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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS: MANTAS DE BEIRA-MAR

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Inês, minha amiga de pequenina,

 

Nada tenho dito, como referes na tua última carta, mas podes crer que leio atenta e releio as tuas preocupações, alegrias e outros bens que comigo queres partilhar. Os tempos não têm sido fáceis parece mesmo que aquelas manhãs galãs de outras eras, correm as cortinas ao nosso acordar. Contudo, adivinha tu, que pensamentos vieram comigo de Paris a semana passada? Pois é, lá estávamos as duas na Quinta do Morgado e discutíamos a cor do Danúbio à beira do riacho da Lapa. Definida a cor, dizias tu que te bastava imaginar o som das valsas e logo o esquecimento de ti mesma te conduzia a todas as desejadas imprudências e às imprevidentes horas, daquelas tão especiais, que nunca esperam que a felicidade venha ter com elas. Sentias-te então como se estivesses a desintoxicar do mundo e contavas-me tudo ao mesmo tempo, no tal período de esquecimento de ti mas sempre dentro da cor que davas ao Danúbio. Eu ouvia-te, atenta. A imobilidade do calor dessa tarde, que recordo, fazia com que as tuas palavras me chegassem lentas, numa indescritível procissão cujo guião dormitava. Melhor para mim querida Inês, melhor para mim, pois dava-me tempo. Só assim conseguia fazer a distinção entre o que te dissera antes deste deslumbramento e o que não dissera, e colocando a escolha da tua cor na minha razão, perceber afinal o quanto as tuas escolhas, do que de ti conhecia, eram feitas contra ti mesma, e daí ao passo do teu próprio esquecimento de ti, ia apenas um ar de tempo.

 

Se te lembras, era precisamente apanhando no ar, esse ar de tempo que, eu, tão estrangeira nesse país quanto nele nascera, te dava a mão ao de leve e iniciava os meus círculos de baile cada vez mais largos soltando-te, e tu, tão receosa que por eles eu partisse, gritavas baixo: Isadora, Isadora, eu estava a mentir, a mentir sem dar por isso. Não dances mais para longe de mim. Tudo isto é o quê?

 

Inês, quantas saudades te envio?

 

Isa

 

 

por Teresa Bracinha Vieira