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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA, MARQUÊS DE SAROLEA

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Kenzaburo Oê

 

Minha Princesa de mim:

 

No crepúsculo  de uma semana de voluntária solidão, pus-me esta manhã à escuta do concerto para violoncelo do meu homónimo Saint-Saëns. Por qualquer oculta inspiração, logo a melodia inicial do instrumento solista acordou em mim ecos de muita meditação sobre a condição humana e a dignidade da pessoa. O escritor japonês Kenzaburo Oê (Prémio Nobel em 1994) completa este ano os seus 80 de vida. Em entrevista conduzida por Philippe Pons para Le Monde (24/25 de Maio de 2015), faz afirmações que aqui traduzo para tua reflexão: Edward Saïd era meu amigo. Tínhamos a mesma idade. Comunicávamos por carta e visitei-o várias vezes quando estava doente. Falávamos deste período da vida que era doravante o nosso: esta catástrofe pessoal da morte que se aproxima. A idade devia trazer a serenidade, mas não é bem assim: as obras tardias são marcadas pela intranquilidade. E foi precisamente nesse momento da minha reflexão sobre o fim da minha vida que se deu o acidente na central nuclear de Fukushima, em Março de 2011: as duas catástrofes, a pessoal e a coletiva, confundiam-se. ... Sou um homem vulgar envelhecendo, que recebeu uma educação democrática e se atém a ela: é esse o meu compromisso. Um escritor é alguém que assume a sua época, com as suas esperanças, as suas contradições, os seus dramas. Tento reflectir sobre o que é a dignidade do homem, e defender os valores humanistas que me parecem fundamentais. Enquanto romancista o meu trabalho está, sem dúvida, acabado: em três anos escrevi umas sessenta páginas... Servi para alguma coisa à sociedade? Duvido. Mas continuo a participar em meetings e a lembrar que, se nos esquecermos da catástrofe nuclear de Fukushima, outras acontecerão. Sou como um saltimbanco que vai de aldeia em aldeia, a cantar o seu refrão... Terá impacto? Penso que não. Mas o importante é que as pessoas se reúnam à volta de uma ideia. É no sobressalto para superar as catástrofes pessoais ou colectivas que reside uma parte da dignidade humana. Está aqui posta uma questão fulcral, marca-se um ponto de partida para a reflexão e o debate sobre os acontecimentos, as previsões e interrogações que afligem o nosso tempo: nada deverá nem poderá ser feito ou respondido sem a referência fundamental ao respeito da dignidade humana. Mas o que é a dignidade humana? Factores de ordem cultural, religiosa, ideológica, política, económica, têm-na diferentemente definido. O conceito de dignidade, como o de honra, longe de ser unívoco e consensual, tem sido variável. Assim, talvez nos seja necessário fazer o esforço de encontrar um denominador comum e defender os valores humanistas fundamentais. A dignidade do homem é igual em todos, não depende de cada um, e qualquer de nós só pode - e deve - reconhecê-la como tal, em si e nos outros. Tal atitude de princípio impõe-nos, consequentemente, o reconhecimento de valores fundamentais que são direitos e deveres recíprocos e universais. A consciência dessa dignidade humana começa por cada um de nós. O primeiro livro de Kenzaburo Oê que li intitula-se M/T to Mori no Fushigi no Monogatari (M/T e os contos das maravilhas da floresta), fala-nos dos mitos e lendas relativos ao nascimento e fortaleza da aldeia natal do romancista, tal como sua avó lhos contara, em cumprimento de velha tradição oral: História antiga, quem sabe se falsa, se verdadeira? Mas como é um conto velhinho, tens de acreditar nele, mesmo que seja mentira... Era ainda menino, o Kenzaburo, nesses anos em que deflagrava a Grande Guerra do Pacífico, e no Japão se aclamava, jurava e servia a bandeira do Dai Nippon (grande Japão ou Japão maior) com o seu disco solar, enorme e vermelho, emitindo raios invasores... Na escola, o professor da 3ª classe mandara os alunos fazer um desenho de como era o mundo em que viviam, e fez, ele mesmo, no quadro negro, uma ilustração do tema: Desenhou o arquipélago do Japão, até às Sacalinas, e integrando Taiwan e a península coreana e, além do mapa do Império do Dai Nippon, destacou, a giz vermelho, o continente chinês e os diferentes territórios ocupados na Ásia. E, por cima, nas alturas, rodeados de nuvens, os rostos de "Suas Majestades" o Imperador e a Imperatriz... ...Tracei, por minha vez, na minha folha de desenho, uma representação semelhante. Mas em lugar do mapa dos vizinhos do Japão, desenhei o vale na floresta e, em vez do Imperador e da Imperatriz, escrevi M/T. São estas as iniciais escolhidas para referir Oshikomé e Meisuké Kamei, dois entes míticos ou lendários, fundadores da identidade própria da aldeia do romancista. Reconheço aqui uma fórmula de afirmação da dignidade, sempre única, de uma pessoa. Nenhuma fabricada grandeza, nem tentativa nem tentação de a absorver, a poderá destruir, ou sequer diminuir. A dignidade é íntegra e eterna, e o cristianismo ensina que é o valor divino do humano. E todos somos igualmente dignos. Mas nem sempre assim nos entendemos. Somos obsessivamente propensos a distinguirmo-nos, e até os apóstolos, discípulos amigos de Jesus, caíram na tentação de reclamar lugar cimeiro numa imaginária hierarquia celeste... A necessidade social de diferenciar funções e estabelecer organigramas e hierarquias, e regras de relacionamento, todavia, não elimina a verdade ontológica da dignidade humana: o escravo, a prostituta, o santo, a benemérita, o rei ou juiz, como o facínora, são essencial e igualmente dignos, não por mérito próprio, mas pela sua natureza. E mesmo quando o demérito dos seus comportamentos for razão de sanção social, não se esqueça nunca a sua dignidade ontológica. O que mais me ofende na pena de morte é pensarsentir que o roubo de uma vida é fechar a porta à conversão, vocação da dignidade humana. Bem sei que a consideração da dignidade de uma pessoa nem sempre é espontânea, muito menos fácil. Ela não é obra nossa, antes será uma graça essencial e constitutiva de todos e cada um. Talvez, mesmo, escape ao nosso entendimento, e não depende, certamente, do relativismo das nossas culturas e religiões. Descobrimo-la por uma fé sem religião necessária nem cultura propiciatória. O que não impedirá - antes e muito pelo contrário - um cristão de pensarsentir que a dignidade da pessoa humana está no âmago do sopro divino que nos criou. Basta ler os evangelhos para saber que a boa nova é essa alegria da vocação de todos nós, perdidos e achados, sem precedências, ao reconhecimento de Deus. Sabes como me entristece, ou mesmo horroriza, a audição ou leitura de discursos de cristãos - até, e sobretudo, de padres - que não têm uma palavra sobre o amor de Deus, mas apenas falam de um deus-polícia, que eles construíram à sua imagem e semelhança. Essa inversão da consciência religiosa, contrariando a mensagem evangélica, atinge, por vezes, tais proporções que o próprio papa Francisco tem admoestado representantes de organizações católicas, tal como, na última festa do Corpus Christi, lembrou que a eucaristia é o sacramento, por excelência, da reconciliação, e não um prémio dado aos bem comportados... Surgem, nos dias de hoje, muitas questões acerca da dignidade humana: migrações e guerras, assassinatos e genocídios, violações e abortos, xenofobia e outros receios e ódios ou raivas, homossexualidade e transgéneros, prolongamento da vida e manipulação de genomas humanos... Tantas são e tão fortes, que este teu admirador, isolado em silencioso casarão rural, mesmo sem cajado onde sustente o queixo, baçamente se pergunta: que Homem somos? Por onde anda a alma? Há dias assim. Quiçá dos tais em que só com Deus conseguimos falar. Assim nos guarde em sua misericórdia. Dou-te a mão.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira