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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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COM ÉMILE ZOLA E GEORGES BERNANOS

3.   N O V A   C A R T A   T E R C E I R A

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Minha Princesa de mim:

O erro de muitos padres, mais zelosos do que sábios, é suporem a má fé: «Vocês já não acreditam, porque crer vos incomoda.» A quantos padres ouvi falar assim! Não seria mais justo dizer: a pureza não nos é receitada como um castigo, é uma das condições misteriosas mas evidentes  -  atesta-o a experiência  -  desse conhecimento sobrenatural de nós mesmos, de nós mesmos em Deus, que se chama fé. A impureza não destrói esse conhecimento, aniquila-lhe a necessidade. Já não acreditamos, porque não desejamos acreditar mais. Já não queremos conhecer-nos. Essa profunda verdade, a nossa, já não nos interessa. E é bonito dizermos que os dogmas que, ontem, obtinham a nossa adesão, continuam presentes no nosso pensamento, que só a razão os afasta, isso que importa? Na realidade, não possuímos mais do que aquilo que desejamos, pois que para o homem não há posse total, absoluta. Já não nos desejamos. Já não desejamos a nossa alegria. Só em Deus nos poderíamos amar, e já não nos amamos. Nem nunca mais nos amaremos, neste ou no outro mundo, eternamente...   ... Escrevi isto em grande e plena angústia do coração e dos sentidos. Tumulto de ideias, de imagens, de palavras. A alma cala-se. Cala-se Deus. Silêncio. Traduzo-te estes passos do Journal d´un Curé de Campagne, Princesa, ouvindo ainda as Rosenkrantz Sonaten do Biber. Viajei de Zola a Bernanos, de cura a cura de aldeia, partilhando essa interrogação da nossa solidão sobre o mistério de nós, que fatalmente sempre nos conduz a essa encruzilhada do desejo e do amor... O padre de Bernanos nada tem a ver com o tema polémico e literariamente exploradíssimo do celibato, do conflito entre os deveres do sacerdócio e as forças da natureza, de que trataram tantos romancistas, médicos e fisiologistas, um destes, aliás, o dr. Jean-Ennemonde Dufieux, dando a um livro seu, publicado em 1854, um título que resume bem o fundo da questão: Nature et Virginité: considérations physiologiques sur le célibat religieux. Parece-me ainda que, sendo tão vulgar o assunto, nem sequer fará muito sentido suspeitar ou atribuir plágios de romances ou autores. No badalado cotejo de O Crime do Padre Amaro com La Faute de l´Abbé Mouret, esquece-se quase sempre que, não sendo evidentemente alheio ao pretenso carácter antinatural do celibato, nem à alegada artificialidade e hipocrisia da lei canónica, Zola escreve sobretudo um conto de exaltação da natureza primitiva: o próprio parque dos amores, chamado Paradou, é uma metáfora do Paraíso (Paradis) do livro do Génese, e mesmo o "suicídio" da jovem amante grávida  --  que  é desespero de causa, por perceber que o regresso do padre ao dever religioso o rouba ao amor dela  --  processa-se num quarto fechado, onde a pobrezinha se fechou, rodeada de flores silvestres, cujo perfume inebria e mata... Enquanto que o livro de Eça é apologeticamente anticlerical, e uma crítica feroz de uma sociedade provinciana e beata, onde o pecado tem mais a ver com o egoísmo, a intemperança, a luxúria das pessoas  --  ou, ainda, com a sua ganância, carreirismo e falsas aparências  --  do que com qualquer desafio às leis determinantes da natureza. A crítica social tem aí a boca do palco, Eça não se demora em descrições de êxtases carnais, como Zola, por exemplo, no relato do advento do desejo de Sérgio, com Albina mergulhado na ternura telúrica, genética, da vegetação do Paradou: Sei que és o meu amor, vens da minha carne, aguardas que te tome nos meus braços, para que nos tornemos num só... Sonhava contigo. Estavas no meu peito e eu dava-te o meu sangue, os meus músculos, os meus ossos. Não sofria. Tiravas-me metade do meu coração, com tanta doçura, que era para mim uma volúpia partilhar-me assim. Procurava o que tinha de melhor, de mais belo, para te lo abandonar. Se tivesses levado tudo, ter-te-ia agradecido... E teria acordado quando saíste de mim. Saíste pelos meus olhos e pela minha boca, bem o senti. Estavas toda quentinha, toda perfumada, tão acariciante, que foi o próprio estremecimento do teu corpo que me ergueu. Sérgio refere-se à  recuperação da sua saúde, cuidada por Albina, a quem seu tio Pascal, médico, o confiara, depois do abalo que, na sequência de uma oração mística a Nossa Senhora, o prostrara. Talvez por esse paralelo estabelecido entre a devoção à Virgem, mulher ideal, e a amante, mulher real, Barbey d´Aurevilly, entre outros críticos do romance, tivesse dito: É o naturalismo do animal, posto, sem pudor e sem vergonha, acima do nobre espiritualismo cristão!... Não creio que, neste tempo de coisas baixas, se tenha escrito algo que, no conjunto, nos pormenores e na linguagem, fosse tão baixo como La Faute de l´Abbé Mouret (in Le Constitutionnel, 20 de Abril de 1875). Mas dizia-te eu, Princesa, que o cura do diário de Bernanos respira outro ar, ainda que vivendo neste mundo, entre as gentes. Mesmo se nunca falasse de Deus, de Cristo, de Maria ou de todos os santos, sempre adivinharíamos nele o homem religioso, livre e despojado, humilde, sofredor e sensível, esse que aí está, para servir. Em carta enviada, de Palma de Maiorca, em 6 de Janeiro de 1935, a Robert Vallery-Radot, escreve Bernanos: Comecei um belo velho livro de que, penso eu, vais gostar. Resolvi fazer o diário de um jovem padre, à sua entrada para uma paróquia. Vai buscar o meio dia às catorze horas, desenrascar-se como quatro, fazer projectos miríficos, que falharão naturalmente, deixar-se, mais ou menos, enganar por imbecis, viciosas, ou sacanas, e, quando pensa que tudo está perdido, terá já servido a Deus, na medida exacta em que pensava ter-lhe prestado um mau serviço. A sua ingenuidade terá vencido tudo, e morrerá tranquilamente de cancro. O Journal foi certamente o livro que mais intimamente o seu autor gostou de escrever. Pensossinto, Princesa, que Georges Bernanos conseguiu aí a sua mais profunda meditação sobre o mistério da vida cristã. Em carta a sua irmã, ainda em Janeiro de 1935, confessa: Aliás, o livro que neste momento escrevo compensa-me das minhas penas. Creio que o sobrenatural corre em cheio por ele. É um pouco idiota falar assim do que fazemos, mas parece-me que dou um abanão às almas...   ... Vejo erguer-se, a pouco e pouco, à minha frente, um rosto inesquecível, e tudo tento para o pintar com toda a minha fé e todo o meu amor. Que olhar, dia e noite, sobre o meu! Esse padre não vive em obsessão do pecado da carne, nem de qualquer outro individualmente perseguidor, menos ainda no zelo de regulamentos canónicos. Tem sobre o drama da condição humana, como sobre a luta de Jacó com o Anjo, ou sobre a economia do pecado e da graça, o olhar mortificado de Cristo na cruz, a dor que perdoa, regenera e é mãe da alegria. Como a heroína de La Joie, também ele, na hora da sua morte, professará, como Bernanos ele mesmo, essa verdade intimíssima ao coração de Santa Teresinha do Menino Jesus: Tudo é graça! Regista no seu diário o que disse a Chantal, nobre paroquiana revoltada contra o conde seu pai e a sua madrasta: Não passo de um pobre padre, muito indigno e muito infeliz. Mas sei o que é o pecado. Você não sabe. Todos os pecados se assemelham, há um só pecado. Não lhe estou a falar numa língua obscura. Estas verdades estão ao alcance do mais humilde cristão, desde que ele queira vir cá buscá-las. O mundo do pecado faz frente ao mundo da graça, como a imagem reflectida de uma paisagem à beira de uma água escura e profunda. Há uma comunhão dos santos, há também uma comunhão dos pecadores. No ódio que os pecadores têm uns aos outros, no desprezo, eles unem-se, abraçam-se, agregam-se, confundem-se, e um dia não serão, aos olhos do Eterno, mais do que esse lago de lama sempre viscosa sobre que passa e volta a passar em vão a imensa maré do amor divino, o mar de chamas vivas e rugidoras que fecundou o caos. Quem somos nós para julgar o pecado de outrem? Quem julga o pecado, torna-se num só com ele, desposa-o. Quanto a essa mulher que você odeia, você acha que está muito longe dela, mas afinal o seu ódio e o pecado dela não passam de dois rebentos do mesmo ramo. Que importam as vossas zangas? gestos, gritos, nada mais... só vento! A morte, seja como for, em breve vos devolverá à imobilidade, ao silêncio. Que importa isso tudo se, já a partir de agora, vós estais unidos no mal, apanhados na ratoeira do mesmo pecado  --  uma mesma carne pecadora  --  companheiros  --  sim, companheiros!  --  companheiros para a eternidade. Já olhámos, Princesa, para outros retratos de padres feitos por Zola. Não te falei de outros ainda, que serão a maioria, por não lhes ter achado densidade espiritual:  são exemplos desse clero que, aos olhos das gentes, sobretudo urbanas, da segunda metade do século XIX, influenciava, na sombra dos confessionários, as consciências femininas, e, na urbanidade dos salões burgueses, a condução da res publica, as distribuições de favores e nomeações. A literatura da época está cheia deles, certamente por haver muitos assim. Também por isso, são em regra enaltecidas as excepções, pese embora o "castigo" que as diferentes novelas frequentemente lhes reserva: eis a figura do justo e do inocente perseguidos. Há ainda aqueles casos de clérigos fanáticos que, insensíveis à fragilidade humana, trovantes condenam os erros e pecados dos outros. Mas não é desses todos que cabe falarmos aqui, em cartas amigas, com alguma intimidade e muita confiança. A nossa conversa não é de análise social nem de crítica de costumes, antes tem a ver com esse companheirismo de todos na condição humana... Chego assim ao padre Pierre Froment, que perde a fé, mas mantém uma piedade muito humana e atenta aos outros. Uma das últimas personagens criadas por Zola, o próprio nome  --  Pedro Trigo  --  é um anúncio: primeiro papa e pão. Um novo cristianismo? Sou tentado a imaginar que o seu autor, no fim da vida, se entusiasma com o projecto espiritual de um cristianismo laico, sem padres nem igreja. (Estarei a pensar em Tolstoi?). Pierre Froment surge, não só como eixo da trilogia das cidades (Lourdes, Rome, Paris são os títulos dos três romances escritos, sob a referência abrangente de Les Tois Villes, em 1894, 96 e 98, respectivamente) mas será ainda o pai de Mathieu, Luc, Marc e Jean, criados para autores dos "evangelhos" (Les Quatre Évangiles) : Fécondité, Travail, Vérité, este 3º já póstumo (1903), os dois outros publicados em 1899 e 1901, três e um ano antes da morte de Zola. O 4º nem esboçado ficou. Os valores que neles se defendem  --  no conturbado período da viragem do século XIX para o XX  --  são próprios do humanismo cristão da Igreja Católica: fecundidade da família, trabalho honesto, amor da verdade. Porque terá, então, triunfado tanto afastamento, tanta surdez entre o mundo moderno e a Igreja clerical? Porque terá havido tanto arremesso recíproco de queixas e acusações? Se Bernanos estivesse hoje aqui, conversando comigo, talvez juntos fizéssemos a mesma pergunta: teremos esquecido aquela sublime lição de Jesus de que quem nunca pecou lhe atire a primeira pedra? Só uma Igreja humilde, Princesa, poderá despertar nos outros a memória evangélica... Dou-te a mão.

                                 Camilo Maria  

        

Camilo Martins de Oliveira