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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CONTOS BREVES

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Câmara Municipal de Cascais


4. A MORTE E O DIA

Já lá irão uns dez anos, não conto bem, cheguei a esta idade em que cada década nos parece um ano apenas. Mas lembro-me desse dia como se fosse hoje. Ao tempo, pelo Verão, saía de casa muito cedo, com dois netos pela mão - uma à direita, o outro à esquerda: a Inês, a chegar aos seis anos, o Tomás com quatro e meio. Descíamos o Monte Estoril até ao mar, procurávamos, na maré baixa, uma mancha de rochas onde pudéssemos descobrir caranguejos minúsculos, burriés e conchas várias... Os pequenos, descalços e de cócoras - como eu, tal qual - encantavam-se com aquele movimento de águas e vidas, respirando a transparência da manhã, acolhendo o sol ainda tímido. Contava-lhes então como, sessenta anos antes, quando ainda não havia o paredão por onde tínhamos caminhado, com outros garotos eu andava por ali, pela costa rochosa, e apanhávamos lapas e mexilhões e os comíamos crus. Ficavam os meus netos com ganas de provar um burrié, e eu levava - os então ao mercado de Cascais, a comprar uns mariscos vários, que os três preparávamos para o almoço. Creio que também assim aprendiam a comunhão do mundo, ou como todos pertencemos à natureza que Deus criou e nos dá vida. E a tira, individualmente: mas nada se perde, tudo se transforma...  De regresso a casa, atravessávamos o Jardim dos Passarinhos, onde em certa manhã fotografei os netos em cenários quase iguais aos de retratos meus aos três anos. E quando lhes mostrava os mesmos, eles miravam-me com sorrisos que, nos olhos deles, diziam incredulidade e amor. Logo me reconheciam naquelas fotografias, porque me conheciam e sempre me tinham visto em tamanho maior e com barbas... O coração não lhes mentia. A manhã, entretanto, já se fizera dia claro, meridiano, criador. Parámos junto ao tanque em que nadavam uma tartaruguitas e outras se enxugavam ao sol. Uma delas, maior, parecia mais velha, talvez doente. A Inês puxa-me o braço direito e pergunta: - «Avô, aquela está velha, doente! Vai morrer?» Respondi-lhe que não sabia se morreria agora, mas qualquer dia haveria de morrer... «Porquê, Avô?» Porque tudo o que nasce, vive e morre. «Nós também!» Também. Puxam-me então pela mão esquerda. É o Tomás. Baixo para ele os olhos e dou com os dele, escuros e luminosos, sérios e firmes. Diz-me: «Avô, o Tomás não nasceu!». Tinha razão: somos todos eternos no coração de Deus.

 

Camilo Martins de Oliveira