por experiências tais que me custa falar delas. Como poderia eu descrever uma crise de tal dimensão? Vejo tudo a outra luz... Tenho, mais do que nunca, sede de vida... ...É extraordinário! De cada vez que ouço música, ou a dirijo, percebo as respostas mais nítidas a todas as minhas interrogações. Ou, melhor, percebo que elas não são interrogações... Sentia esvair-se-lhe a vida. Escuto a 9ª, em interpretação da Concertgebouw, dirigida pelo Leonard Bernstein, e lembrado do apontamento autógrafo do próprio compositor, à margem da partitura do 1º andamento da 9ª: Ó desvanecidos dias da mocidade! Ó amor espalhado! Para A Canção da Terra, não sei se recorra novamente a Bernstein que, neste registo com a Wiener Philarmoniker, escolheu para voz alternativa ao tenor (James King) o barítono Dietrich Fischer-Dieskau, ou a Otto Klemperer, com a New Philarmonia Orchestra, em que alterna, com o tenor Fritz Wunderlich, a meio-soprano Christa Ludwig. O mais provável será escutar ambas, e traduzir para ti as letras de que eu mais gostar, no sentido de me parecerem as que melhor te possam dizer o meu sentimento meditado por uma música que, enquanto tal, não é transmissível por carta. Quanto à 9ª sinfonia - e voltando ao tema destas cartas - recordo o que Alban Berg escrevia a sua mulher, em 1912: Voltei a percorrer a partitura da nona do Mahler: o primeiro andamento é o que Mahler fez de mais extraordinário. Vejo ali a expressão de um amor excepcional por esta terra, o desejo de nela viver em paz, de nela usufruir plenamente dos recursos da natureza - antes de ser surpreendido pela morte! Porque esta aproxima-se, irresistivelmente. Todo esse andamento está impregnado de sinais anunciadores da morte. Ela está omnipresente, ponto culminante de qualquer sonho terrestre... Sobretudo, claro está, naquele passo aterrador em que esse pressentimento se torna certeza: em plena alegria de viver, aliás quase dolorosa, a morte em pessoa se anuncia então, com força maior (mit  höchster Gewalt)... Pensossinto que para qualquer autêntico artista - como para qualquer homem com um projecto na vida - é sempre breve a vida, escasso o tempo. Porque não só vão fazendo as coisas, mas sim descobrindo os seus caminhos na obra da Criação. Para além de um possível sentimento de se ser diferente e insubstituível, ou, mais simplesmente, dessa forma de egocentrismo que é o gosto da nossa permanência, há o apelo de uma vocação sentida, esse nec plus ultra que, na consciência dos homens de fé transcendente, como Bach, é ad majorem gloriam Dei. Assim, entre os grandes, maiores serão aqueles que, com serena humildade, aceitem o termo dos seus dias. Gustav Mahler foi-se preparando. É arguta a observação de Alban Berg, acima transcrita: a vida de Mahler foi o constante combate da condição humana com o anjo de Deus, procurou superiorizar a sua circunstância (Sou três vezes apátrida! Como nativo da Boémia, na Áustria; como austríaco, na Alemanha; como judeu, no mundo inteiro. Em toda a parte um intruso, em nenhuma desejado!) por essoutra vida sua que era a música, como compositor e intérprete (maestro). Assim falou da sua infância difícil, num lar marcado pela violência doméstica: Os meus pais eram como o fogo e a água. Ele não passava dum teimoso, ela era a própria doçura. E sem essa aliança, nem eu nem a minha 3ª sinfonia existiríamos. E vem-me sempre, quando nisso penso, um estranho sentimento. Dessa terceira que ele descrevia assim: pondo-lhe os títulos por ordem: I. Entra o Verão; II. O que me contam as flores do prado; III. O que me contam os animais da floresta; IV. O que me conta a Noite (o Homem); V. O que me contam os sinos da manhã (os Anjos); VI.O que me conta o Amor; VII. O que me conta a Criança... A tudo chamarei o meu "Saber Alegre" : porque é isso mesmo. E muito nos diz ele aqui. Mas também de outras mais alegrias profundas, enquanto intérprete, como neste passo de uma carta a Anton Bruckner, escrita em 1892, depois de ter dirigido, em Sexta Feira Santa, o Te Deum daquele compositor católico fervoroso: Tenho finalmente a alegria de poder escrever-lhe: executei uma obra sua. Ontem, dirigi o seu sublime e poderoso Te Deum... Vivi no fim o que para mim é o maior triunfo que uma obra possa conquistar: o público quedou-se sentado e imóvel, sem qualquer ruído, e só quando maestro e intérpretes começaram a sair explodiram os aplausos. Para melhor entendermos, Princesa, tu e eu, os poemas que adiante traduzo - e são os que abrem e fecham A Canção da Terra, por escolha atenta do próprio Mahler - leiamos juntos este passo de uma carta de Junho de 1879 a Joseph Steiner: Ímpeto vital ardentíssimo, desejo ardente da morte: estes dois sentimentos reinam alternadamente em mim, ao ponto de por vezes se sucederem só numa hora. Uma coisa é certa: isso não pode durar indefinidamente!... Ó Terra adorada, quando, sim, quando receberás tu no teu seio o Abandonado? Estás a ver? A Humanidade pô-lo de quarentena, e ele foge desse refúgio frio e insensível, foge para ti! Acolhe o Solitário, o Insaciado, ó Mãe Universal! A primeira canção, Das Trinklied vom Jammer der Erde , traduz um poema de Li Tao Po:

Aí cintila o vinho

no cálice de oiro...

