Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Cine-Teatro S. João de Palmela

 

Projetos, transformações, qualidade

Começo por esclarecer o título desta crónica, pois em rigor o edifício e Centro Cultural que aqui analisamos intitula-se Cine-Teatro S. João: e dá gosto ver o equipamento cinematográfico que o valoriza e aperceber a modernização que comportou como tal. Mas pretende-se aqui realçar a função cultural que, através da Câmara Municipal de Palmela, se desenvolve neste belo edifício de espetáculos que, desde o início dos anos 50 do seculo passado marca a cidade e marca a vida cultural de toda a zona e do País: no plano de espetáculos, insta-se, mas, desde já o dizemos, no plano da cultura.

É que o Cine-Teatro São João, municipalizado desde 1989 depois de quase uma década de inatividade, e antes que fosse demolido – como tanto ocorreu por esse país fora, nestes grandes edifícios situados em zonas urbanas valorizadas - funciona como centro de espetáculos e centro de formação musical e cultural, devidamente restaurado e arquitetonicamente e tecnicamente valorizado.

O que se conseguiu a partir, repita-se, da municipalização e da transformação do Teatro em centro musical mas também num verdadeiro Conservatório. E tenha-se presente dois aspetos relevantes de política local: por um lado, o desenvolvimento urbano e de infraestruturas, designadamente de comunicação, poderia ter conduzido, como tanto se verificou aliás por esses pais fora, à demolição do próprio edifício: Palmela dos anos 40/50 representava uma decentralização e distanciação relativamente a Lisboa, que hoje já não se verifica. Daí, o mérito da construção do Cine-Teatro num centro de mais complexo acesso na época: mas também o mérito da sua conservação, recuperação e manutenção urbana e cultural, hoje que (felizmente) é muito mais fácil ir e vir de Lisboa a Palmela do que na época de construção e inauguração.

Nesse aspeto, mais se justifica um certo “histórico” de infraestrutura cultural que marca o município. Desde logo, de acordo com publicações da Câmara Municipal de Palmela, regista-se um projeto de Teatro datado de 1948, da autoria do Arquiteto Raul Rodrigues de Lima, que tanto temos encontrado nesta sequencia de artigos sobre teatros e cine-teatros. Não passou de projeto: mas já na altura se pensava na extensão do edifício para uma esplanada de espetáculos que aliás não foi posteriormente construída. (cfr. “Meio Século de Magia – Cine Teatro S. João” ed. Câmara Municipal de Palmela - 2002).

A ideia manteve-se e em 1949 é apresentado um novo projeto de Cine-Esplanada, com então se denominou, agora da autoria do Arquiteto alemão Willy Braun, autor também de outras salas de espetáculo (construídas ou não) em Portugal. Esta foi erguida segundo o projeto inicial. Regista-se também o nome de Humberto da Silva Carvalho como elemento dinamizador. E é de salientar designadamente os estuques de Manuel Marques Dias. A esplanada é que nunca foi construída.

Constituído foi pois o Cineteatro, a funcionar em pleno desde 26 de julho de 1952. É interessante registar que a inauguração estava prevista para uma semana antes, com a exibição de “A Garça e a Serpente” filme de Artur Duarte extraído do romance homónimo de Francisco Costa. Acabou por atrasar sete dias, e desde logo com um duplo evento: no dia 26 de julho o filme americano “As Aventuras de D. Juan”; e no dia seguinte “a alegre revista alemã Que Pernas que Ela Tem!” diz o cartaz reproduzido, com mais documentação no Boletim do Museu Municipal de Palmela (cfr. “Museu”- Maio-Outubro 2010).

O Cineteatro encerrou em 1981 e foi adquirido pelo Município em 1989, devidamente recuperado com um acrescento do palco e outras obras, e a funcionar gerido pela CMP desde 1991.

E nesse aspeto, há que realçar a rentabilidade cultural e pedagógica do edifício, que permite, além do mais, a exibição de orquestras sinfónicas. E mais ainda: no Cineteatro São João funcionam serviços ligados à gestão camarária da Cultura, à atividade docente artística e ainda espaços adequados a museologia.

Com tudo isto, mantém-se a beleza do edifício, marcado por uma varanda - torreão que, na sua originalidade, porque aplicada a uma sala de espetáculos, domina com grande qualidade arquitetónica e estilística o centro urbano de Palmela.

 

DUARTE IVO CRUZ