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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CONTOS BREVES

Santo António.JPG
Santo António, Columbano
 

1. O NATAL DE SANTO ANTÓNIO
 

Avançava a noite, António acordou estremunhado e perplexo: despertara-o uma voz de mulher, um segredo que meigamente o chamava pelo seu nome de frade menor... Não seria de sua mãe aquela voz, ela sempre o tratara por Fernão, e sempre o deixara dormir, pressentindo que se deitara tarde, talvez nem sempre pelas melhores razões... Mas era a sua mãe. Esta noite, também tarde recolhera, tinham os peixes insistido em que lhes falasse de Jesus à luz do luar. De volta ao convento, balbuciara um padre-nosso e caíra ferrado no sono. Sentiu frio, como se a sua cela escapasse ao calor estival de um junho italiano. Tossiu e logo resguardou a garganta na lã rude do escapulário do seu hábito franciscano. Vieram-lhe calafrios, como se o inverno ali estivesse, para o incomodar. Mas logo a doce voz de uma mulher chamou de novo: "António, frei António, vem ajudar-me!" Abriu os olhos, viu que estava deitado num monte de feno húmido, à beira de uma manjedoura, que o hálito de um boi e de um burro, ajoelhados atrás, brandamente aquecia. Um homem robusto, debruçado sobre ela, dela retirava um menino e o entregava aos braços acolhedores de uma senhora linda. Seria a mãe daquela criança, e falou-lhe, sorrindo: "Frei António, queres pegar-lhe ao colo? Chama-se Jesus, é o filho que Deus, por mim, destinou a todos, a ti também..."

O frade desenrolou o escapulário do pescoço, e com ele agasalhou o menino que aconchegou ao peito. Mirou-o, e muito com os olhos do coração. Sentiu junto à coxa esquerda, no bolso fundo da túnica, o peso duro de um volume e sacou-o: era um vaso de barro vermelho com um manjerico gloriosamente verde e cheiroso. Levantou-o à altura do menino, e logo este acariciou aqueles rebentos e, rindo muito, levou a mesma mãozinha ao rosto de quem lhe dava colo, para lhe oferecer perfume mais grato do que incenso.

Desde então, António, que conversara com os peixes, nunca mais comeu sardinhas, e foi passeando pelo mundo, com o menino ao colo e cheiro a manjerico.

 

Camilo Martins de Oliveira