Mas não o bebas já,

deixa-me cantar primeiro!

O canto da minha dor

soará ledo na tua alma.

Quando a mágoa chega,

secam os jardins da alma,

murcham e morrem risos e canções.

É sombria a vida, escura a morte.

 

Ó Senhor desta casa!

Tens a adega cheia de vinhos de oiro!

Chamo a mim esta guitarra!

Tocar guitarra e esvaziar copos,

eis o que nos sabe bem!

Um cálice cheio de vinho no momento certo

vale bem mais que todos os bens da terra!

Sombria é a vida, escura a morte.

O céu será azul para sempre

e a terra igual a dar flores na primavera.

Mas tu, homem, quanto tempo viverás?

Nem por cem anos gozarás

de todas as podres vaidades da terra!

Olha para ali! Ao luar, sobre as campas,

um vulto agachado, selvagem espectro.

É um macaco! Não lhe ouves o riso trocista

a rasgar o ar tão doce da vida?

Bebe agora o teu vinho!

É chegada a hora, amigo!

Bebe o cálice de oiro até ao fundo!

É sombria a vida, escura a morte.

Este poema é de Li Tao Po, poeta do séc. VIII, na dinastia Tang. A canção final  (Der Abschied, o Adeus) tem letra de outros dois poetas taoistas chineses, Mong Kao Jen e Wang Wei, também coevos da dinastia Tang e versos finais do próprio Mahler. Aliás, este "mexeu" nas traduções alemãs de Die chinesische Flöte de Hans Bethge, para as pôr a seu jeito. E há, noutras línguas europeias, muitas outas versões desses poemas chinos. Uma vez mais, será ainda bastante livre a minha versão portuguesa, ainda que partindo dos textos fixados por Mahler. Assim, de Mong Kao Jen: 

 

Mergulha o sol atrás dos montes,

e sobre os vales a noite desce

em sombras cheias de frescura.

 

Olha! Como barca de prata, devagarinho,

se eleva a lua no lago azul do céu.

Sinto um sopro de brisa leve

percorrendo os pinhais escuros!

 

Na sombra, canta melodioso ribeiro,

e empalidecem as flores ao lusco-fusco.

 

Respira a terra em silêncio e sono,

eis que todos os desejos querem sonhar.

Os homens, cansados, recolhem ao lar

para que o sono lhes devolva a felicidade perdida

e os faça voltar à mocidade!

 

Silentes se aconchegam os pássaros nos ramos,

vai adormecendo o mundo...

 

Sopra o frio na sombra dos pinhais.

E aqui estou, à espera do meu amigo,

para um adeus derradeiro.

 

Tenho saudades, amigo, de saborear a teu lado

a beleza desta noite.

Por onde andarás? Deixas-me tão só!

 

De guitarra na mão, vou e venho

por sendas de erva tenra.

Ó beleza! Ó mundo prenhe de vida e amor eternos! 

 

De Wang Wei:

 

Apeou-se do cavalo e estendeu-lhe

a bebida do adeus e perguntou-lhe

para onde iria e porque seria assim.

 

Falou com voz velada:

Ó meu amigo, a mim não foi dada

a felicidade neste mundo!

Aonde for percorrerei montes

à procura de repouso para coração tão só.

 

Vou a caminho da pátria, da minha habitação.

Lá longe, não andarei perdido.

Sereno está meu coração e espera a sua hora!

 

Do próprio Mahler:

 

A terra amada toda se cobre de flores

e rebentos verdes, pela Primavera!

A luz pinta de azul  todos os horizontes!

Eternamente... eternamente... 

 

Mas antes desta canção de adeus, que é a sexta, e contrastando, a quinta, com versos de Li Tao Po, terminava em modo terrenal de titubeante, etilizado, esquecimento:  

 

Que ouço ao acordar? Escuta!

Um pássaro canta em seu ramo.

Pergunto-lhe se chegou a Primavera,

parece-me um sonho.

 

O pássaro gorjeia: Sim! Está aí

a Primavera, chegou durante a noite!

Abro, maravilhado, os olhos:

o pássaro canta e ri!

 

Volto a encher o copo

e bebo-o todo e canto tanto

que até a lua brilha

no firmamento escuro!

 

E quando mais cantar não posso,

volto a dormir:

Que me importa a Primavera?  

 

Mas dessa e doutras transfigurações falaremos em próxima carta. Estendo-te a mão com um cristalino cálice de vinho doirado. Dizem que é do Porto. Sirvo-me de outro, para mim, e contigo celebro a memória da condição humana, o amor da terra, pela graça da vida, o amor do céu, pela saudade de Deus! A cantar Das Lied von der Erde, composta na vanguardista Europa do sec.XX com inspiração reconhecida da China Tang do sec.VIII. É bonito!


Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira